Livro de memórias revela os bastidores de mais de meio século de reportagem de Villas-Bôas Corrêa
CONVERSA COM A MEMÓRIA
Villas Bôas-Corrêa
Objetiva, 284 páginas
R$ 36,90
A conversa é sempre fluente, agradável, articuladíssima. O jornalista e a memória dialogam com o desembaraço e a intimidade de quem conviveu por mais de meio século, e provocam mudanças de rota (sem jamais confundir quem acompanha a caminhada) como se fossem entidades distintas. Ora a memória convoca o repórter para um nostálgico passeio pelos tempos em que predominavam vespertinos, concebidos em redações minúsculas. Ora o cronista fixa a lembrança num determinado personagem para compor-lhe o perfil, marcado invariavelmente por adjetivos ricos e exatos.
O resultado é uma leitura essencial. Jornalista que passar ao largo das páginas escritas por Villas-Bôas Corrêa pode esvaziar gavetas e mudar de vida: escolheu a profissão errada. Qualquer brasileiro interessado em compreender o país terá uma espécie de aula magna ministrada, no tom de quem conta histórias numa sala com lareira em Nova Friburgo, por um mestre da imprensa brasileira.
Villas-Bôas Corrêa virou repórter em 1948. Aprendeu praticamente tudo em muito pouco tempo e tem distribuído lições, de graça e com humildade, há várias décadas. Pude apertar as mãos do mito em 1987, quando entrei pela primeira vez na redação do Jornal do Brasil. Num fim de tarde, como quem faz um comentário distraído, a lenda que já podia chamar simplesmente de Villas, direito adquirido pelo convívio, murmurou uma frase: ''Devemos evitar escrever sobre alguma pessoa coisas que nos impeçam de cumprimentá-la no dia seguinte.''
Se não assimilei a lição, o problema é do mau aluno. Ele sempre soube criticar, e com dureza. Já distribuiu pancadas merecidas à esquerda e à direita, e continuou a circular por todos os lugares sem limitações impostas por placas de sinalização ideológica. Sobretudo, jamais cedeu a injunções intoleráveis sopradas por donos de empresas. Em mais de 50 anos, com artigos e reportagens nas principais publicações ou comentários em programas de rádio e TV, Villas transformou-se numa esplêndida prova de que a independência é possível. ''Nunca falei ou escrevi por encomenda'', afirma a certa altura esse homem de 78 anos num trecho que trata da linha de conduta de sua grande geração. Nela brilharam, ao lado de Villas, gente como Heráclio Salles, Carlos Castello Branco ou Ascendino Leite. Num Brasil sacudido por espasmos sucessivos, crises capazes de levar um presidente da República ao suicídio, quarteladas, confrontos parlamentares de espantar um García Márquez, pontapés na Constituição, a renúncia de um chefe de governo e a deposição de outro, um golpe militar e a devolução do poder a civis amalucados, esses jornalistas provaram que é possível contemplar o cenário com maturidade, opinar com coragem e enxergar o que só é visível a olhares lúcidos (e cérebros bem providos de neurônios).
''Sou o sobrevivente de um grupo que cunhou, poliu e deixou pronto o modelo de cobertura política'', disse ao JB. Esse modelo é marcado ''por compromissos éticos com a isenção, a imparcialidade e o esforço da análise interpretativa, com a projeção dos seus desdobramentos''. Ele ouviu a voz fanhosa de Eurico Dutra e a dicção perfeita de Afonso Arinos, que pouco antes da morte de Getúlio pronunciou ''o maior discurso da fase dourada da eloqüência que se despedia''. Admiravelmente equilibrado, Villas lembra que ''a emoção é companheira do repórter''. E recorda ''a madrugada da posse que não houve do presidente Tancredo Neves, na angústia da primeira operação na bagunça da sala de cirurgia invadida por políticos, assessores, curiosos''.
Conheceu de perto tanto gênios da política como Tancredo quanto generais desastrados. Ou tipos sem os quais uma redação perderia o toque de romantismo. É o caso do contínuo Zoroastro, funcionário do jornal A Notícia que quase fez desandar uma grande história. Descobriu-se num subúrbio do Rio uma jovem considerada santa por chorar lágrimas de sangue. Ao ver a primeira foto revelada, Zoroastro contou: ''Já comi essa santa.'' Foi proibido de revelar o segredo por uma semana. Sete dias de edições esgotadas.
Testemunhou a fase gloriosa do Congresso agitado por tribunos de primeira linha, a transferência da capital para Brasília, a decadência do Rio como centro político, a demolição do Palácio Monroe, a ascensão dos matutinos, a morte e o nascimento de muitos jornais. Parte do que Villas viu está no livro, escrito em duas etapas. ''No arranque, em poucos meses, despejei no computador histórias, casos, palpites'', conta o autor. ''Tempos depois, recuperei o ânimo e tentei salvar horas de trabalho. Acrescentei algumas páginas, deletei outras, cortei o que pude, enxuguei a gordura, criei coragem, fechei os olhos e cometi a leviandade de entregar o livro à editora. Com o juramento de que é o segundo e último. Noutra não escorrego.''
Vai ser difícil resistir às pressões dos leitores querendo mais.