RUA ORDENER, RUA LABAT
Sarah Kofman
tradução de Luis Fernando Medeiros de Carvalho e Paula Glenadel
Editora Caetés, 136 páginas
R$ 19
Tel: (21) 2576-3742
Esta é uma história que poderia ser contada de trás para frente, começando pelo suicídio de sua autora em 1994.
Naquele momento, Sarah Kofman parecia ter poucos motivos para se queixar da vida. Aos 60 anos, era uma das mais respeitadas professoras de Filosofia da Sorbonne. Seu primeiro livro, A infância da arte, rendeu-lhe notoriedade mundial quando lançado 24 anos antes e foi traduzido até para o japonês. Nele, Sarah ousava uma interpretação freudiana do próprio Freud, usando o método psicanalítico para investigar o que os lapsos e erros de seus textos sobre arte ocultavam. Com isso, ela apontava o caminho para a aplicação da ''leitura sintomacal'' em outros discursos.
Dois anos depois, Sarah Kofman escreveu aquele que é considerado por muitos seu grande livro: Nietzsche et la métaphore, que não foi traduzido no Brasil. Com base num dos textos do filósofo alemão, ela mostrava que o conceito, considerado pela tradição filosófica como oposto à metáfora, nada mais é do que uma superposição de metáforas esquecidas. Daí a importância do autor para a filosofia relativista contemporânea.
Memórias - Depois disso, Sarah escreveu mais 15 títulos. Mas, como ela mesma diz no primeiro capítulo de Rua Ordener, rua Labat: ''meus numerosos livros foram talvez caminhos oblíquos que tive que tomar para chegar a narrar isto''.
''Isto'' é a história de uma menina judia de apenas seis anos, que vê o pai ser deportado para Auschwitz, e precisa, a todo custo, ser escondida dos nazistas em plena França ocupada.
Mas não se espere uma nova Anne Frank. Este não é um livro para se ler com lágrimas nos olhos, embora o peso de suas palavras demore um longo tempo para se evaporar.
Ao optar por uma narrativa seca e curta, que faz lembrar um roteiro cinematográfico, Sarah Kofman deixa claro que é uma mulher madura que fala e não uma criança, embora o trauma da experiência às vezes a faça trocar o tempo verbal para o presente. Na sua radical recusa à piedade alheia, Sarah se afasta do sentimentalismo dos diários de Anne Frank para se aproximar da experiência desdramatizada de Primo Levi ou ainda de Georges Perec, seu grande inspirador, como confessou ao tradutor brasileiro Luiz Fernando Medeiros de Carvalho.
Gestapo - A história de Rua Ordener, rua Labat começa no dia 16 de julho de 1942. Nesse dia, o pai de Sarah, rabino de uma sinagoga parisiense, foi levado para Auschwitz. ''Um açougueiro judeu, transformado em capataz (tendo retornado do campo da morte, reabriu loja na rua des Rosiers), tê-lo-ia abatido a golpes de picaretas e o teria enterrado vivo, num dia em que ele se recusara a trabalhar. Era dia de Shabat'', narra Kofman. ''Por isso, e com tantos outros, meu pai sofreu esta violência infinita: morrer em Auschwitz, este lugar onde não podia, onde não devia ser respeitado nenhum Repouso.''
Se não fosse por seu valor literário, o relato de Sarah Kofman mereceria ser lido como um retrato do cotidiano da França ocupada, dividida entre o preconceito racial e redes de solidariedade aos judeus. A filósofa conta que, de julho de 1942 em diante, as operações de deportação aumentaram: mulheres, velhos, crianças, judeus naturalizados franceses, ninguém mais foi poupado. ''Nós, os yupins, não éramos somente reconhecíveis pelo nariz ou pelos sexos circuncisos. Assim estrelados, espremidos nos últimos vagões do metrô, na terceira classe, tornava-se cada vez mais fácil capturar-nos'', conta.
Nem as crianças estavam livres do preconceito. ''Na minha escola da rua Doudeauville, eu era durante o recreio, chamada de suja yupine'', diz. Mas a solidariedade também já existia na infância. ''Um dia tive a surpresa de ver uma de minhas colegas, Jeanne Le Sovoï, que tinha então como eu sete anos, reagir dando um par de bofetadas naquela que me insultava no pátio.''
Lista - A solidariedade viria ainda de desconhecidos, como o que entrou no apartamento da rua Ordener para avisar que Sarah e a mãe estavam ''na lista'' para aquela noite. Ou ainda da professora que dava aulas de piano para a menina que nada podia pagar, permitia que comesse à vontade a merenda racionada da escola e ainda a presenteava com livros e brinquedos. De forma organizada, ela viria de grupos comunistas judeus, que ajudaram a mãe de Sarah a esconder os seis filhos no campo, onde teriam menos chances de serem descobertos e conseguiram falsos cartões de alimentação.
Assim, Isaac virou Jacquot, Rachel foi transformada em Jacqueline e Aaron em Henri. As seis crianças foram espalhadas por várias fazendas e creches do Norte da França e ali ficaram durante dois anos. Todos menos Sarah, que se tornou uma criança problema. Presa aos preceitos judeus, a menina passava o tempo todo a chorar a falta da mãe e, principalmente, recusava-se a comer carne de porco, num momento em que um hábito alimentar como esse poderia facilmente denunciar sua condição de judia.
