ENTRE MITO E POLÍTICA
Tradução de Cristina Murachco
Jean-Pierre Vernant
Edusp, 517 páginas
R$ 48
A recente publicação de Entre mito e política do helenista francês Jean-Pierre Vernant - espécie de autobiografia intelectual do autor - oferece ao público brasileiro a oportunidade de acompanhar a trajetória de uma vida dedicada à pesquisa, revelando cada peça da construção de sua vasta obra, de valor excepcional. Nascido em 1914, Vernant formou-se em filosofia e é hoje um dos responsáveis por uma visão renovada sobre a Grécia antiga. Professor honorário do Collège de France, seu percurso intelectual está atravessado por lutas políticas e sua investigação sobre os gregos, pelas preocupações do presente.
Engajado na Resistência, aderiu, ainda nos anos 30, movido por um forte sentimento antifacista, ao Partido Comunista Francês. Em seus escritos, porém, ele nos revela uma nova maneira de compreender os deuses e os mitos de uma Grécia distante. É a convergência desses duas faces do autor que encontramos nos textos de sua antologia.
Diferentemente das demais coletâneas de artigos do autor - tais como Mito e pensamento, Mito e tragédia e Mito e sociedade - Entre mito e política pode facilmente ser encarado como algo mais do que uma compilação de seus escritos. Desprovido de um teor programático, reúne artigos sem um propósito metodológico fundacional e sem a pretensão de centrar-se sobre um objeto preciso. Além de seis artigos inéditos, entrevistas e escritos de difícil acesso ao público brasileiro, são aqui abarcados os mais importantes e diversos temas dos quais se ocupou Vernant nos últimos 50 anos.
Documento - O livro importa menos pela extensão dos assuntos que recobre do que por seu valor documental. Documento de uma época, mas sobretudo de uma maneira de pensar. Com efeito, um dos seus méritos está em tomar vida e obra numa mesma perspectiva, encadeando os temas centrais de sua investigação sobre o homem grego, as etapas de seu itinerário intelectual e dos principais embates políticos.
Os pólos do mito e do político presentes no título parecem conferir um sentido de unidade e totalidade àquele que é sujeito e objeto do livro: o próprio Vernant. Ao contrário de estabelecerem uma oposição, ambos os pólos acentuam a sua interseção, realçando a própria impossibilidade de se dissociar as dimensões humana e intelectual do autor. Militante pelo movimento de Libertação, J.-P. Vernant - coronel Berthier - foi ainda testemunha de Maio de 1968 e da luta argelina pela descolonização.
Lançado na França em 1996, sua recente tradução para o português desfruta felizmente da atualidade e do frescor de uma obra viva, em movimento, cujas surpresas vindouras aguardamos. Documento de um pensamento constituinte, apresenta não somente o seu processo de fabricação e transformação, mas retrata com fidelidade alguns dos mais caros temas que orbitaram a vida intelectual francesa da segunda metade do século 20 e é, por isto, indispensável para um exame dos direcionamentos plurais do pensamento francês recente.
Desafios - A erudição, os interesses diversos e os diálogos interdisciplinares travados por Vernant se fazem presente neste que é, sobretudo, um documento de nosso atual conhecimento sobre os gregos. Ao especialista, este livro revela ainda algumas das questões fundamentais que nos foram, ao longo de 50 anos, reveladas pelo consagrado helenista. Aqui reunidas, estas nos permitem enxergar os desafios, os impasses e as manobras do processo constitutivo das célebres análises que conhecemos apenas em sua forma mais acabada. Está aí ilustrada a maneira com que, de forma exemplar, Jean-Pierre Vernant soube transitar e dialogar com diferentes paradigmas, sem contudo fechar-se em seus dogmatismos.
É o caso de sua apropriação do método estrutural. Adotando a noção de sistema tal como ensinada por Georges Dumézil, Vernant pioneiramente pôde transpor o consagrado método lévi-straussiano de decifração das narrativas míticas ameríndias para o domínio do helenismo, trabalhando com mitos e tradições lendárias escritas de uma civilização imersa na história, como a Grécia antiga. À medida mesmo em que fornecia a suas abordagens um alicerce metodológico mais rigoroso, o autor soube distanciar-se da febre estruturalista que fez furor entre os intelectuais parisienses, contrariando-a ao não se dispor ''a expulsar a história do campo das ciências sociais, em proveito de modelos formais, de esquemas abstratos''.
Para além dos estudos sobre a Grécia antiga, o livro é de interesse daqueles que abordam o pensamento social francês das últimas décadas. Afora as referências aos grandes nomes do estruturalismo, encontram-se espalhados pelos diferentes capítulos os ensinamentos de Marcel Mauss, Marcel Granet e da escola durkheimiana - especialmente, porém, a imensa dívida intelectual de Vernant para com o helenista Louis Gernet e o renomado psicólogo Ignace Meyerson.
Renovação - Entre mito e política reafirma a importância de ambos para a constituição de sua ''psicologia histórica'' e, de um modo geral, para a renovação dos estudos helenísticos na França. A partir da leitura de Meyerson, Vernant nos ensina a ver o homem inacabado, constituinte, e combate os psicologismos. A respeito de um dos personagens mais significativos da mitologia e da tragédia gregas, Édipo, o autor retoma seu distanciamento em relação à leitura freudiana e exorta-nos a desconfiar das interpretações que, pretensamente universalizantes, guiam-se por uma grade analítica já constituída, alheia aos dados contextuais e aos sistemas de pensamento que envolviam as versões da história edipiana.
Distinguindo as formas de pensamento dos homens do século 20 e as dos gregos antigos, Vernant traz à tona o homem e suas obras, ambos se constituindo e se interpenetrando, e nos mostra que a verdadeira psicologia é aquela feita pelo historiador.
Aos leitores que desconhecem a obra de Vernant, este livro é indicado como via de acesso, sobretudo por revelar um pesquisador cuja investigação da alteridade grega está a serviço das preocupações de seu tempo. ''Desejamos que a Grécia permaneça presente em nosso ensino (...) para que (...) ela nos leve a refletir mais lucidamente sobre as implicações e as questões de nossa civilização, nos esclareça sobre o que somos, comparados e confrontados aos outros''.
Os que procuram um primeiro contato com sua obra terão a possibilidade de acessarem o tempo de Hesíodo e o mundo contemporâneo, o advento da polis e o controverso envolvimento do PCF com a luta argelina, os deuses do panteão grego e o stalinismo, e de conhecerem uma Grécia inteiramente outra, mas suficientemente próxima para que possamos compreendê-la.
* Felipe Brandi é mestre em Teoria e Filosofia da História pela PUC-Rio