Leonardo Attuch investigou as relações comerciais e militares com o Iraque nos anos 70 e 80
Um Saddam Hussein amigo do Brasil. É esse o perfil pouco conhecido e raramente divulgado do ditador iraquiano que o jornalista Leonardo Attuch recupera numa pesquisa que retrocede aos anos 70/80, em busca dos negócios bilionários e os muitos interesses - econômicos, políticos, militares - que uniram os dois países. O resultado está em
Saddam, o amigo do Brasil: a história secreta da conexão Bagdá (Qualitymark, 224 páginas, R$ 35). Attuch é jornalista especializado em economia e um dos vencedores do Prêmio Citibank de Excelência Jornalística. Neste livro, ele analisa a importância do Iraque para a história recente do Brasil, quando o país ainda estava longe da autosuficiência na produção de petróleo e Saddam Hussein foi um grande aliado. Ao
JB, Attuch falou das maiores revelações que coletou na pesquisa e de temas que, ao longo do tempo, viraram tabu, como a bomba atômica.
- Nos anos 70/80, quais eram as principais pautas em comum nas conversas entre Brasil e Iraque?
- O mundo vivia sob os efeitos dos choques do petróleo e a economia brasileira já era extremamente dependente de capitais externos. Sem crédito, o país tinha dificuldades para importar petróleo, mas o Iraque logo solucionou esse problema. A gratidão iraquiana decorre do fato de que o Brasil não aderiu ao embargo proposto pelo Reino Unido e pelos Estados Unidos em 1972, quando Saddam Hussein nacionalizou a produção local de petróleo. Enquanto o mundo desenvolvido boicotava o petróleo iraquiano, o Brasil, assim como a antiga União Soviética e a Itália, foi um dos primeiros países a comprar de Saddam. Depois, quando os preços dispararam, o Iraque vendeu petróleo ao Brasil em condições especiais e também não exigiu cartas de crédito. Além disso, permitiu que o Brasil compensasse aquelas importações vendendo uma série de produtos nacionais. O Brasil vendeu alimentos, automóveis e fez as maiores obras de engenharia do Iraque. O comércio entre os dois países somou mais de US$ 30 bilhões. Além disso, houve períodos em que o Iraque respondia por 70% da importação de petróleo brasileira.
- E a importância do Iraque para as empresas brasileiras em particular?
- Para as empresas brasileiras, o Iraque também foi muito importante. Numa época em que não se tinha tanta cultura exportadora, foi lá que empresas como Sadia e Volkswagen começaram a conquistar o Oriente Médio. A Volks, com a venda de 175 mil Passats de uma só vez, fez o maior contrato da história da indústria automobilística mundial. Era uma logística tremenda. Os carros chegavam por Amã, na Jordânia, e depois seguiam ao Iraque. Em vez de pagar em dólares, os iraquianos mandavam o petróleo por caminhões até a Jordânia, de onde era trazido ao país. Para o Brasil, que não tinha divisas, era uma forma de adquirir petróleo sem usar dólares, que já eram escassos.
- Isso tudo quanto à questão econômica. E a vertente militar?
- A cooperação militar também começou no fim dos anos 70. A conexão se dava entre Bagdá e São José dos Campos, em São Paulo, que concentra todo o pólo aeroespacial brasileiro. No início, pensava-se em desenvolver conjuntamente sistemas de mísseis balísticos. Depois, a cooperação migrou para o campo nuclear. Em 1981, dois aviões russos decolaram de São José dos Campos rumo a Bagdá levando o urânio que vinha das minas brasileiras. As autoridades brasileiras sabiam que a finalidade era desenvolver a bomba atômica. Até porque o Iraque, que possui as maiores reservas de gás natural do mundo, nunca precisou de energia nuclear.
- Um de seus entrevistados, o brigadeiro Hugo Piva, diz que o Brasil vendeu urânio para que Saddam Hussein construísse a bomba atômica. Como isso aconteceu?
- O brigadeiro Hugo Piva, que posteriormente foi contratado para desenvolver mísseis para o regime de Saddam, coordenou as exportações de urânio para o Iraque. E ele confirma que não cabia ao governo brasileiro averiguar qual seria a utilização daquele urânio. Também revela que as exportações não foram controladas por agências internacionais.
- Havia outras afinidades geopolíticas além da econômica e militar, não é mesmo?
- Naquele período, tanto o Brasil quanto o Iraque estavam buscando uma espécie de emancipação em relação ao mundo desenvolvido. Os iraquianos tinham grande simpatia pelo Brasil, porque nós nunca tivemos pretensões hegemônicas. Por isso, para eles, a aproximação era tão estratégica. E os militares sonhavam com o Brasil Grande.
- Para a realização da sua pesquisa, você entrevistou muita gente, incluindo políticos, empresários, etc. De tudo o que ouviu, qual a informação que lhe despertou maior interesse pelo ineditismo?
