A melhor reportagem da história

Joaquim Ferreira dos Santos

Repórter do JB

Hiroshima

John Hersey

Tradução Hildegard Feist

Companhia das Letras, 172 páginas R$ 26

Lead é o jargão que no jornalismo identifica o início da matéria, o bloco com as informações mais importantes. Isto, por exemplo, não é um lead. É um nariz de cera. Uma abertura com os arredores do que se queria dizer. E o que se quer dizer é que o jornalista John Hersey começa Hiroshima como se deve, com um lead clássico: ''No dia 6 de agosto de 1945, precisamente às oito e quinze da manhã, hora do Japão, quando a bomba atômica explodiu sobre Hiroshima, a Srta. Toshiko Sasaki...''

É o início das 31.347 palavras, quase nenhum adjetivo, do que um grupo de professores e jornalistas elegeu recentemente como a melhor reportagem escrita em todo o século passado na imprensa americana. Não é pouca coisa. Melhor do que o perfil de Gay Talese sobre Sinatra resfriado (quadragésimo terceiro lugar). Melhor do que Norman Mailer subindo com o cérebro corroído pela maconha os degraus do Pentágono (décimo nono). Melhor que Bernstein e Woodward seguindo as pegadas do Garganta Profunda (terceiro).

Poucos meses depois de a bomba atômica, despejada pelo Enola Gay, ter matado 100 mil pessoas, aberto feridas purulentas jamais vistas nos corpos de outras 100 mil e inaugurado a era em que a vida humana passava a ter o mesmo valor das colônias de formigas vermelhas, Hersey sacava do bloco e tomava notas. Por meio da história de seis sobreviventes, reconstruiu o inferno por baixo do cogumelo radioativo. Seu texto, laboriosamente armado sobre a falsa simplicidade da ordem direta, para que as informações brilhassem acima de tudo, é leitura indispensável para profissionais e alunos de Comunicação interessados na técnica de como contar uma história com clareza e estilo. Para o resto da humanidade é um dos mais contundentes monumentos já construídos contra os horrores da guerra.

[21/SET/2002]

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