Sábado, 25 de Agosto de 2001
O que você conta de novo, geração 90?

Antologia reúne destacados contistas contemporâneos, exibindo a diversidade temática e formal de sua produção, mas falha ao não explorar a resposta da literatura às novas tecnologias

Italo Moriconi

GERAÇÃO 90: MANUSCRITOS DE COMPUTADOR - OS MELHORES CONTISTAS BRASILEIROS DO SÉCULO 20

Org. Nelson de Oliveira

Boitempo Editorial, 164 páginas

R$ 26

Vai-se firmando entre os interessados pelo assunto literatura brasileira a idéia de que os anos 90 foram marcantes em matéria de conto. No mínimo, cabe constatar que uma nova geração de contistas apareceu com força. Força surpreendente: chegados ao umbral do novo século, diversos dos novos autores já estão lançando seu terceiro, seu quarto livro. Há produtividade. E há efervescência, indicada não apenas pela proliferação de antologias, mas também pela visibilidade às vezes ruidosa de seu fiel público leitor. Embora numericamente reduzido, esse público leitor do conto dos anos 90 traz o dado novo de ser atento a polêmicas e de manter-se plugado nas publicações especializadas que arejaram o cenário de nossa prosa curta nos últimos anos: Ficções (Rio), Cult (S. Paulo), Rascunho (Paraná).

Diante de tanta movimentação e às vezes algum frisson, estava mesmo na hora que alguém se habilitasse a produzir uma coletânea voltada para apresentar os novos autores ao público mais amplo, abrindo ao mesmo tempo caminho para a crítica fazer seus primeiros balanços retrospectivos. Aqui está pois, diante de mim, desafiante e misterioso, o volume tão oportunamente lançado pela Boitempo. Antes mesmo de abri-lo, ao ver o nome de seu organizador, já parto de uma certeza. Ninguém melhor que Nelson de Oliveira para assumir a empreitada de uma antologia como esta. Nos últimos anos, através de uma intensa atividade como ficcionista e polígrafo literário, Nelson aparentemente assumiu um pouco o papel de aglutinador, de ''consciência falante'' da geração 90.

Existir alguém legitimado por seus pares (ou por uma parte significativa deles) para ocupar tal lugar não é pouca coisa, se o que se deseja é firmar o perfil de uma geração. Pois qualquer leitor pode, a qualquer momento, e também legitimamente, questionar a existência efetiva, no campo do conto, de uma nova geração literária no sentido forte ou completo do termo. No sentido de que uma geração literária não se define apenas pela faixa etária de seus componentes. A definição apenas por faixa etária é fraca. Uma geração literária só é nova se produz algo novo.

O que seria então o novo conto brasileiro dos anos 90? Para ser novo mesmo, ele deveria estar falando das novas questões culturais, morais, estéticas, que não são poucas. Há um verdadeiro bazar de questões provocadoras desafiando o talento dos artistas contemporâneos. Acrescente-se que questões novas não só pressupõem novos assuntos e temas, como também exigem que se possa detectar algum tipo de inquietação ou inovação no plano formal. Movido por essa expectativa, o olhar crítico parte para cima daquilo que o ficcionista escreveu e o antologista recolheu.

Em sua introdução, no entanto, Nelson de Oliveira meio que descarta a idéia de que a capacidade de reagir temática e esteticamente às instigações específicas do momento seja um critério válido para reconhecer sua geração literária. E afirma que para muitos dos contistas por ele escolhidos ou mencionados a rubrica Geração 90 ''chega a causar asco''(sic). Ficamos assim entregues ao valor atemporal da literatura. A leitura dos muitos contos da antologia (em vários casos, há mais de um conto por autor) confirma essa impressão. O antologista preocupou-se em evitar o que seria ''de moda'' e, como resultado, uma parcela dos contos aqui recolhidos não traz nada de novo, reciclando de maneira repetitiva alguns clichês do gênero herdados da geração anterior, a geração oriunda do boom do conto nos anos 70, cujo apogeu criativo ocorreu nos anos 80 e que na verdade encontra-se ainda em plena atividade.

Alguns desses clichês: a evocação ternurinha de uma infância rural, pobre ou interiorana; o bar ou boteco pé-sujo como lugar típico de escritor (principalmente do mineiro); a bravata machista como corolário de uma insegurança fálica diante do stress causado pela disputa da fêmea, resultando no adultério como tema privilegiado. Curioso: a posição preferida pelos narradores criados pelos novos escritores machistas é a do amante. O conto acaba servindo de palco para tematizar a vivência do adultério como uma espécie de triunfo narcísico do falo potente sobre o do pobre marido, terceiro excluído, cornudo e brochado. Estamos mais no campo da fantasia que da imaginação.

