O jornalismo nunca mais foi o mesmo

Hiroshima, a melhor reportagem de todos os tempos, abre coleção de clássicos escritos nas redações

Ao ser publicado pela primeira vez, em 31 de agosto de 1946, Hiroshima ocupou a edição inteira da revista The New Yorker. O jornalismo nunca mais seria o mesmo. Querem alguns que foi o primeiro texto do que se convencionou chamar de parajornalismo, novo jornalismo, jornalismo literário, literatura de não-ficção, jornalismo de autor - uma dezena de rubricas significando nada. Euclides da Cunha, ao escrever Os sertões, andou perto. Joel Silveira, ao penetrar no casamento dos Matarazzo, também. O primeiro fez um ensaio. O segundo, uma crônica. Eram repórteres envergonhados. Hersey, não.

Como Truman Capote, Gay Talese, Tom Wolfe e Joseph Mitchell, papas americanos da matéria, ele aposta tudo, primeiro, na apuração exaustiva e, depois, numa apresentação que pede emprestadas técnicas do texto literário. Não dava mais para explicar a vida num lead curto. Era preciso juntar o concreto dos fatos com o vapor da ficção. E viva a observação pessoal, a atmosfera, a cor da gravata, a valorização de elementos secundários, o calor humano, os números e aquele jeito estranho do entrevistado coçar o pescoço sempre que fala ''honestidade''. Talese radicalizou. Apurava tanto que era capaz de reproduzir o pensamento alheio. Os jornalistas ficavam ainda mais pretensiosos. A reportagem chegava ao estado da arte.

A Companhia das Letras começa pelo caminho certo, com Hiroshima, a coleção Jornalismo Literário. Seguem, nos próximos meses, A sangue frio e Música para camaleões, de Truman Capote, o Segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchell, e - acima de tudo, bíblia maior de todo jornalista formado a partir dos anos 60 - Aos olhos da multidão, de Gay Talese. Cada um deles vale por quatro anos de um curso de jornalismo. O pioneiro John Hersey nasceu na China em 1914 (morreu em 1993), filho de missionários americanos. Cobriu a guerra para a Time e o pós-guerra no Oriente para Life e The New Yorker. Passou 17 dias no Japão entrevistando dezenas de hibakushas, os sobreviventes da bomba em Hiroshima, e outros 50 escrevendo. Sua prosa é tão delicadamente substantiva, sem enfeites e sem frases bombásticas, que qualquer tentativa de lhe extirpar um naco e oferecer como degustação seria frustrante.

Hersey levanta a poeira de urânio sobre o cenário de Hiroshima e mostra, já que não havia câmeras ligadas por baixo do chapéu atômico, o cirurgião Sasaki perdendo o bonde que tomava todo dia, na banalidade de seu cotidiano, e que desta vez, ele só saberia meia hora depois, o teria levado até o epicentro da explosão. Quando o gigantesco flash fotográfico da bomba refletiu no corredor de sua casa, Sasaki agachou-se e ''como só um japonês diria, falou para si mesmo: 'Sasaki, gambare. Coragem!' Então a explosão sacudiu o prédio, os óculos do médico voaram longe.'' Assim como João Cabral advertiu os poetas para a inutilidade de perfumar a flor, Hersey percebeu que não deveria colocar nem uma gota a mais de dor na chuva ácida que se seguiu à bomba. Colou nos fatos. ''Dos 156 médicos existentes em Hiroshima, 65 estavam mortos e os restantes se encontravam, na maioria, feridos. Das 1.780 enfermeiras, 1.654 estavam igualmente mortas ou impossibilitadas de agir.'' O padre alemão Kleinsorge, outro dos perfilados pela câmera de palavras exatas de Hersey, passa por 20 homens em estado horripilante: ''O rosto inteiramente queimado, as órbitas vazias, as faces marcadas pelo líquido que escorrera das córneas derretidas. Deviam estar olhando para cima quando a bomba explodiu; talvez pertencessem à defesa antiaérea.''

Quarenta anos depois dessa reportagem, 300 mil exemplares da The New Yorker que desapareceram das bancas em minutos, Hersey voltou a Hiroshima e, ainda afiadíssimo, reencontrou seus personagens. Está no livro também. A cidade aparece reconstruída, mas a costureira Hatsuyo Nakamura costuma desmaiar sem mais nem menos. Surgem pintas hemorrágicas na mão quando o padre Kleinsorge bate palmas para espantar um bando de pardais do caquizeiro - mas a Índia, a Inglaterra, a França e a China, informa Hersey, anunciam que podem detonar bombas de hidrogênio. O terror permanece solto. Ele visita o monumento aos mortos, anota a inscrição ''Descansem em paz, pois o erro não se repetirá'', e, sempre reportando, vai ver como está o pastor Tanimoto, 70 anos. É o final do livro e Hersey, definitivamente, não parece convencido de que escreveu a última grande reportagem de guerra. ''(Tanimoto) Levantava-se diariamente às seis da manhã e passeava durante uma hora com o cachorrinho, Chiko. Estava diminuindo o ritmo. Sua memória, como a do mundo, começava a falhar.''


O bom repórter - e quem viu a Guerra do Golfo, quem viu o 11 de setembro e quem ler nos próximos dias as notícias do Iraque sabe que Hersey acertou - o bom repórter não falha nunca. (J.F.S.)

[21/SET/2002]

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