- Voltando um pouco às perspectivas do homem. Estamos no início de um novo século e vemos o mundo dominado por um pensamento único, depois do fracasso do socialismo real, embora as esquerdas comecem a mover-se. Como é que o senhor se coloca diante disso? Afinal, dizem, o senhor é um dos três últimos comunistas da Terra. O senhor vê futuro? Entre Davos e Porto Alegre, o que o senhor escolhe?
- Porto Alegre, é claro. E senti muito não ter comparecido a esse encontro extraordinário. Mas mandei a minha mensagem, pedindo que o meu nome constasse de todas as resoluções tomadas. Como gostei de ver as fotos da fazenda invadida e Stédile a comandar o protesto indispensável! O MST é o movimento mais importante do momento, tão importante que do mundo inteiro recebe apoio. Na minha mensagem falei da Amazônia, dos aviões a voarem próximos das nossas fronteiras, do ''Colombia Plan'', que, sob o pretexto de acabar com o narcotráfico, visa recolonizar este continente. Modestamente já dei a minha colaboração, desenhando, a pedido dos guerrilheiros colombianos, o cartaz com que pretendem iniciar uma campanha internacional contra esse plano odioso. Acreditávamos num mundo sem fronteiras, mais solidário, e a palavra patriotismo se fazia esquecida. Hoje é dele que precisamos: tudo mudou. A nossa soberania está ameaçada, e defendê-la deve ser agora a nossa maior preocupação.
- O senhor acha que, do ponto de vista do governo, não há uma consciência dessas ameaças à Amazônia?
- Acredito que sim, mas é preciso criar um clima de alerta. Devemos lutar contra isso e não esperar que a coisa aconteça. Acho que é o momento de todos se unirem para defender a Amazônia e mudar um pouco este país.
- Não sei se é a sua impressão, mas esse fórum de Porto Alegre tem muitas semelhanças com os movimentos sociais no fim do século 19 e início do século 20, que ainda reuniam de tudo: anarquistas, comunistas, um monte de gente que estava buscando alguma coisa nova, uma saída...
- É claro que sim, com o agravante de que tudo piorou. A miséria cresceu e a violência também. O contraste entre pobres e ricos se aprofundou. O globalismo não tem sentido diante do que ocorre nas áreas mais pobres - nos países africanos, principalmente, as crianças morrendo aos milhares todos os dias. Não podemos ficar omissos, cuidando apenas de nossos problemas. Temos de participar, conscientes de que, quando a vida se degrada e a esperança foge do coração dos homens, só nos resta a revolução.
- O incrível é que isso aconteça num mundo onde a gente consegue se comunicar em segundos. Antigamente podia morrer a África inteira, quem morasse longe não ficava sabendo. Hoje não. Hoje vivemos na época da aldeia global mesmo.
- É verdade, mas essa facilidade de comunicação pode nos ser útil, divulgando os nossos protestos, as nossas angústias e desesperos.
- É curioso, porque o senhor é um comunista, materialista, e no entanto há uma espiritualidade muito grande no que diz. Há uma contradição? É possível ser materialista e dialético e espiritual ao mesmo tempo?
- É possível, meu amigo, mas temos que nos adaptar. A vida é rir e chorar o tempo todo. E muitas vezes é preciso sonhar um pouco. Mesmo quando sabemos como é frágil e desprotegido o ser humano.
- O ser humano, o homem individual, não a espécie humana?
- Na natureza tudo tem o seu fim - nasce, vive e desaparece. E tanto o indivíduo como a espécie humana a isso estão sujeitos.
- O senhor, em algum momento, foi parte daquela primeira partícula de matéria que explodiu, e parte dela deu no Oscar Niemeyer e, provavelmente, amanhã fará parte de uma árvore. A matéria vai se reprocessando toda. Então há transformação. Não estou falando em reencarnação, apenas do que nós somos e nos tornamos materialmente. Com sua inteligência e sua obra o senhor é uma pessoa que, num certo grau, é imortal. Porque, enquanto alguém puder olhar para um prédio seu e apreciá-lo, o senhor vai estar lá.
- E quando não houver ninguém para olhar o que eu fiz - o que faz parte das leis da natureza? Não. Para mim essa sua hipótese é otimista demais. Tudo desaparece. Você se lembra do que Lacan disse antes de morrer? ''Vou desaparecer.'' Com isso queria afirmar que para ele tudo ia acabar.
- Morre mas não desaparece. O que o senhor sente quando ouve Mozart, é como se ele estivesse se comunicando com a gente. Num livro de Victor Hugo, ele está ali falando com o seu leitor. Quer dizer, ele está morto, mas ao mesmo tempo não está.
- Mas se você pensar no tempo cósmico, ninguém vai se lembrar de Mozart e de Victor Hugo, porque a espécie humana desapareceu. E este planeta que tanto amamos, estará, como todos os outros, a viajar pelo cosmos, frio e sem vida.
- Então ao ler um livro que lhe agrade, o senhor também conversa com o autor do livro, ou não? Na maioria das vezes ele está morto.
- Isso acontece enquanto o outro não morrer também. É claro que eu compreendo essa preocupação milenar dos que teimam em não aceitar a realidade. E acreditam em Deus, por exemplo, e no reino dos céus. Até os atendo com a minha arquitetura. Na Catedral de Brasília criei grandes espaços transparentes para que eles, da nave, pudessem ver o céu, onde acreditam estar o Senhor os esperando. Ah, os crentes são mais felizes! Como eu gostaria de pensar como eles!
- Aliás, o senhor desenha igrejas bonitas!
- Para mim, quando a arquitetura não é bonita nem cria surpresa, ela não assume as características de uma verdadeira obra de arte. E, nesse sentido, o desenho é fundamental para o arquiteto, o desenho figurativo inclusive, que ultimamente vai sendo substituído nas escolas pela técnica e pelo computador. Até a intuição muitas vezes é desmerecida. Com oito ou dez anos, uma criança de talento faz desenhos fantásticos, que o ensino mal dirigido e o conhecimento dos clássicos vulgariza para sempre.
- Isso não é um pouco a busca do Picasso? Dizer que queria ter a liberdade de pintar como criança. Uma curiosidade que não tem nada a ver. Em que momento da sua vida o senhor fez sua opção pela esquerda?
- Foi quando senti que a miséria era imensa e contra isso deveria lutar.
- Houve um episódio quando o senhor morava em... onde era isso?
- Eu morava em Laranjeiras, na Rua Passos Manuel, que depois tomou o nome do meu avô Ribeiro de Almeida. Família de fazendeiros, vindos de Maricá, no Estado do Rio, católica, cheia de preconceitos. Até missa em casa havia, com a presença dos moradores. Mas, quando saí para a vida e senti a miséria que nos cerca, tudo mudou.
- E isso foi quando?
- Eu tinha 18 anos e já contribuía para o Socorro Vermelho. Mas foi só em 1945 que me filiei ao Partido. Lembro que os comunistas acabavam de sair da prisão e que, a pedido de um amigo, acolhi 15 ou 20 deles no meu escritório. Foi aí que conheci Prestes, a quem semanas depois entregava o meu escritório, dizendo-lhe: ''Fica com esta casa. Seu trabalho é mais importante que o meu.'' E o meu escritório se transformou no Comitê Metropolitano do PCB. E daí em diante, passei a participar da luta partidária. Primeiro, na célula da Gávea, e depois, na do Comitê Central, na Glória. Lembro-me desse longo período. Foi no PCB que encontrei as pessoas simples e mais dignas que conheci.