Beatriz Resende propõe que a crítica universitária rompa as fronteiras, sem temer o aqui e o agora
Uma das fundadoras do Pacc (Programa Avançado de Cultura Contemporânea, da UFRJ), em 1994, Beatriz Resende foi precursora na área de estudos culturais. E também um dos primeiros nomes de peso da universidade a voltar os olhos para a literatura brasileira contemporânea. Resultado de uma curiosidade intelectual que não se prende aos limites do objeto literário,
Apontamentos de crítica cultural (Aeroplano, 230 páginas, R$ 18) é uma mostra de que, para dar conta da produção cultural de seu tempo, o crítico deve pular a cerca das disciplinas, romper as fronteiras e não temer o aqui e agora.
- O que estes apontamentos têm em comum?
- Os seis ensaios que compõem o livro têm em comum uma curiosidade pelo que há em volta, pelo que não é óbvio. Quando falo de Drummond, por exemplo, discuto um tema que vem me interessando cada vez mais: o das paixões adúlteras. Toda paixão adúltera é também uma paixão pelo imediato. Mesmo que dure 50 anos, terá sempre o tom do aqui e agora. É assim que Drummond lida com a crônica e com o Rio de Janeiro, cidade que adotou. Esse interesse pela crônica, e não pela poesia que o consagrou; pela descrição do Rio de Janeiro, e não pelo memorialismo mineiro, é o tipo de coisa que me preocupa. Quando trato da Ana Cristina Cézar, não é de sua magnífica poesia, mas de sua correspondência. É a mesma coisa com a cidade, com a música e, de certa maneira, com a literatura contemporânea. Em comum, vejo a busca de um certo ''viés enviesado'', para fugir do caminho em linha reta e atacar pelas bordas.
- Um dos pontos interessantes de seu livro é que ele não se restringe à literatura, trata de cinema e música, por exemplo. Essa mistura de referências parece mostrar que já não dá mais para o crítico ficar preso apenas à análise literária. A literatura estaria deixando de ser o principal objeto da cultura?
- De um modo geral, outras artes e manifestações culturais estão deixando a literatura para trás. É estranho o que aconteceu após a ditadura. No momento em que se pode efetivamente dizer o que se quer, a literatura se enfraquece, não vende, é deslocada de seu lugar privilegiado para o de sobrevivente.
- Num dos capítulos, você fala do desaparecimento da cidade na ficção brasileira dos anos 90. Mas o que se nota agora é que a cidade se faz cada vez mais presente. Seria reflexo do fato de que a violência se tornou um grande tema, não só para a literatura, mas também para a música e o cinema?
- De alguma maneira, a violência trouxe de volta à literatura a questão da grande cidade. Mas agora é uma cidade diferente, onde não é mais possível ser um flaneur. Você não sai mais dando mole pela cidade grande. Mesmo quando escapa do eixo Rio-SP, a Recife ou a Porto Alegre retratadas não são absolutamente lugares seguros.
- E a literatura que vem dos presídios?
- Acho que vale a pena prestar atenção. Até porque, dentro de um presídio, você pode ter qualquer tipo de autor. Já houve um Graciliano, por exemplo. A arte é muito democrática, até mais do que o esporte. O cinema, a dança, a música e o teatro já se interessaram em mostrar o potencial artístico das pessoas que vivem fora do circuito cultural das elites. Por que um objeto artístico não pode sair de um presídio?
- Você tem como projeto mapear a literatura contemporânea. Mas, em geral, os críticos universitários resistem a estudar um momento literário ainda em andamento. Por quê?
- Os defensores de uma Literatura nobre, com L maiúsculo, acabam se fechando para a literatura contemporânea. Eles não lêem os novos autores. Se os professores universitários não incentivarem seus alunos, eles vão sair da faculdade de Letras sem jamais terem lido os contemporâneos. Quando fui convidada para fazer resenhas para o site no.com.br, vivi uma experiência radical, porque não era simplesmente escrever sobre o que tinha acabado de ser lançado. Era escrever a crítica no exato momento em que o livro estava sendo lançado e ter essa escrita imediatamente veiculada. Foi uma experiência crítica nova, que só a internet é capaz de oferecer. É uma coisa que desde então vem me intrigando muito: a presentificação da vida contemporânea.
- Um crítico, ao escrever para um jornal ou um site, se arrisca mais do que um universitário?
- Freqüentemente, sim. Mas é um risco que precisa ser corrido. O grande problema da universidade é preferir o modelo convento, protegido.
- Seria apenas coincidência, ou esse interesse crítico pelo presente é paralelo ao surgimento de uma nova geração de escritores, uma geração 00?
- Deslocaria um pouco esse aparecimento para metade dos 90. Mas, sem dúvida, há uma nova geração de escritores abrindo espaço na literatura brasileira.
- É uma geração predominantemente paulista?
- Está acontecendo uma coisa curiosa: São Paulo passou a exercer o papel que o Rio sempre teve. No passado, por conta dos jornais e de um mercado de trabalho melhor, para cá vieram os escritores que, uma vez instalados, passaram a ser chamados de cariocas. Agora, autores gaúchos, mineiros e cariocas estão indo para São Paulo. O movimento coincide com o aparecimento dessa nova geração literária.
- Parece haver uma implicância com essa nova literatura brasileira, semelhante à que havia com o cinema nacional até pouco tempo atrás, não?
- Perfeita essa analogia. As pessoas tendem a achar que são livros mal escritos, como achavam que o cinema brasileiro era tecnicamente pobre, mal feito. Isso não é absolutamente verdade. Estamos falando de uma literatura madura e com grande preocupação formal. Não estou me referindo só à beleza, mas à coerência com a proposta, domínio técnico, preocupação com a estrutura do texto. Muitos são exemplos fantásticos de uma literatura bem-escrita, quase clássica.
- Quem você destaca?
- O Rubens Figueiredo, além do Bernardo Carvalho e do Luiz Ruffato, que considero a grande revelação dos últimos anos. Gosto de quase todos os contemporâneos: Marçal Aquino, Flávio Carneiro, Fernando Bonassi, Adriana Lisboa, e de um bissexto, que é o Rodrigo Naves, autor de um livro excepcional, O filantropo. Vejo ainda enorme espaço para nomes da geração anterior, como Sônia Coutinho e Sérgio Sant'Anna.
- Além dos contemporâneos, outra linha de pesquisa sua é a literatura brasileira art déco, também pouco conhecida. Por quê?
- Venho trabalhando neste projeto há 15 anos, logo depois que terminei o doutorado sobre Lima Barreto. Na época, me deparei com toda uma literatura produzida no Rio de Janeiro, entre os anos 20 e 30, que decididamente não era modernista, vendeu muito, e foi seduzida pela França e depois pelos Estados Unidos. Enfim, tinha todos os pecados que acabaram fazendo com que os livros de um Benjamin Costallat e de um Théo Filho fossem ignorados pela universidade. É curioso ver como essa literatura tem muito a ver com o Rio de Janeiro. Na arquitetura, vemos também o embate entre o art déco dos cinemas, dos prédios chiques de Copacabana, e a arquitetura modernista. Enfim, é empobrecedor ver a literatura de maneira isolada.