UM GENERAL NA BIBLIOTECA
Italo Calvino
Tradução de Rosa Freire D'Aguiar
Companhia das Letras, 250 páginas
R$ 24
Os contos de Um general na biblioteca (no original italiano: Prima que tu dica Pronto), publicação póstuma que abrange pequenos textos de Italo Calvino de 1943 a 1984, atestam na prática como num arco de quatro decênios ele sempre alternou histórias realistas e histórias fantásticas. Calvino explicava que se baldeava para o fantástico quando se dava conta de que suas histórias realistas, movidas a ironia e paradoxo, resultavam tristes. Era uma espécie de compensação.
O eixo dos raccontini (continhos, expressão dele) talvez esteja em ''A memória do mundo'', em que o diretor de uma organização que prepara o registro de tudo o que houve no planeta desde as origens revela ao seu auxiliar fatos a respeito do próprio malfadado casamento, suprimidos das fichas sob a alegação de que ''a mentira é a única informação que temos a transmitir'' - isto é, a realidade deve ser corrigida se não coincide com o mundo. Logo depois conclui logicamente que por saber isto o auxiliar deve ser apagado do rol das pessoas vivas: puxa o revólver e o mata.
Conto a conto se percebe como a discussão do real, noção fundadora do trabalho de Calvino, morto em 1985, provocava nele interesse realmente original pelo universo das fábulas. Vinham daí suas tentativas de escrever contos contemporâneos dotados de distância crítica necessária para articular a modernidade e seus problemas - como o trabalho a partir de estruturas seriais da última fase.
Pequenas formas - A tendência já aparecia num dos primeiros raccontini, ''Quem se contenta'', passado num país em que tudo era proibido. Ou quase tudo, porque os habitantes jogavam bilharda e nada mais os interessava. Quando os condestáveis, passado o surto ditatorial, para tirá-los da rotina, proibiram o jogo de bilharda, o povo fez uma revolução, matou os condestáveis, e depois, sem perder tempo, voltou a jogar bilharda.
Não se pode compreender Calvino sem compreender o amor que ele tinha pelas pequenas formas. À medida que os anos passavam cultivava sempre mais a narrativa breve, o poema em prosa, a parábola moral, a história metafísica, a miniatura, o ex-voto. Talvez mesmo estas pequenas formas, de Petrarca às Operette morali de Leopardi, constituam a essência do gênio italiano, nítidas, concentradas, abstratas, realizadas com a máxima economia de meios e riqueza de sugestões.
O conto ''Olhos inimigos'' reflete bem, sempre de forma fabulesca, a experiência de um jovem durante a agonia do fascismo. O personagem, andando pela rua, tem a impressão de que alguém o persegue. Era na verdade um amigo que acabou por confessar que estava meio nervoso. ''E quem não está?'' ''Essas notícias... Esses generais que voltam a comandar... a dizer que eles é que tinham a razão''...
O regimento de um poderoso exército se perde ao atravessar as ruas da cidade em ''O regimento se perde'', e um grupo de militares, no conto que dá título à edição brasileira, ''Um general na biblioteca'', acaba se apaixonando pelo conteúdo dos livros quando realizava tarefa de censura na maior biblioteca de Panduria.
Subversão - O novo realismo narrativo dos anos 70 fez com que as técnicas se refinassem. O tempo era subvertido: o espaço triunfava por toda parte. Misturava-se sonhar e estar acordado. O personagem se desintegrava (embora Pirandello já ensinasse isto antes de 1914) e entrava em ''crise de identidade'' para expressar a dissolução metafísica num mundo sem referências estáveis. Era o momento em que se diagnosticou a volta ao privado, ao indivíduo, à experiência emocional.
O esforço de Calvino, na ficção, nos ensaios críticos ou autobiográficos, era um esforço por exprimir as coisas em sua totalidade - esforço comum ao artista e ao sábio. No texto, destinado à televisão, ''Henry Ford'', mas que nunca foi ao ar, o criador do modelo T, entrevistado imaginariamente por um interlocutor, exalta sua lógica de produtividade admitindo ser o autor da tirada: ''Cada cliente pode querer o carro da cor que preferir, contanto que seja o preto.'' Reafirma sua convicção de que os salários mais altos é que movimentam o mercado, não os lucros mais altos, mas em 1937 contratou lutadores profissionais para impedir as greves, na força. Ford garante que suas idéias foram mal entendidas quando escreveu artigos anti-semitas em seus jornais e ''apoiou aquele fanático na Alemanha que logo tomaria o poder''. O conto, isto é, o programa televisivo, termina com imagens de engarrafamentos numa grande cidade, cadeia de montagem, fumaça de chaminés que se superpõem à imagem de Ford enquanto ele pronuncia suas últimas frases em louvor das maravilhas da natureza...
Um interno numa clínica de doentes mentais, em ''O último canal'', lembra como foi preso por uma chusma de seguranças quando apontou o aparelhinho de controle remoto em direção a Chefes de Estado, reunidos num grande encontro. Apenas queria ver o que se passava em outro canal, em sua busca obsessiva pelo canal que explicasse de onde viera e para onde estava indo. O relatório psiquiátrico diz que ''condicionado pela necessidade compulsiva de mudar continuamente de canal enlouqueceu e pretende mudar o mundo a golpes de controle remoto''...
