Luiz Vilela promete uma compensação para os leitores que se ressentiram de seu silêncio, que tanto pode ser medido em 23 anos - desde o último livro de contos inéditos - como em oito anos, desde a última novela,
Te amo sobre todas as coisas. Depois de
A cabeça, ele dá os últimos retoques na novela
Perdição, que espera publicar já em novembro. ''Não tenho a preocupação de escrever muito ou pouco'', diz. ''Tenho o meu ritmo.''
Esse ritmo inclui um tempo de maturação e polimento de textos que, para ele, anda fazendo falta a boa parte do que se publica hoje. Seu método de aprimoramento da prosa começa por um truque aprendido com Gustave Flaubert: ler em voz alta. Mas o recluso de Ituiutaba vai mais longe. Inventou uma técnica própria de reler tudo o que escreve em três posições - sentado, deitado e em pé. ''É impressionante como muda a leitura. Tem a ver com a diferença de fluxo sangüíneo na cabeça'', ensina.
Adepto da tese de que uma vírgula fora do lugar pode fazer ruir um romance inteiro, Vilela não submete seus escritos a esse ritual uma ou duas vezes. ''Faço isso dezenas, às vezes centenas de vezes. Dá um trabalho de cão ou de louco, é um negócio patológico mesmo. Quem me visse, diria: 'Ih, esse aí é doidinho''', diverte-se. Tamanha fé na literatura é auto-sustentável. Se o número de leitores capazes de valorizar toda essa trabalheira está minguando - segundo ele, no mundo inteiro -, pouco importa. São poucos? O escritor fala para poucos. Falaria até sozinho: patologia é patologia.
O efeito de clareza e naturalidade que Vilela obtém ao fim do processo - herança de Graciliano Ramos, Rubem Braga e Fernando Sabino, a trindade que ele revela tê-lo ensinado a escrever - dá uma enganosa impressão de facilidade. Um leitor bem-intencionado lhe perguntou certa vez: ''Mas como é que é, você senta e vai saindo tudo?''. Resposta: ''Olha, esse negócio de sentar e ir saindo tudo para mim é outra coisa.'' (S.R.)