LOUCO NO OCO SEM BEIRAS: ANATOMIA DA DEPRESSÃO
Frederico Barbosa.
Ateliê Editorial, 88 páginas
R$ 25
O terceiro livro de poemas de Frederico Barbosa traz um título pleno de sugestões. Com ele, define-se o sujeito poético (''louco''), seu lugar (''no oco'') e a situação de ambos (''sem beiras''), numa síntese valorizada pelo jogo sonoro que reforça o caráter excêntrico do que se apresenta. O subtítulo - Anatomia da depressão - agrega uma carga expressiva que remete a um campo vagamente científico, com o termo ''anatomia'' a prometer uma análise meticulosa da ''depressão''. Assim, parece haver não só uma dupla intitulação, mas uma dupla intenção: simultaneamente a ''loucura'' e sua dissecação pela razão.
A imagem-título põe-nos diante de um poeta que se ''finge'' (Fernando Pessoa) ''louco no oco sem beiras'' e cria em nós a expectativa de uma poesia a se mover absurdamente no vazio, de uma linguagem descentrada, delirante, a arder convulsivamente, longe das margens de segurança dos sistemas mentais, científicos. Estaríamos próximos de um universo poético delirante e ''sem beiras''.
Mas, ao contrário, a informação do subtítulo sobrepõe-se. O conhecimento freia a instabilidade, a centramento impede a deriva. Deparamo-nos com poemas infinitamente distantes do espasmo, do estremecimento. O verso curto, os cortes e os encaixes sintáticos, tudo se articula numa demonstração de inequívoca racionalidade. Mesmo quando vêm à cena a perturbação e o desequilíbrio, nada irrompe violentamente. O ''surto'', por exemplo, surge em versos cuja desarticulação não chega a perturbar a brandura da contenção informativa: ''perdi a chave/não paguei// perdi os óculos/não fechei//perdi a carteira/não olhei//surtei''.
Controle - Em todo o livro, a instabilidade é comedida, controlada. O poeta distancia-se da loucura, mostrando-se, antes, como aquele que organiza, ordena, muito embora os poemas ponham em cena um sujeito que fala de sua adinamia, de seu abatimento ou de seu automatismo cotidiano, enfim, de sua depressão. No nível da construção, tal distúrbio aparece nas dissonâncias, nas assonâncias, nos jogos de som e sentido e, sobretudo, nas elipses e nos cortes que semelham não apenas o cansaço, mas também algo da ordem da afasia.
Redução - Mas a economia excessivamente redutora e o apego a certa dicção concretista impedem um estilhaçamento mais contundente, possível mesmo numa ordem construtiva-desconstrutora como na estética cubista. Penso, por exemplo, em certos poemas em que João Cabral de Melo Neto analisa objetos e seres em seus diversos ''ângulos'', o que, simultaneamente, aumenta a compreensão das formas e as deforma, como em muitas telas de Picasso.
O vocabulário prosaico, antilírico, em certa medida empresta aos poemas de Frederico Barbosa energia, pulsação, com o que se evita o seu esfriamento total. Nesta linhagem despoetizante, não é difícil perceber, ainda, certa proximidade com a poesia concreta. Poder-se-ia argumentar que falta a Frederico Barbosa a ousadia plástica e lingüística de um Augusto ou de um Haroldo de Campos dos melhores tempos do concretismo. Mas tal inventividade não parece fazer parte do projeto do poeta de Louco no oco sem beiras, claramente mais inclinado a injetar conteúdos sociais, existenciais, psicologia e pathos ao jogo construtivo.
Desejoso de fazer com que a estética construtiva apresente, simultaneamente, uma linguagem atravessada pelos ''acontecimentos'', vistos sempre com crítica e ironia, e marcada por um vocabular quase da ordem da poesia marginal dos anos 70. Tal empreendimento de poético pode dar excelentes resultados. Neste livro, a pesquisa mostra-se ainda em andamento.
Eucanaã Ferraz é professor de Literatura Brasileira da UFRJ e autor de Martelo