Sábado, 26 de Maio de 2001
Sutil divertimento de dois gênios

Primeira obra da dupla Borges-Casares, escrita por um certo H. Bustos Domecq, é uma paródia dos romances policiais

MARIA ISABEL BORJA

SEIS PROBLEMAS PARA DOM ISIDRO PARODI

Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares

Dantes Editora, 230 páginas

R$ 18

Em 1932, Adolfo Bioy Casares e Jorge Luis Borges encontram-se pela primeira vez, em Buenos Aires. À época, Borges, nascido em 1899, já liderava a vanguarda literária Argentina, enquanto Casares tinha apenas 18 anos. Mesmo assim, tornaram-se grandes amigos. Alguns anos mais tarde, Casares iria tornar-se também seu maior parceiro. H. Bustos Domecq, o personagem-autor criado pela dupla, nasce, então, em 1942, com Seis problemas para Dom Isidro Parodi, lançado, agora, pela Dantes Editora, dando continuidade à sua Coleção Babel. A seguir, vieram Un modelo para la muerte (1946), Dos fantasías memorables (1946), Los orilleros (1955), El paraíso de los creyentes (1955), Nuevos cuentos de Bustos Domecq (1977).

Em Seis problemas para Dom Isidro Parodi, Borges e Casares apresentam uma memorável galeria de personagens, incluído aí o próprio narrador que, como os heterônimos de Pessoa, tem sua própria biografia e estilo.

Para seus criadores, Bustos Domecq é, sobretudo, o retrato do argentino e, mais especificamente, do portenho. Em entrevista concedida em 1977, os dois afirmavam sobre ele ''(...) é, digamos, um bom exemplo do portenho: tem todos os preconceitos, a picardia, as deslealdades, as pobrezas e também as ternuras do portenho''. Vivendo e atuando na década de 30, Bustos é ainda a caricatura de uma época e de um certo tipo de intelectual provinciano, com pendor irresistível para todos os estrangeirismos, sincero fascínio pelo que quer que cheire a sofisticação e paixão pelas citações. Para construí-lo, Borges e Casares não poupam imaginação: citações de obras e autores imaginários, notas extravagantes, uma sucinta apresentação do autor feita pela ''educadora'' Adelma Badoglio, além do formidável prefácio assinado por Gervasio Montenegro, hilariante personagem dos contos que se seguem.

Paródia - Divertidíssima paródia dos romances policiais, o livro apresenta seis contos em torno de personagens que se revezam em visitas à cela de D. Isidro Parodi, um barbeiro injustamente condenado havia 14 anos, acusado da morte de um açougueiro atingido por uma garrafa de refrigerante durante um corso de Carnaval. Mal-humorado campeão do bom senso, D. Isidro atende as consultas que o pequeno grand monde portenho ou a malandragem local vem lhe fazer sobre crimes de difícil solução.

O perfil que os autores fazem de Bustos Domecq, o alter-ego que criaram, não é nada edificante. Eles o definiram em uma entrevista como ''pechincheiro, egoísta, desertor, mentiroso, fanfarrão, casanova, barato. Quando um amigo cai em desgraça ele o despreza. Quando está bem, ele se aproxima. É arrivista. Fala mal dos outros, não é exatamente um exemplo de lealdade.''

Motivadas por tramas de estrutura bastante simples, são as narrativas feitas pelas personagens, e não propriamente as situações narradas, o que garante a diversão e o interesse do leitor. Incapazes de absterem-se de detalhes tão fundamentais como a qualidade da louça em que foi servido o último jantar da vítima, obcecados em demonstrar sua superioridade, inocentarem-se ou dar brilho ao próprio discurso, os visitantes de D. Isidro perdem qualquer vaga noção de finalidade. Em sua cela, alheio às disputas mundanas, sem ter nada de seu para ganhar ou perder, D. Isidro se mantém distante o bastante para encontrar a solução óbvia. Mergulhado no discurso, o leitor pode facilmente ser tão surpreendido pela lógica simples de D. Isidro quanto as personagens.

É nessa construção do discurso que se reconhece o gênio de Borges e Casares, na capacidade de com ele recriar a realidade, reconhecendo na palavra seu principal instrumento e dela extraindo um humor, ao mesmo tempo, fácil e refinado. Não obstante, Seis problemas para Dom Isidro Parodi é também o registro irônico de uma época e de um lugar e, se resiste ao tempo e às diferenças culturais graças à universalidade da arte, não deixa de apresentar algumas dificuldades ao leitor brasileiro de hoje, como, em alguns momentos, parece ter apresentado aos tradutores. Ainda nesse sentido, mesmo que tenha sido louvável a intenção da editora de manter intocado o aspecto brincalhão da obra, a inserção de um texto introdutório que a situasse no tempo e de notas que elucidassem referências excessivamente datadas ou regionais poderia ajudar o leitor a tirar dela maior partido. Uma nova edição, ou mesmo nova tiragem, deveria também dar maior atenção à revisão.

* Maria Isabel Borja é mestre em Literatura pela PUC-RJ

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