Sábado, 25 de Agosto de 2001
Refúgio para autores perseguidos

A ligação de Passo Fundo com a literatura não se resume à Jornada Nacional. O município é o único do Brasil a se tornar uma cidade-refúgio para escritores perseguidos, oficialmente registrada pelo Parlamento Internacional dos Escritores (IPW), com sede na França. O acordo faz com que, periodicamente, a cidade receba um escritor impedido de publicar livros em seu país, dando-lhe moradia e condições de trabalho por um ano, com possibilidade de renovação de contrato.

Foi o que aconteceu com o cubano Ricardo Alberto Pérez, que, censurado pelo regime de Fidel Castro, participou do programa em Passo Fundo, trabalhando lá nos anos de 1998 e 1999. Após esse período, o escritor voltou para Havana e até agora nenhum outro esteve na cidade. O diretor executivo do Parlamento Internacional, Christian Salmon, disse em entrevista ao Jornal do Brasil que está entrando em contato com a prefeitura para formalizar um novo acordo. ''Para agendarmos a residência de outro escritor refugiado, temos que entrar em contato com a nova prefeitura'', explica Salmon.

O prefeito de Passo Fundo, Osvaldo Gomes, informou através de sua assessoria de imprensa que ''está estudando o caso'' e que só deve decidir sobre a renovação após a jornada. Em todo caso, o Parlamento já tem outros interessados. ''Fomos procurados pela prefeitura de São Carlos (SP) e já enviamos toda a documentação necessária'', adianta Salmon. Em 1997, quando ganhou o direito de ser cidade-refúgio, Passo Fundo superou candidatos de peso como São Paulo e Curitiba.

Censura - Salmon diz ser impossível reunir as estatísticas sobre escritores censurados no mundo inteiro, mas tem uma boa amostra do problema entre os próprios beneficiados pelo Parlamento. ''Nossos escritores sofrem várias formas de censura, que vão do impedimento de publicação e acesso a entidades culturais até agressão física e prisão'', lamenta.

O IPW foi criado em 1994, motivado pelo apelo de 300 escritores de várias partes do mundo em reação ao assassinato de autores na Argélia. A partir daí, formou-se uma rede de cidades-refúgio que hoje engloba 31 municípios, fornecendo mais de 90 residências anuais para escritores e artistas de 19 países. O primeiro presidente da entidade foi o indiano Salman Rushdie, seguido do nigeriano Wole Soyinka e do americano Russel Banks, que ocupa o posto atualmente. Entre os presidentes honorários está o filósofo Jacques Derrida. O conselho executivo é composto por escritores como o português José Saramago e o italiano Antonio Tabucchi. (R.A.)

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