Domingo, 18 de Março de 2001
Mais que usuário, produtor

- Não se fazem estudos de recepção das tecnologias nas escolas?

- Ou se faz isso utilizando-se questionários superficiais, ou não se faz. E já há material para estudar isso. Um exemplo é o programa Salto para o Futuro (levado ao ar pela TV Educativa), que já se realiza há anos. Os professores que assistem mandam cartas, que devem estar acumuladas, mas que não são utilizadas para pesquisa. O TV Escola, do Ministério da Educação, com certeza, também está recebendo cartas dos professores. Onde estão essas cartas? Elas são ouro puro. É preciso trabalhar com essas coisas. Seria importante que grupos de pesquisas fossem chamados para estar no cotidiano das salas. Esse acompanhamento não pode ser quantitativo. Isso até existe, uma vez que os programas vêm acompanhados de questionários avaliativos. Mas eles não dizem tudo. Só mesmo estando presente lá, para, por exemplo, flagrar uma reação de tédio ou de entusiasmo, durante a exibição do programa, e começar a entender como o conhecimento vai sendo tecido naquele grupo.

- Seria inviável, afinal, projetos como o TV Escola, com programas únicos para uma gama enorme de receptores, de diversas realidades?

- É preciso ter-se a certeza de que o professor não aceita nada de cabeça baixa, passivamente. Cada um vai ter uma interferência individual, diferenciada para o que recebe, de acordo com suas redes anteriores de conhecimento. Não se trata de dizer que este conhecimento é bom ou ruim, mas que esse conhecimento formou esta ou aquela relação com as pessoas que assistiram.

- E o que se faria com essas informações?

- Uma coisa muito importante é, compreendendo e aceitando a existência dessa diversidade na recepção, fazer dos professores produtores também, para que se tornem bons usuários.

- Como se faz isso?

- Hoje, oferece-se à escola a televisão, o vídeo pronto, mas não se dá aos professores uma máquina de fazer vídeos. É preciso fazer o professor se descobrir capaz de criar um vídeo. A TV Pinel, por exemplo, tem feito isso. Torna pessoas produtoras de conhecimento. O professor não pode se restringir a olhar o que outros produziram. Ele e também os alunos têm histórias para contar. A produção local capta da realidade aspectos que grandes produções não captariam. Quando você domina a tecnologia, tem condições de melhor compreender aquela linguagem, aquela formulação.

- A televisão e o computador são ou não indispensáveis, afinal?

- Indispensável é o ar, a comida. Independentemente de ter ou não papel importante, o acesso às tecnologias é um direito, do professor e do aluno. Quando se constata, como o censo de 1990 constatou, que há mais televisões do que geladeiras nas residências, é claro que ela é um meio importante. O complicado é achar que, por determinados programas, se fará a educação. O que se vê na televisão tem papel educativo, mas nem sempre determinante.

- E o computador?

- A análise é a mesma que se faz para a televisão. Não se podem trabalhar propostas para o computador na escola, se não se fizer um trabalho de compreender como a percepção desta mídia se dá nos diferentes grupos, nas diferentes faixas etárias etc. O computador, embora seja produto extremamente individualizado no uso (diferente da televisão em torno da qual arma-se um esquema familiar, que exige decisões coletivas a respeito de quem vai assistir a o que e quando), ele já surge trazendo com ele uma rede, a internet. Uma série de pessoas têm trabalhado com as correspondências que se dão dentro da internet, que permitem acompanhar percepções, valores que vão surgindo. As escolas que têm salas de computadores, laboratórios de informática precisam criar formas de verificar como se dão as trocas entre os alunos, entre os professores, entre professores e alunos, como se dá essa recepção.

- Como as diferentes mídias, a televisão, o computador, o jornal, podem se relacionar?

- As pessoas devem poder, primeiro, poder ter acesso a tudo isso, conhecer tudo isso. Essas coisas todas precisam estar na escola, de maneira rica, variada, sem que se entenda o outro como mero receptor, mas como usuário. O professor não é escravo dos diferentes meios. Ele encontra a melhor forma de trabalhar, com o que está disponível. É preciso jogar na escola essa variedade de coisas e perceber como esses múltiplos meios estão sendo recebidos e de que forma interferem na construção do conhecimento.

- Como avaliar isso?

- Saber como um programa de televisão foi utilizado por um professor e por outro exige pesquisa qualitativa. Não se vão ter informações sobre o processo de criação do conhecimento nessas relações, com a tecnologia por dados quantitativos.

- E dentro da escola, como seus integrantes podem se organizar para que se criem espaços para essas trocas, para que cada um exponha as suas diferenças e para que, assim, se crie um ambiente de diversidade em vez de um ambiente homogêneo, padronizada?

- Vou dar um exemplo. Fiz um trabalho com alunos da Faculdade de Pedagogia da UFF, onde trabalhei muitos anos, no campus de Angra dos Reis sobre imagem. Um dos alunos foi às escolas para ver como cada uma trabalhava vídeo e televisão e constatou que havia uma série de produtos. Registro em vídeo de comemorações escolares, uso da câmera para fazer uma espécie de jornal da escola, uma quantidade enorme de trabalhos que levavam à apropriação dessa tecnologia pela escolas. Existem professores que começam a dar espaço para que um aluno possa, por exemplo, trazer o vídeo que um parente gravou de sua festa de aniversário. O professor começa, com seus alunos, a ser produtor e a entender que, dentro desses vídeos que produzem, há conhecimento. Se um grupo de crianças cria uma câmera com materiais diversos, como plástico, barbante, uma delas fica sendo o camera-man, a outra, o diretor de cena, isso é produção de conhecimento. As brincadeiras de médico, de casinha, são arranjos dos conhecimentos que as crianças vão construindo. E o professor, para produzir com os alunos, ele precisa se apropriar da tecnologia.

- Fazer leva a apropriar-se e pode tornar professores e alunos melhores usuários da tecnologia...

- Estamos fazendo um projeto com a prefeitura de Paracambi que inclui a criação de uma homepage sobre a educação local, produzido por professores, a partir de material recebido das escolas. Vão aparecer desenhos das crianças, fotografias dos patronos. Seria muito mais fácil para nós, com tanta gente boa em nosso grupo, produzir uma homepage para eles. Mas não é isso que deve ser feito. É preciso potencializar o professor em vez de pensar, aqui de fora, coisas fantásticas para ele. É preciso que nós nos submetamos a compreender o que eles são, como são, de que maneira pensam e agem, o que já estão fazendo. Isso é que vai dar força ao que já está na escola.

História do professor interfere no uso que faz da tecnologia

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