Sábado, 9 de Junho de 2001
Uma grande volta por cima

Em seu primeiro livro depois do Nobel, o octagenário Camilo José Cela viaja à irrealidade da Galícia

Juan Árias

MADEIRA DE LEI

Camilo José Cela

Bertrand, 252 páginas

RS 33,00

A Galícia, protagonista de Madeira de lei, romance de Camilo José Cela, último Nobel de Literatura de língua espanhola, é uma galáxia dividida entre o mito e a realidade, um microcosmo rico e surpreendente por onde passeiam com naturalidade pessoas e fantasmas, vivos e mortos, bruxas e duendes, animais humanizados, demônios em forma de tartaruga e anjos morcegos. Há até almas ''que saem do purgatório para criar pesares às viúvas que tomam demasiado café''. Um universo de mistério, de sonhos, às vezes terno, às vezes grotesco, às vezes angelical e às vezes volteriano, no qual o religioso se mescla à superstição, a magia e as evocações com as missas e as procissões cristãs. Todo o texto tem uma atmosfera de vida rural dura, às vezes embrutecida, às vezes redimida pela inocência dos loucos.

Desta vez, Cela retrata a Galícia rural, a dos marinheiros que morrem lutando contra o mar, descrito sempre como ameaçador e misterioso, nunca amável e tranqüilo. O mar ''com sua voz de bêbado triste e rixento'', o mar que ''muge como um boi amargo ... como um coro de vacas parindo'', o mar que nunca deixou de agitar-se ''desde que Deus inventou o tempo''.

Madeira de lei é a primeira obra de Cela escrita depois do Nobel, publicada quando completava 83 anos. Esperou-se longos dez anos. Poucos imaginavam que o autor de La família Pascual Duarte y de Mazurca poderia escrever ainda algo tão significativo. Mas ele surpreendeu seus leitores, presenteando-os ''a melhor de suas criações'', segundo a crítica espanhola.

Estilo - Quando se anunciou que Cela voltava a cena, todos se perguntavam que instrumentos literários o escritor iria utilizar. Se iria continuar a linha de suas últimas obras ao nível do realismo grotesco ou se voltaria ao vanguardismo de sua primeira obra, que havia causado tanto escândalo, Pisando a ambígua luz do dia, escrita em 1936, em plena guerra civil espanhola, mas publicada somente em 1945.

A crítica espanhola definiu Madeira de lei como pertencente às suas primeiras experiências vanguardistas. A nova obra de Cela, mais que um romance, é uma viagem de costumes aos mistérios da Galícia mais sombria e atrasada, um interminável carrossel de pequenos acontecimentos na rotina mortal das aldeias acostadas ao mar, ancoradas a um tempo que não passa, as das ''sereias passionais e vingativas'', onde ''os defuntos não costumam ser favoráveis às inovações''.

Sua obra é como uma narração interminável na qual Cela - esse genial conversador que cativa sempre a seus ouvintes - vai apresentando, com seu clássico estilo escatológico, não um, mas muitos personagens, todos menores, porém repletos de vigor, cada um com sua história insignificante, mas carregada de humor - quase sempre negro - de morte, de irreverência, de medos e surpresas, de neblinas onde confundem-se baleias que atacam ''barcos perdidos e moribundos, tripulados por fantasmas de marinheiros defuntos''.

Grotesco sagrado - Para descrever esse universo de louca normalidade, de ausência de racionalidade, de espaços sempre abertos a todos os absurdos, Cela não podia usar uma estrutura literária convencional que não houvesse podido alcançá-lo. Creio que sua genialidade consiste no fato de que, para descrever um mundo antigo e misterioso, de coisas pequenas - que fora de sua pena permaneceriam insignificantes e banais -, utilizou todos os instrumentos mais modernos e anticonvencionais. Escreveu seu romance, imitando, curiosamente, as estruturas da moderna informação, que não distingue entre realidade e ficção, que é vertiginosa, sem fronteiras de tempo e espaço, aparentemente caótica, às vezes cruel e às vezes grotesca, arrepiante, irreverente, no qual o sagrado de qualquer tipo se mescla ao profano. Por isso escreveu sem pontos, nem apartes, nem respiração. E mesclando a língua castelhano com a galega.

O escritor italiano Leonardo Sciascia, o maior romancista da máfia, que sempre escreveu sobre sua Sicília mínima, dizia que não existe literatura mais universal que a que descreve as pequenas vidas das aldeias, minúsculas de província. Como o filme de Bergman. Assim é também Cela: um escritor universal que somente escreveu o mundo rural, cujos personagens são isso: nada, como os deste romance. Como Robelo, o pároco rural de Carnota que ''come com os dedos e os limpa, morrendo de rir, na bunda de sua jovem criada''. Como Madalena das Preseiras, que foi queimada pela Inquisição porque ''devolvia leite aos peitos secos das mães e a semente aos testículos secos dos pais''. Os personagens são fantasmas ou defuntos e quase sempre grotescos, como ''os que se sentam no ataúde e saúdam os vivos e alguns até riem e soltam peidos''. Mas também personagens ternos como Vicent, o corcunda que, a quem acariciava sua corcova, espantava as desgraças.

Não é um romance amargo, porque faz sorrir, mas é uma grande história de solidão, da tristeza rural que às vezes acaba em uma saga de enforcados e lançados ao mar, mas também de gente que sabe gozar as pequenas coisas da vida, com a pesca do polvo e do badejo, que sonha, embora em vão, toda a vida em construir uma casa de ''madeira de lei'', que, diz Cela, é tão maravilhosa ''que nem se queima nem bóia'', que desafia o tempo. Como este romance, construído com literatura de lei.

* Juan Árias é jornalista, escritor e correspondente do jornal espanhol El país no Brasil

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