O IDIOTA
Fiodor Dostoiévski
Tradução Paulo Bezerra
Editora 34, 672 páginas
R$ 54
ÁSSIA
Ivan Turgueniev
Cosac & Naify, 119 páginas
R$ 19
Há um avanço notável entre as primeiras traduções brasileiras de obras de Dostoiévski, publicadas há bem mais de meio século, e as que começaram a sair pela altura de meados da década passada. As versões já antigas partiam de traduções francesas, algumas bastante duvidosas. Um salto à frente foi a publicação das obras completas do romancista pela Nova Aguilar, com introduções, glossários e explicações sobre critérios adotados na transliteração de sons russos. As mais recentes distinguem-se pela preocupação com as peculiaridades do estilo dostoievskiano, que são muitas e por vezes perturbadoras. Graças a esse cuidado, estamos lendo um Dostoiévski muito menos castiço do que os anteriores, mas certamente muito mais próximo do original.
A mais recente das novas traduções de Dostoiévski é a d'O idiota, um dos grandes romances da maturidade do escritor. Publicado parceladamente em uma revista, a partir de 1868, O idiota retoma vários temas que atravessam obsessivamente a obra do autor. Mas, bem medidas as palavras, não parece haver dúvida de que o eixo temático do romance é a velha questão do bem e do mal. Ao longo de sua densa narrativa Dostoiévski mostra ao leitor como a pureza e o pecado distinguem duas personagens, ao mesmo tempo que sugere a dificuldade para manter essa separação.
A imagem do bem, que permanece intocada por centenas de páginas, é a de Michinski, um jovem de 25 anos, que apesar de príncipe é pobre como Jó, epiléptico, inteligente, generoso e sob certos aspectos ingênuo como uma criança. O reverso da medalha é Rogójin, um homem mais velho do que Michinski, ''imensamente'' rico, grosseiro, violento, incapaz de praticar um gesto sem intenção de prejudicar os outros. Esses dois homens reúnem-se nas primeiras linhas do romance e juntos permanecem até seu trágico desfecho. Apesar de se ofenderem mutuamente, os dois não podem viver longe um do outro, tornam-se, em boa medida, complementares. Mas o conflito que os separa e une acaba por ser também o de outras importantes personagens - e não só como reflexo. São personagens fortes, com vida própria, mas igualmente destinadas ao trágico.
Muito já se escreveu e continua a se escrever sobre Dostoiévski, mas mesmo para quem conheça um pouco da fortuna crítica do autor, a leitura dos seus livros é sempre surpreendente. Não há quem não se surpreenda com o modo dostoievskiano de construir um romance. Talvez o que o leitor primeiro venha a notar seja a compressão do tempo. Quando chega ao fim das quase 200 páginas da primeira das quatro partes d'O idiota, percebe que os acontecimentos ali narrados não cabem no tempo real, seja isso o que for.
O romance começa às 9h da manhã de um dia de novembro, com a chegada a Petersburgo do trem procedente de Varsóvia, no qual viajam Michinski e Rogógin. A primeira parte termina umas 18 horas mais tarde, depois de vários episódios, extensas conversas e alguns deslocamentos pela cidade. Mas na concepção de Dostoiévski o tempo não era o que é para nós. No caderno de notas de Crime e castigo ele escreveu: ''O tempo não existe; o tempo é uma série de números, o tempo é a relação do que existe com aquilo que não existe.'' Por isso, ele comprime em parte de um dia ação suficiente para muitos dias. Como fazia Shakespeare, que em Ricardo III comprimiu dez anos de história em apenas uma semana.
Não por acaso Dostoiévski era um grande admirador do dramaturgo inglês. Há muita semelhança entre os dois. Em sua capacidade de fantasiar, por exemplo, mas também pelo seu espírito agudamente dramático. Dostoiévski escreve seus romances (que nada têm de épicos) como se construísse um drama. Só que com diálogos retóricos, nada realistas, que podem se estender por dezenas de páginas. Os cenários de suas histórias devem caber em um palco, e por isso reduzem-se ao essencial. As narrações dos fatos periféricos são como pequenas peças musicais tocadas nos intervalos.
Com a exceção das pequenas ficções anteriores à sua prisão e desterro na Sibéria, toda a obra de Dostoiévski foi escrita em circunstâncias adversas: luto, doenças, dívidas, incontrolável atração pelo jogo, censura e vigilância policial. Daí porque a pressa transparece nos seus romances, onde uma descrição pode ser interrompida de repente por um nervoso ''etc.'' Daí os saltos, as repetições e as incoerências. Mas todos esses acidentes e defeitos, que as novas traduções se empenham em preservar, não bastam para afetar o interesse que desperta no leitor a profundidade do mergulho de Dostoiévski na alma humana.