O ''atemporal literário'' num conto tende a ser o índice de sua dívida para com o clichê. Mas nem sempre essa dívida é má. O clichê em si não é um mal. O clichê é simplesmente uma matéria-prima, algo que está à disposição de qualquer candidato a escritor. O verdadeiro e bom contista é aquele que pega o clichê e, por meio da imaginação e da mestria narrativa, leva-o para lugares insuspeitados, transformando a fantasia em combustível para uma história bem contada. Na tradição brasileira, a arte do conto tem preponderantemente combinado a notação evocativo-descritiva própria da crônica à contínua produção e reciclagem dos clichês narrativos. Para o bem ou para o mal. O ''bem'' é o conto bom ou mais que bom. O ''mal'' é o conto ruim ou mediano. Talvez o conto mediano seja ainda pior que o ruim. O conto mediano é enfadonho, dá raiva. O conto ruim às vezes faz rir.

Politicamente (in)correto - Ao buscar no atemporal um critério de seleção, Nelson de Oliveira reconhece, em sua introdução, que a geração 90 não dá um retrato politicamente correto dos anos 90. Afirma taxativamente que os ''excêntricos'' (a expressão é dele) ainda não conquistaram um espaço na literatura brasileira. Por ''excêntricos'', entende a mulher, o negro, o índio, o favelado, o homossexual. Mas isso não quer dizer que sua antologia não tenha uma política. Toda antologia literária tem uma política cultural por trás, um conceito que lhe dá a moldura básica.

Claramente, Nelson de Oliveira optou por reagir contra outro tipo de exclusão. Não a exclusão das subjetividades oprimidas, culturalmente minoritárias. Mas a exclusão regional. A exclusão perpetrada pela concentração da indústria editorial no eixo Rio-S.Paulo. Houve o empenho deliberado de incluir na lista de melhores contistas alguns nomes até então restritos a circuitos regionais - Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Ceará. Preocupação interessante. Mas revela que se Nelson não encontrou contistas voltados para a exploração de temas ligados às subjetividades de gênero e etnia é porque simplesmente não quis encontrá-los. Preferiu a política do modernismo requentado.

É certo que os cânones literários brasileiros privilegiam sempre os escritores consagrados pela indústria editorial, acadêmica e midiática concentrada no eixão megalopolitano. Nesse sentido, há, sim, continuamente colocada uma questão política regional na literatura e na arte brasileiras. Tal questão, por seu turno, não precisa ser necessariamente respondida por estratégias regionalistas de tipo folclórico, caminho na verdade rejeitado por nossos novos contistas regionais. Mas fica a pergunta: será que os contistas regionais estão abordando as questões fundamentais da cultura hoje? Partir de uma vaga ou genérica aspiração ao atemporal na literatura trai às vezes certo provincianismo ou ingenuidade intelectual. Não basta ser regional, é preciso ser atual: eis aí a essência dual do particular lukacsiano.

Recorte formal - Porém, para sorte de Nelson de Oliveira, sua antologia se define menos por aquilo que exclui e mais por aquilo que inclui. Analisemos então qual é a estratégia de inclusão. Resumindo, tratou Nelson de trazer ao público leitor uma amostragem eqüitativa das duas principais vertentes formais em que se distribui a produção contística da nova geração. De um lado, o miniconto, o microrrelato que vai de apenas duas linhas (como em ''Epígrafe'', de Marçal Aquino) até o que se pode chamar ainda de conto curto, chegando a no máximo 5 ou 6 páginas. De outro lado, o conto propriamente dito, o conto-padrão contemporâneo, que tem uma duração de até aproximadamente 15 páginas.

O tempo de uma sentada, que Edgar Allen Poe, figura fundadora do conto moderno, estabeleceu como elemento definidor central do gênero, é hoje obviamente bem menor que no século 19. Poucos aficionados contemporâneos do conto têm paciência para ler relatos de 20 ou 30 páginas, a não ser que as primeiras linhas sejam excepcionais. Um bom conto longo só é bom se suas primeiras linhas forem excepcionais, nesse caso até que dá para o leitor encarar uma exigência maior de não-dispersão. Dispersão é qualidade para romance, jamais para conto ou novela. O romancista é um dosador de dispersões textuais. Já o contista, como se sabe desde Cortázar, precisa dominar a arte de nocautear o leitor, deixá-lo chapado da primeira à última linha, numa vertigem concentrada.