Entre julho de 1942 e fevereiro de 1943, a mãe de Sarah se dedicou a escondê-la em casas de simpatizantes, em colégios internos e até no pavilhão de contagiosos de um hospital. Mas a menina sempre se mostrava inflexível.
Vovó - O recurso mais habitual era à senhora da rua Labat, antiga vizinha da família. Quando o cerco da Gestapo apertou, foi lá que Sarah e a mãe foram procurar abrigo. ''Ela aceitou nos abrigar por uma noite e nos ofereceu ovos nevados'', recorda. Do apartamento da rua Labat, as hóspedes indesejáveis - ''quem nos escondia estava ameaçado'', como nós, de ser deportado ou fuzilado - só sairiam um ano e meio depois, com a libertação de Paris em 1944.
Ali processaria-se a maior transformação da vida de Sarah. A judia mais ortodoxa da rua Ordener se tornaria uma típica criança francesa da rua Labat. Chamada agora de Suzanne, ela desaprenderia a falar ídiche, passaria a comer bifes sangrentos, usaria um penteado à la garçonne, e teria roupas feitas ''sob medida'' pela ''vovó''.
''Sem saber ou sabendo, vovó tinha conseguido essa façanha: na presença de minha mãe, separar-me dela. E também do judaísmo'', diz Sarah. Mas todo o ressentimento guardado por aquela que viu o marido desaparecer, passou dois anos sem visitar os filhos e perdera impotente a única que conservara perto dela explodiria com o fim da guerra. ''Minha mãe não tinha mais senão ódio e desprezo por aquela que tinha salvado nossas vidas. Melhor ir viver num hotel do que continuar a conviver um segundo a mais com ela!''
Inversão - De um dia para o outro, Sarah teve deixar a mulher que amava agora mais do que a sua própria mãe. Agora a situação invertia e, de tanto chorar, a menina obteve autorização para passar uma hora por dia com a vovó. Mas era recebida a chicotadas pela mãe furiosa. A situação se tornou tão intolerável que ela fugiu.
Seguem lances dramáticos, como um processo contra a velha senhora, num tribunal F.F.I. improvisado, em que a mãe de Sarah a acusa de abuso sexual, e é desmentida pela me nina. ''Acusei por minha vez minha mãe, exibindo frente ao tribunal minhas coxas cobertas de hematomas e consegui apiedar o auditório'', conta. O tribunal decidiu confiar a menina à mulher que ela escolhera. Mas esse não foi o final feliz da história.
''Sinto um mal-estar muito estranho. Não me sinto nem triunfante, nem perfeitamente feliz, nem completamente segura'', diz Sarah. ''Eu olhava na rua para todos os lados, como se tivesse acabado de cometer um crime, como se eu estivesse de novo sendo procurada.'' E não se enganara. Ao subir as escadas do apartamento da rua Labat, Sarah se deparou com a mãe acompanhada de dois homens, que a arrancam violentamente da velha senhora. ''Minha mãe me batia, berrando em ídiche: Eu sou sua mãe! Eu sou sua mãe!'' É neste ponto que a autora deixa claro que sua situação era menos maniqueísta e muito mais complexa do que parece: ''Eu me debatia, gritava, soluçava. No fundo, eu me sentia aliviada'', confessa.
Às escondidas, Sarah continuou durante muito tempo a visitar e trocar cartas com a mulher que a acolheu. Foi ela quem a incentivou a continuar os estudos, mesmo lutando contra as piores condições materiais, que faziam com que só estudasse nos livros emprestados pelas colegas, enquanto a mãe verdadeira insistia que todos os filhos começassem a trabalhar e chegava a cortar a luz para que a menina desistisse de ler. Assim, a senhora da Rua Labat ajudou Sarah Kofman a se tornar um dos maiores nomes da filosofia contemporânea. Mas o trauma causado pela guerra a perseguiria por toda a vida, dilacerando-a por dentro.
Brasil - Foi com status de estrela internacional que Sarah Kofman visitou o Brasil em 1989, a convite da Pós-Graduação em Letras da UFF, onde proferiu cinco conferências sobre Nietzsche. No Rio também participou de um seminário sobre cultura judaica. A imagem que deixou foi de uma mulher estranha e arrebatadora. ''Era francamente paranóica, não ficava nem um minuto. Tinha medo de ser atacada pelas costas'', lembra Heloisa Buarque de Hollanda. ''Mas, ao mesmo tempo, era genial, hipnotizava a platéia. Quando começava a falar, era uma bruxa.''
A influência de Sarah Kofman também se processou através dos alunos brasileiros em Paris, como a filósofa Maria Cristina Franco Ferraz, que assina o arguto prefácio a Rua Ordener, rua Labat. ''Em geral pensamos, a partir de certas interpretações provenientes da psicanálise, que o ato de contar se apresenta como uma via possível à superação de uma experiência traumática. A que tudo indica, entretanto, tal não foi o caso: ao contrário, relatar essa história parece ter intensificado a experiência, tê-la tornado como que incontornável, terminando por levar ao mais radical dos silêncios a autora.'' Pouco depois de terminá-lo, Sarah Kofman pôs um ponto final em sua vida.
* Cristiane Costa é editora do Idéias