Sábado, 25 de Agosto de 2001
De volta ao planeta das mulheres

Romance de espanhola pega pesado no universo feminino, em comédia de humor negro que se equilibra entre o grotesco e o social

JUAN ÁRIAS

À CAÇA DO ÚLTIMO HOMEM SELVAGEM

Ángela Vallvey

Tamisa,

200 páginas

R$ 25

Em seu primeiro romance para adultos, a espanhola Ángela Vallvey nos dá de presente uma comédia nitidamente feminina, divertida e pujante, com tintas ''almodóvarianas''. Se dizem ser difícil a um escritor acostumado a lidar com a literatura especificamente juvenil passar para a literatura adulta, A caça do último homem selvagem conseguiu passar com desenvoltura por essa difícil transição. Sua comédia consegue manter a atenção até o fim e, ao mesmo tempo, divertir. Entre um gracejo e outro, de escatologia em escatologia, a comédia consegue dar também alguns puxões em nossa consciência burguesa.

Não é fácil construir uma comédia de corte feminista hoje em dia, analisando o comportamento de nove mulheres que vivem juntas na mesma casa, pertencentes à classe trabalhadora, com falta de recursos econômicos, embrutecidas pela força da publicidade de consumo televisiva, todas em busca de um homem do qual não sabem o que mais admiram, se é o machismo selvagem daquele que só pensa em sexo, ou a sua capacidade de também saber fazer amor.

O planeta do feminismo está muito explorado literariamente e é fácil resvalar em clichês. Ángela se mantém durante as 200 páginas no fio da navalha e consegue o equilíbrio entre o sério e o cômico, o grotesco e o dramático, a linguagem dura e às vezes vulgar, e uma certa ternura que ultrapassa a comédia.

Cinema - Para aqueles que têm dúvida de que Pedro Almodóvar segue influenciando, não somente o cinema espanhol recente, como também a literatura, basta ler este romance para convencer-se da força de sua presença. Porque Candela, a protagonista, que trabalha de ajudante na triste tarefa de preparar os corpos dos mortos para uma funerária, é uma reprodução das famosas ''mulheres de Almodóvar''. E o são as outras quatro irmãs, todas elas entre a ingenuidade e a dilaceração física e psicológica, todas escatológicas, que rompem modelos e ao mesmo tempo estão tristemente ancoradas nos preconceitos sociais.

Nessa espécie de inferno-paraíso de nove mulheres, nas idades mais diferentes (convivem com as cinco irmãs da mãe, a avó, uma tia e uma sobrinha) a autora se move com desenvoltura literária e consegue destrinchar os labirintos de uma relação infernal e ao mesmo tempo terna em uma convivência na qual estão presentes todos os sentimentos mais elementares e profundos da alma humana: rancores, invejas, histerias, sonhos impossíveis e também um amor profundo, para que não acabe tudo em pura loucura.

Um romance que teria desfrutado Pier Paulo Pasolini, o cineasta italiano que me confiava um dia que sua dor maior era não conseguir ''entender o cosmos feminino''. Ele, que era um intelectual profundo, teria gostado também do fundo filosófico desta comédia, e das citações dos pensadores clássicos da Antiguidade. O autor de Decameron teria se divertido com a linguagem escatológica da escritora espanhola. E com seu forte humor negro, que se faz antológico nas páginas que, com galhardia, descreve a crua realidade das câmaras mortuárias mais lúgubres. Essa difícil linha entre o respeito à morte e sua dessacralização para poder seguir vivendo.

Ritual - A protagonista começa afirmando em seu romance: ''detesto que me falem da vida, pois invariavelmente lembra-me a morte''. E quase ao fim recorda que não devemos esquecer que ''vivemos entre a morte e que a detestamos tanto quanto ela a nós''. E acaba com um ''estou cansada da morte''. Estava cansada sobretudo do ritual de ter que embelezar seus personagens depois de sua morte a fim de que partam limpas e penteadas para o outro mundo. E aí descarrega a protagonista todo o seu humor negro como para tentar exorcizar o que toda a morte, vista como antagonista a vida, contém em suas entranhas.

O responsável em preparar os corpos dos defuntos, o senhor Oriol, deixava Candela, sua ajudante, apenas os últimos retoques de maquiagem nos mortos. E a autora descreve assim o trabalho de seu chefe: ''Quando diz que já se encarregou do corpo, utiliza uma delicada metáfora para não ter que explicar em detalhe o penoso, longo e elaborado processo que consiste em disfarçar as horrorosas ereções post mortem de alguns defuntos. É certo que para as famílias dos finados seria uma amarga experiência serem obrigados a contemplar seus entes queridos enfaixados por baixo das calças - smoking em alguns casos - duros em toda a generosa acepção da palavra, incluindo o membro cadavérico''. E brinca com ela mesma quando afirma que a única vantagem no trabalho que realiza é que, naquele lugar, não corre o perigo de ''assédio sexual''.

A comédia, que reserva muitas surpresas ao longo do caminho, começa dura e desgarrada e se conduz ao fim com o episódio dos diamantes de cigano e das esperanças de ganhar na loteria da avó. É a única mulher do grupo que, ao viver acima do bem e do mal, em vez de os ''ataques de demência'' tem ''ataques de realidade'', conseguindo sempre pôr uma nota de agressividade naquelas endemoniadas relações de mulheres em busca de um mínimo de felicidade, que o destino as nega tenazmente por sua condição de proletárias. O inesperado enredo final se resolve com inteligência e maturidade narrativa.

* Juan Árias é jornalista, escritor e correspondente do jornal espanhol ''El país'' no Brasil

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