O microrrelato e o conto-padrão são realidades narrativas bem diferentes e exigem critérios diferenciados de avaliação. Será munido desses critérios diferenciados que o leitor da antologia Geração 90: manuscritos de computador poderá discernir preferidos em cada time, escolhendo os seus melhores dentre aqueles que Nelson de Oliveira julgou serem os melhores. Parafraseando Waly Salomão, ao melhor, sobrepõe-se o mel do melhor. O bom leitor de antologia tenta desentranhar dela sua própria seleta, pessoal e intransferível.

Curto e o curtíssimo - A diferença básica de avaliação das duas famílias de contos corretamente privilegiadas por Nelson de Oliveira é que, no caso do micro-relato contemporâneo, o interessante é o jogo de linguagem, ao passo que no formato padrão, a expectativa é que o contista tenha imaginação e saiba o básico de sua específica arte narrativa, mostrando-se capaz de construir uma ligação sustentada entre as primeiras linhas de impacto e o desenlace dramático final.

Tendo em vista tal contraste, acredito que são os microrrelatos que, do ponto de vista formal, correspondem melhor à idéia trazida pelo complemento do título da coletânea - ''manuscritos de computador''. Adaptando para nosso contexto a pergunta básica que orientou a leitura feita por Flora Süssekind da literatura e cultura brasileiras no início do século 20 no livro Cinematógrafo das letras, em que ela investiga a relação entre o surgimento de novas técnicas, como a máquina de escrever, e a própria forma do literário, podemos indagar o seguinte: em que medida o fato desses novos escritores de fins do século 20 e início do 21 escreverem diretamente em computador afeta ou molda a sua linguagem criadora? Pesquisa a ser feita, reencetando o esforço original de Flora. Mas creio que apenas a leitura desta antologia não seria suficiente para permitir uma resposta. Seria necessário um estudo mais amplo e panorâmico da produção contística contemporânea para chegar a uma conclusão pertinente.

Seja como for, o espaço restrito do microrrelato parece mais propício ao atendimento de necessidades de tipo experimental, anti-convencional. Estas, por hipótese verossímil, deveriam estar movendo o leitor-escritor contemporâneo, acostumado a diariamente ligar-se no computador, conectar a Internet e pular de site em site, de link em link. A forma canônica nos sites mais freqüentados da rede virtual é o texto de uma lauda ou menos, reduzido ao essencial de um dado (um bit) de informação pragmática. Cabe ao novo contista de espírito explorador, entusiasta da forma do micro ou minirrelato, bagunçar esse coreto de uma forma textual já estabilizada, através da surpresa lírica, da informação deslocada ou do humor. O que se pode escrever no espaço-tempo de 10KB? É uma questão colocada para os prosadores de hoje. O microtexto é a unidade mínima de sentido do hipertexto.

Na antologia de Nelson de Oliveira, destacam-se, nessa seara, os relatos de Fernando Bonassi, Marcelo Mirisola e Mauro Pinheiro. Também merecem registro os nomes de Marcelino Freire, Jorge Pieiro, Cadão Volpato, cujos textos mostram-se mais irregulares em matéria de qualidade. Em Bonassi e Pinheiro, vejo a busca de certa estabilidade estilística para o microrrelato, ao passo que Marcelino Freire e seu mentor Mirisola investem efetivamente numa intervenção desestabilizadora, anticonvencional, francamente iconoclástica no caso de Mirisola.

Marcelo Mirisola é hoje um autor cult adorado por alguns, depreciado por outros. Os contos publicados na antologia trazem uma radicalização de sua fórmula, baseada na encenação de uma performance cínica. Carregando na pauta da fantasia machista de auto-afirmação fálica, o que pode realmente interessar em seus contos curtos é o que neles é feito com a linguagem, num processo interminável de subversão violenta do sentido, desmistificação (ainda e sempre!) das retóricas do mandarinato e do devocionismo literários e achincalhe dos sentimentos, em altíssimas doses de imaginação humorística.

Receita de clássico - A outra vertente contemplada pela antologia Geração 90 é a do conto-padrão. Trata-se do conto conto, sem maiores adjetivações ou especificações. É o conto mais polpudo, mais tradicional, comprometido com a linguagem enquanto estilo autoral e não enquanto intervenção. Comprometido sobretudo com a narração enquanto construção paulatina de uma situação imaginada.