Terra - A Itália é o lugar onde acontecem muitas histórias misteriosas, amplamente discutidas e comentadas todos os dias, mas nunca resolvidas. Cada acontecimento dissimula uma conspiração secreta cuja natureza permanece oculta, enquanto o fato de ser segredo não é segredo de forma alguma. Calvino se situava entre aqueles que acreditavam numa literatura que fosse presença na História, na educação, e de qualidade insubstituível. Tinha consciência de viver no ponto mais baixo e trágico da parábola humana - historicamente situada entre Buchenwald e a bomba H. A possibilidade da catástrofe universal era o ponto de partida das fantasias de seu pensamento. A épica moderna não conhece mais deuses: o homem está sozinho e tem diante de si a natureza. O conto ''A ovelha negra'' fala de um país em que todos eram ladrões: um roubava do outro que roubava de um terceiro, e assim por diante, até que chegar ao último, que roubava do primeiro. Os ricos passaram a pagar aos pobres para roubarem por eles, mas quando pararam de roubar ficaram pobres porque os pobres os roubavam. Para defender suas coisas contra os pobres ''instituíram a polícia e construíram as prisões''...
O ideal lingüístico de Calvino era um texto o mais possível concreto e o mais possível preciso. Inimigo a abater: a tendência dos italianos de usar expressões abstratas e genéricas. Assim se combateria a peste que se abatera sobre a linguagem. Os primeiros afetados pela doença foram os políticos, os funcionários públicos, os intelectuais. A tarefa do escritor é se insurgir, fazer com que a linguagem direta concreta sobreviva, mas a linguagem quotidiana que costumava ser a fonte viva onde os escritores podiam se abastecer não escapou à infecção. Literatura na concepção calviniana é evocação de imagens próprias, nítidas, fantásticas. Num mundo bombardeado por imagens artificiais, em série, convém ser preciso e austero, de modo que a figura adquira relevo.
Exemplo de seu virtuosismo está no conto ''A bomba de gasolina'', no qual um automobilista é tomado por frentista, num posto, pela mulher de um carro esportivo que lhe pede para encher o tanque. Encantado pela beleza da mulher, todos os gestos do personagem se assemelham a ato sexual imaginário, ao introduzir o bico da bomba no tanque, ao apertar o botão, ao sentir o jato que finalmente penetra. Ele pensa que ela devia entender o que fez como ''ato de amor que é também ato de violência, um estupro, um abraço mortal das forças subterrâneas''. Quando termina o curto tempo a ele concedido, a corrente que passava entre ambos se esgota, e a bomba fica inerte...
Grimm - A rigor, toda a obra de Calvino se movimenta entre fantasia e paradox o. Às vezes não se sabe se é a fábula que contamina a realidade ou se é a realidade que contamina a fábula. Apostou no artifex, isto é, no achado, no calembour, no jogo brilhante e bizarro, sempre numa prosa perfeitamente polida. Tinha a alma de Sherazade. Seus modelos eram Ariosto, Lewis Carroll, Stevenson. O interesse pelas fábulas italianas se enquadrava na redescoberta das tradições folclóricas e etnográficas. Num determinado momento quis ser o Grimm mediterrâneo, quando recolheu e transcreveu as Fábulas italianas, porém se preocupava mais com o prazer da narração do que com a filologia. As fábulas lhe indicaram mesmo um caminho de saída para o neo-realismo. A trilogia dos Nossos Antepassados (O visconde partido ao meio, O barão empoleirado e O cavaleiro inexistente) são a suma do fabulesco e do conto filosófico, Andersen mais Voltaire, sem esquecer a velha paixão pelo jogo, pelo inverossímil e o incongruente.
Neste sentido, as cartas que os leitores escreviam a Dickens para impedir a morte de um personagem, enquanto os fascículos circulavam, eram produto não de uma confusão entre ficção e realidade, mas da paixão pelo jogo, do antigo jogo entre quem narra e quem escuta, que exige a presença física de um público intervindo como coro. O grande jogador faz parte do jogo.
Na fábula o que interessava a Calvino era o desenho linear da narrativa, o ritmo, a essencialidade, o modo no qual o sentido de uma vida se contém numa síntese dos fatos, de provações a superar, de momentos supremos. Era rigoroso e atualizado. Compreendeu que o problema da literatura moderna era se medir com os quanta, a biologia molecular, a teoria da complexidade. A agitação antimoderna de Pasolini e o barroco de Gadda não podiam agradá-lo. Encampou o malicioso mandamento de Hofmannsthal de que a profundidade deve ser escondida na superfície. Em Lições americanas materializou um enigma que responde ao enigma, a descrição da descrição: ''Numa galeria de quadros, um homem contempla a paisagem de uma cidade, e esta paisagem se abre para incluir até a galeria que a contém e o homem que a contempla.''
De fato, desde os primeiros raccontini nunca se cansou de percorrer os labirintos, os corredores com espelhos, as paisagens ilusórias de sua própria literatura: um itinerário risonho, encantado, impregnado de arrepios, de rápidas angústias. Ele sabia mais do que acreditava saber, mas era justamente isto que importava: não se interpretava a si próprio, não se surpreendia, e se gabava de reaparecer sempre onde menos o esperavam. Enfim, como ele mesmo insinuava, as fábulas são verdadeiras.
* Léo Schlafman é redator do Jornal do Brasil