- Há várias coisas interessantes. Em correspondências reservadas ao presidente iraquiano, o general João Figueiredo referia-se a Saddam Hussein como seu ''grande e bom amigo''. Nas cartas, pedia mais contratos para empresas brasileiras no Iraque. Naquele período, o posto de embaixador em Bagdá era um dos mais importantes da diplomacia brasileira. Certa vez, Saddam Hussein pediu ao presidente Figueiredo que não nomeasse diplomatas de carreira para Bagdá. Ele queria alguém que tivesse liberdade para ligar para o general a qualquer hora da madrugada.
- E o disseram em suas entrevistas figuras importantes da esfera econômica, como o ex-ministro Delfim Netto?
- Tanto Delfim Netto quanto o embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima confirmam que, graças à ajuda do Iraque, o Brasil pôde evitar um racionamento interno de combustíveis. Mas, além dessas afirmações, há que se dizer uma outra coisa importante: depois da primeira Guerra do Golfo, o Brasil deixou de habilitar seus créditos em relação ao Iraque junto às Nações Unidas. Era um volume superior a US$ 400 milhões, que jamais serão recebidos. Diferentemente do Brasil, muitos países habilitaram seus créditos na ONU e, provavelmente, já receberam o que tinham direito. Até porque, no programa óleo por comida, parte da receita do petróleo era abatida para pagar dívidas iraquianas.
- Por que as relações Brasil e Iraque neste período da história são tão pouco conhecidas e divulgadas?
- É um período pouco conhecido porque a aliança entre os dois países, embora fosse estratégica, tinha implicações geopolíticas. Mas é importante lembrar que, na maior parte do período em que o Brasil colaborou com o Iraque, Saddam era também um aliado dos Estados Unidos. Os americanos temiam, na verdade, que a revolução islâmica do Aiatolá Khomeini se espalhasse pelo Oriente Médio. Depois, quando explodiu o escândalo Irã-Contras, descobriu-se que os americanos vendiam armas para os dois lados. Naquele período, o Iraque se aproximou do Brasil porque tinha a ambição de não apenas liderar o mundo árabe e o mundo islâmico, mas também os países não-alinhados. O projeto nuclear brasileiro, que poderia redundar na construção do ''artefato'', a forma como os militares se referiam à bomba atômica, naturalmente era sigiloso.
- Uma cooperação nuclear desta forma seria imaginável hoje?
- Não porque, nos anos 90, o Brasil assinou o Acordo de Não-Proliferação de Armas Nucleares. Isso significa que o país poderá retomar mais intensamente um programa nuclear no futuro, desde que a finalidade fique restrita ao campo energético.
- O Brasil está interessado em participar da reconstrução do Iraque. Quais serão as maiores vantagens - e os maiores desafios e obstáculos - desta empreitada?
- A grande vantagem é que o Iraque tem recursos naturais para financiar a sua reconstrução. Fala-se em dobrar ou até triplicar a produção de petróleo para arcar com esses custos. Além disso, os contratantes serão os Estados Unidos, as Nações Unidas ou o novo governo iraquiano, que terá suporte internacional. Portanto, talvez os riscos sejam menores. O grande desafio, a meu ver, seria participar de uma reconstrução antes que uma nova ordem -- estável e segura -- esteja estabelecida. Hoje, o que se vê por lá é a anarquia.
- Como você analisa a guerra dos EUA contra o Iraque?
- Vejo algumas motivações, que se somam. Na questão da segurança, os senhores do mundo julgam que nem todos os países podem possuir armas de destruição em massa. Em 1981, Israel atacou preventivamente o reator nuclear iraquiano de Osirak e o governo de Tel-Aviv justificou sua ação dizendo que jamais permitiria que um país inimigo tivesse armas de destruição em massa. Saddam Hussein dizia que a tentativa de construir uma bomba atômica tinha a finalidade apenas dissuasória, uma vez que Israel também possui tais armas. Portanto, na ordem internacional vigente, uns países são considerados mais responsáveis do que outros para possuir ou não as armas x ou as armas y, seja isto justo ou não. Mas, é bom lembrar, os americanos e ingleses ainda não provaram que o Iraque de fato tinha tais armas. E mesmo que as tivesse, não me parecia muito capaz de utilizá-las.
- E há também o interesse do petróleo que não se pode esquecer, não é mesmo?
- Na questão econômica, é inegável que o petróleo iraquiano é um ativo importante. Foi pelo petróleo que os ingleses combateram no Iraque durante a Primeira Guerra Mundial. Naquela época, o Iraque estava sob domínio dos turcos, que forneciam o petróleo aos alemães. E foi também pelo petróleo que os britânicos organizaram um boicote ao Irã, em 1953, quando se nacionalizou a produção, e ao Iraque, em 1972, pelos mesmos motivos. Por último, há também uma tese geopolítica que me atrai. Os terroristas de 11 de setembro eram da Arábia Saudita, um país que, em tese, é aliado dos Estados Unidos na região. Mas, depois dos ataques, as relações entre os dois países ficaram naturalmente estremecidas. Comenta-se ainda que haja uma forte ligação da monarquia saudita com o grupo dos wahabitas, os fundamentalistas islâmicos que financiariam o terrorismo. Por isso, o controle da produção iraquiana de petróleo seria uma espécie de seguro, antes da possível desintegração da aliança entre Estados Unidos e Arábia Saudita.