Apesar de parco nas conceituações, Nelson de Oliveira apela para o Joyce insuperável de Dublinenses e na introdução define esse conto em geral como epifania.

A epifania joyciana representa uma ênfase teórica e prática no desenlace dramático, encarado como o ponto em torno do qual gira toda a narração de um conto. Para ser epifânico no sentido literário (e não religioso), tal desenlace deve propiciar uma descarga poética intensa, no sentido de que tudo que foi contado acabou existindo apenas para produzir a revelação de uma metáfora poderosa, capaz de iluminar algum aspecto da profunda solidão humana ou o traço de algo que pode compensar tal solidão através do próprio experimentar da revelação como fato textual concretizado na leitura.

Embora esteja longe de esgotar as possibilidades do conto em geral, considero muito bem lembrada essa definição de epifania, por permitir ao leitor relativamente leigo, assim como ao crítico profissional sedento de jugulares de maus escritores, reconhecerem exatamente onde e por que um conto-padrão fracassa, ao passo que outro se realiza, onde e por que um conto-padrão é apenas mediano, ao passo que outro é excelente ou mesmo excepcional.

O traço básico do conto narrativo de qualidade superior é o caráter não exterior de sua epifania, de seu desenlace. Este pode vir tanto como conseqüência lógica, quanto como inversão brutal das expectativas criadas ao longo da narrativa. Em ambos os casos, só será bom se for de alguma maneira surpreendente, produzindo maravilhamento ou espanto. O mais importante é que o autor tenha conseguido desde as primeiras linhas acender no leitor uma expectativa por ele. É nesse sentido que o desenlace deve ser interno ao narrar. Ele ocupa um lugar conclusivo simultânea e paradoxalmente coerente e inesperado no desenrolar de um suspense. Quanto ao suspense, uma das maiores dificuldades na arte do conto é torná-lo claro para o leitor.

Pode parecer que não, mas obter clareza na escrita ficcional é mais difícil que numa escrita puramente conceitual. Se na seara do microrrelato as condensações e deslocamentos são fundamentais, na seara do conto-padrão é importante para o escritor dominar os segredos de uma verbalidade mais analítica. Muitas vezes o leitor percebe que há um suspense, mas precisa esperar o término para entender de que se tratava afinal, pois dentro da moldura vertiginosa do conto, o autor não conseguiu assegurar lugares adequados para enunciados analíticos. Aí, fica lacunar ou excessivo onde não devia, fica mediano. No conto forte, o suspense arrebata o leitor desde o início e o acompanha em cada frase lida, em cada sílaba vencida.

Nem sempre os contistas da ala mais narrativa da antologia de Nelson de Oliveira conseguem preencher tais requisitos. Contribuíram com contos esforçados, bem escritos, às vezes muitíssimo bem escritos, como é o caso do conto de Luiz Ruffato. O conto de Ruffato, ''O ataque'', trai certa falta de articulação interna da epifania. Sua grande qualidade é o manejo da linguagem evocativo-descritiva tão típica do conto regional, mas não regionalista. Ruffato retoma nesse conto a paixão pelo insólito no cotidiano e por estados de distúrbio mental, temas fortes entre os contistas mineiros da geração 70.

Destaque - Na colméia de meu gosto particular, o mel do melhor concentra-se todinho em ''Céu negro'', de Rubens Figueiredo. Trata-se de uma pequena obra-prima, relato exemplar e nada piegas sobre a ética da generosidade e sobre a relação sexual entre homem e mulher como relação densa, de troca efetiva, sem estereótipos, sem fantasias adolescentes.

Todas as virtudes acima elencadas como pressupostos para a epifania bem realizada aparecem em ''Céu negro'', transformando-o, desde logo, num clássico do gênero entre nós. Palmas para Rubens Figueiredo, primus inter pares, cuja obra, já bastante respeitável em termos tanto de qualidade quanto de quantidade, é presente oferta a leitores adultos, sedentos de estilo e poesia, e é convite urgente a debates mais detidos no âmbito da universidade e dos espaços culturais dedicados à literatura. Rubens quer ser clássico. Rubens conseguiu produzir um clássico. Quem ganha com isso somos nós, seus leitores, doravante devotados.

* Italo Moriconi é professor de Literatura Brasileira da Uerj e organizador de ''Os cem melhores contos do século'' (Objetiva)

Fernando Bonassi

Mauro Pinheiro

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