No último livro que escreveu antes de morrer, Roberto Drummond volta a Minas e suas obsessões
OS MORTOS NÃO DANÇAM VALSA
Roberto Drummond
Objetiva, 124 páginas
R$ 19,90
O escritor mineiro Roberto Drummond não teve tempo de ver o Brasil pentacampeão de futebol. Morreu no 21 de junho de 2002, em plena Copa do Mundo, temendo que a seleção fosse mandada de volta pelos ingleses. O Brasil venceu, mas Roberto não resistiu. Deixou como legado aos seus leitores, escrita à mão, a novela Os mortos não dançam valsa, história de um homem que leva sua amada, morta, para conhecer o mar e dançar uma valsa na calçada de Copacabana.
Drummond surgiu na literatura em 1971 ao vencer o Concurso de Contos do Paraná. Quatro anos depois, lançou o primeiro livro, A morte de D. J. em Paris, e se transformou num dos cavaleiros dispostos a acabar o que chamavam de ''latifúndio literário de Dalton Trevisan e Rubem Fonseca''.
No ano passado, o autor encerrou sua carreira com esta novela, em que Tamgo, um argentino meio bruxo exilado em Belo Horizonte, embalsama Lu para que o homem de óculos ray-ban a leve para conhecer o mar e para dançar em Copacabana.
Em linhas gerais, o enredo se desenha como um filme de aventura, com suspense e perseguições implacáveis. No entanto, tudo isso é apenas o pano de fundo para a revelação de um universo mítico, em que o arcaico é contraponto e sustentáculo do moderno e o Rio é o fascinante oposto de Minas.
No livro, Drummond volta a centralizar o mundo em Belo Horizonte. Sobressaem-se as figuras do pai de Lu e do tio Ernestino. O primeiro, fazendeiro falido que perdeu suas terras depois de uma enchente do São Francisco, não cansa de culpar o rio e chega mesmo a balear as águas como vingança. O segundo passa a vida rezando para que anualmente possa ir ao Rio se deliciar com a visão das coxas de Mara Rúbia. E nada mais mineiro que o apego empedernido à terra e a moralidade aparente a esconder a incontrolável paixão pelas amantes. Drummond usa as possibilidades imaginárias do realismo mágico para se chegar à simplicidade das lendas mineiras.
Outro ponto interessante do livro é a preocupação em desvendar os mistérios da morte. Aqui, como nos primeiros livros de Drummond, ela ganha espaço já no título. E, durante todo o texto, busca-se caminhos para vencê-la. Mesmo morta, Lu ainda respira, fala e até sorri, pequenos truques para despistar a polícia que teima em perseguir o casal. Alegoricamente, Lu mantêm seus desejos inabalados. É como se quisesse nos dizer que a morte somente se dá com o fim dos desejos.
Estamos diante de um livro emblemático, a síntese de um universo fascinante e, ao seu modo, mítico. A linguagem é direta, sem o rebuscamento que tanto inquietava o autor. Inverossímil em sua alegoria, carrega-se daquilo que um dia Roberto Drummond chamou de ''as realidades que nos sacodem''.
Em seu último livro, ele fez um ajuste de contas com toda sua obra. Nas páginas de Os mortos não dançam valsa, é possível encontrar a liberdade criativa de Sangue de Coca-Cola, o protesto político de Quando fui morto em Cuba, o conflito entre o antigo e o moderno de Ontem à noite era sexta-feira, o lirismo poético de Hilda Furacão. Enfim, Drummond se despediu da literatura reafirmando tudo aquilo em que sempre acreditou. Era o mesmo, embora sua literatura fosse uma inovação permanente.