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Cabrochas e pastoras do samba
Mulheres dividem o poder com os homens nas famosas rodas da cidade
Analéa Rego Especial para o JB
Às vezes, razão de viver, amor eterno, dona do barraco e do coração. Outras vezes, cruel, leviana e ingrata. E para a posteridade, o samba registra ainda aquelas que partiram, que nunca serão esquecidas e vários outros tipos de cabrochas e pastoras. No Rio, esta ala é repleta de verdadeiras rainhas de bateria que, mesmo jamais tendo desfilado na avenida com (ou sem) biquíni de lantejoulas, contribuem para que a mais inclusiva manifestação da nossa cultura vá bem, obrigado. Nunca a presença feminina nas rodas de samba da cidade foi tão grande, tão rica.
Contamos com uma exuberante roda de cabrochas compositoras, intérpretes, passistas, promotoras, empresárias e fãs do samba. Repleta de estrelas, dela participam as prodigiosas Vó Maria e Nilze Carvalho. Viúva de Donga, Vó Maria, em 2003, aos 92 anos, lançou o seu primeiro CD. Já Nilze - que acaba de lançar o seu 12º disco -, aos 11 anos, em 1981, acompanhada do Conjunto Época de Ouro, registrou em vinil as notas do seu cavaquinho. Nesta mesma ala brilham mulheres que, sem contar com qualquer patrocínio oficial, generosamente promovem, em espaços públicos, eventos gratuitos como o Choro na Feira, em Laranjeiras, e o Fabuloso Grupo Eu Canto Samba, na Praça Mauá.
Cavaquinista e violonista profissional desde 1975, Ignez Perdigão, que também se garante na flauta e na clarineta, é moradora de Laranjeiras e articuladora do Choro na Feira. Ela explica que a iniciativa é um incentivo à convivência dos moradores do bairro. É também um espaço onde os músicos podem interagir diretamente com o público sem a intermediação de um palco ou um empresário, como explica Ignez. O grupo, que também conta com a cabrocha Clarice Magalhães no pandeiro, existe desde 1991 e agrega a cada sábado, bem mais que a vizinhança. Com o reforço de instrumentistas profissionais e amadores, o samba e o choro recebem os aplausos de consumidores de hortaliças e cervejas, que também colaboram no chapéu passado para cobrir as despesas.
Do outro lado da cidade, no Largo da Prainha, Cláudia Baldarelli e Eliane Costa são as vozes do Fabuloso Grupo Eu Canto Samba, que se reúne todo mês. É um lugar marcado pelo ritmo. Ao lado da Pedra do Sal, nas proximidades do saudoso quintal da Tia Ciata, Donga, João da Baiana e Pixinguinha se abrigavam para sambar escondidos da polícia, no início do século passado. O Fabuloso é formado por um grupo de 60 amigos fiéis e banca as despesas das apresentações, que não raro contam com a participação de convidados ilustres. No mês passado, por exemplo, a canja foi de Moacyr Luz e Aldir Blanc - que emocionou todos, inclusive ele mesmo, ao interpretar O bêbado e o equilibrista. Todo mês, o Fabuloso é saudado no porto com doações de alimentos para a creche do Morro da Providência.
As cabrochas do Fabuloso zelam pela manutenção e pelo fortalecimento do legado coreográfico do samba. Convocadas pelo grupo musical, não medem esforços quando interpretam o Mas quem disse que eu te esqueço, de Dona Ivone Lara e Hermínio Bello de Carvalho. Nesta hora as mãos se levantam, escondem os olhos, reviram pelo avesso, simulam um enfiar a faca no peito, e, quando o verso pergunta ''quem disse que eu mereço'', pousam escrachadamente na cintura.
O Largo da Prainha não seria o mesmo sem as cabrochas, diz Eliane, gerente de patrocínio da Petrobras, articuladora do Fabuloso. - Somos músicos amadores que, sem infra-estrutura, tocam na rua representando uma fábula, a qual as cabrochas se incorporam dispostas a contribuir com o espetáculo - conta ela, também cavaquinista do grupo. O Fabuloso, que já completou 13 anos, promove o bloco Escravos da Mauá.
Na Lapa e adjacências, todas as casas de samba são supervisionadas por mulheres. Hoje, os balangandãs femininos movimentam parte significativa dos negócios de samba na indústria cultural do Rio e, na agenda do Teatro Rival, o gênero passou a ser atração fixa.
A presença das mulheres pode ser observada no Trapiche da Gamboa, a mais nova e talvez a mais feminina casa de samba da cidade. Há oito meses ocupa um sobrado de 1867 da Rua Sacadura Cabral, cuja reforma revelou lindos azulejos. A casa é comandada por Cláudia Alves com a assessoria de Andréa dos Prazeres - cabrochas que no 15º aniversário do Simpatia é Quase Amor apresentaram, com mais nove parceiras, um samba que homenageava Chiquinha Gonzaga, Clementina de Jesus, Clara Nunes e Leila Diniz. Dizem as más línguas que o samba não foi eleito para representar a agremiação porque os rapazes do bloco não demonstraram disposição para cantar o refrão ''vem meu nego, ser feliz''. Nas sextas-feiras, o Trapiche mantém a postos um microfone só para aquelas que cantam ''uma oitava acima'' das cabrochas. Lá é possível ouvir, eventualmente, a canja da Dorina, que, na Rádio Nacional, comanda de segunda a sexta-feira, das 12h30 às 14h30, um programa com sambistas. O auditório do Dorina.com é aberto ao público toda quinta-feira. No Trapiche, ela, que se prepara para comemorar os 10 anos de carreira com o seu quinto CD e ainda se dedica a montar uma biblioteca pública em Irajá, é capaz de participar do microfone das pastoras junto com suas fãs, entre elas a urbanista Ângela Azevedo, que já empunhou a bandeira do Bloco de Segunda, do Nem Muda Nem Sai de Cima e do rancho Flor do Sereno, do Bip Bip - um celeiro de sambistas em plena Copacabana. Ângela faz parte de um grupo de mulheres que brilha no Carnaval de rua do Rio, entre elas, as presidentes de blocos Ângela Nogueira, do Clube do Samba; Rita Fernandes, do Imprensa Que Eu Gamo; Ieda Dantas, do Gigantes da Lira; e Evelin Süssekind, do Bloco de Segunda.
Entre as empreendedoras do samba, destacam-se ainda as especialistas na arte de receber convidados ilustres e público seleto. Hilda Basto, casada com Ilton Mendes, administra há 15 anos o Candongueiro, em Pendotiba, Niterói. A casa de samba do casal é considerada por muitos a melhor. Sua habilidade é admirada desde que o empreendimento nada mais era que um encontro de sambistas no seu quintal. Jilçaria Costa, conhecida como Tia Doca, é decana em rodas de samba. Inaugurou o seu pagode em Oswaldo Cruz há 30 anos, ao se ver obrigada a criar sozinha cinco filhos. Todo domingo, a partir das 16h, recebe a fina flor do samba debaixo das amendoeiras do número 219 da Rua João Vicente. A cabrocha trabalhadeira já tem uma filial. Há dois anos, o Pagode da Tia Doca acontece também todas as sextas-feiras no Bola Preta, na Cinelândia.
Como tia Doca, o Rio conta ainda com uma outra tia notável, também da Velha Guarda da Portela. Iranette Barcellos, a Tia Surica é uma enciclopédia do mundo do samba. Ela já emprestou sua voz ao coro de muita gente boa e há um ano gravou o seu primeiro CD. É também famosa por seus dotes culinários. Suas receitas estão disponíveis no livro Batuque na Cozinha, do jornalista Alexandre Medeiros. Surica comanda pessoalmente a confecção da tradicional feijoada da família portelense, servida em festa todo primeiro sábado do mês, na quadra da escola de samba.
O cabrochismo multidisciplinar é realmente muito comum no Rio. Beth Carvalho é especialista em resgatar e revelar músicos e compositores. Nos seus 40 anos de carreira, prospectou talentos como Zeca Pagodinho, Luís Carlos da Vila, Bezerra da Silva e Arlindo Cruz. Majestosa, dá canja nas rodas de samba da cidade e adora Carnaval, tendo sido, durante anos, a atração do bloco Concentra Mas Não Sai. Luciane Menezes, voz e cavaquinho do Dobrando a Esquina, que também participa do conjunto Pau da Braúna, há 20 anos pesquisa ritmos brasileiros. Há um ano, ela comanda a Cia. Brasil Mestiço, que agrega mais de 40 dançarinos e músicos, vários de comunidades carentes, que se dedicam a registrar e difundir a diversidade musical do país. A Cia. é uma ONG e tem até selo fonográfico.
E o movimento não pára por aí. O Roda, conjunto de samba exclusivamente feminino, vai comemorar o seu 10º aniversário com um CD que vai inaugurar o seu próprio selo. Será o segundo CD do grupo, que reúne Ana Costa (voz e violão), Bianca Calcagni (voz e percussão) e Dedé Alves (pandeiro). A jornalista Zilmar Basílio, passista de primeira, comanda um projeto itinerante onde sambistas cantam e contam histórias. A Tendinha da Zilmar estará em agosto, às segundas-feiras, no quintal de Mariazinha, em Pendotiba.
Nesta cidade, onde até os fãs têm um samba no repertório, injustiças são cometidas quando se listam as ''nossas'' sambistas que já gravaram o seu nome na História. Incorrendo neste pecado, ampliamos o nosso rol com Dona Ivone Lara, Elza Soares, Alcione, Leny Andrade, Teresa Cristina, Dóris Monteiro, Ângela Maria, Emilinha, Marlene, Cristina Buarque, Leci Brandão, Alaíde Costa, Nora Nei, Carmen Costa, Claudette Soares, Helena de Lima, Elen de Lima, Nana Caymmi, Joyce, Wanda Sá, Leila Pinheiro, Luciana Rabello, Miúcha, Marisa Monte, Olívia Byinton, Daniela Spielmann, Simone Lial, Mart'nália, Mariana Bernardes, Eliane Farias, Iracema Monteiro, Elaine Machado, Tânia Machado, Áurea Martins, Luíza Dionísio, Mariana Baltar, Tânia Malheiros, Cláudia Nunes e Tia Elza. E imploramos perdão pelas faltas cometidas evocando a arte de Chiquinha Gonzaga, Clementina de Jesus, Aracy de Almeida, Dolores Duran, Clara Nunes, Carmen Miranda, Elis Regina, Jovelina Pérola Negra, Nara Leão, Rosinha de Valença, Elizeth Cardoso, Silvinha Teles, Dona Neuma, Dona Zica, Tia Eulália, Isaura Garcia, Linda e Dircinha Batista. Correndo o risco ainda de nunca sermos perdoados.
[31/JUL/2005]
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