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Lição de bamba

O bom e velho Bip Bip faz escola e vira referência para jovens músicos da Zona Sul

Rafael Sento Sé

Eram quase 22h de domingo quando o sambista Camunguelo, 58 anos, levantou da mesa da roda de samba do Bip Bip para tomar um ar do lado de fora do pequeno bar na Rua Almirante Gonçalves, em Copacabana. Foi imediatamente assediado por um turista japonês, que arranhava um português, e depois pelo estudante de Biologia Pedro Matriz, 21, que toca cavaquinho. O repertório caprichado da roda e o sambista afinado surpreenderam Pedro, pouco habituado ao lugar que, nos últimos anos, se tornou um celeiro de novos talentos do samba. 7

Pelo entusiasmo com que Pedro cumprimentava o veterano Camunguelo e seus 42 anos de samba, ele baterá ponto ali aos domingos. Assim como já fazem outros jovens, em sua maioria universitários da Zona Sul, que transformaram o bar numa escola.

Ali, por exemplo, aconteceram as primeiras apresentações do grupo Dobrando a esquina e do Rancho carnavalesco flor do sereno que, comandado pelo maestro Pedro Aragão, tenta resgatar a tradição dos antigos carnavais. Nos desfiles, do Posto 6 ao Hotel Debret, muita marchinha e choros.

Também saiu do bar a dupla Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta, que, no ano passado, lançou o elogiadíssimo álbum Dois bicudos, pelo selo Quelé, da Biscoito Fino e Acari Records. Com produção musical de Maurício Carrilho, o disco traz músicas inéditas de Cartola, Geraldo Pereira e Nelson Cavaquinho e resgata um formato de cantar consagrado por Mário Reis e Francisco Alves. Os dois trazem de volta pérolas do acervo de Cristina Buarque de Hollanda e contaram com a ajuda do pesquisador Paulo César de Andrade.

- A Cristina tem muitas raridades. As gravações do Nelson Cavaquinho, por exemplo, foram feitas na casa de um desconhecido. Tem ele cantando e, de repente, o telefone toca, o cachorro late - conta Pedro Paulo.

O Bip, apelido carinhoso do bar, é uma escola bem diferente. No lugar de carteiras, cinco mesas de ferro forradas com toalha estampada compõem a sala de aula. Na parede, nada de quadro-negro. As lições são passadas oralmente. Um veterano dá o tom e os pupilos que se virem para acompanhar. Não é cobrada presença, mas os alunos são aplicados.

- Há um ano venho aqui todos os domingos e às vezes em alguns dias de semana também - conta a pandeirista e estudante de Letras Manuela Trindade, 20 anos, que também toca no grupo Seis na linha e um no gol.

Manuela descobriu o lugar através de Paulinho do Cavaco, professor na roda de samba e na sala de aula. Ele ensina português no colégio Ceat, em Santa Teresa, e já virou rotina encontrar alunos e ex-alunos no Bip. Motivo de orgulho para o professor pois, segundo ele, a presença dos jovens significa a continuidade e a sobrevivência do samba. A cantora e pesquisadora musical Cristina Buarque de Hollanda, que foi figura fundamental para os encontros musicais, completa:

- O início foi com o grupo Dobrando a esquina. Depois ficou essa tradição. Hoje tem uma turma que começou bem nova e já é profissional.

Além de Manuela, Roberto Júnior, 21, e Henrique Lazzaroto, o Kiko, 24, dedilham o cavaquinho; e Fernando Falcão, 28, no vocal, não deixa a peteca cair. Eles dividem a mesa com veteranos que só de carreira têm mais tempo do que os jovens de idade. Essa convivência é um grande atrativo para a juventude.

- O Bip é muito doido. Uma vez o Nelson Sargento chegou no bar lá pelas dez e sentou na minha frente. Dali a pouco ele começou a cantar e eu tive que acompanhar - lembra Júnior, que também freqüenta a roda do Guanabara.

Estudante de Educação Física, ele tem a música como um hobby e o Bip como uma escola.

- Por não ser um lugar de músicos fixos, a cada domingo surge um repertório diferente - explica.

São comuns, por exemplo, músicas definidas por Cristina como ''novidades antigas'', que fogem da mesmice das rádios e mesmo de alguns lugares da Lapa, onde as casas de samba geralmente preferem músicas mais animadas e conhecidas do público.

Desacostumado com os hábitos peculiares da casa, o pandeirista e tocador de tantã Natalício Silva, o Natan, 23, também foi chamado a atenção pelo barulho, pois nas primeiras participações tocava o pandeiro muito alto. Como nada é amplificado - nem mesmo o violão - acabava atrapalhando. Mas o jovem logo se adaptou e hoje até canta algumas músicas. Uma recompensa para quem encara duas horas de viagem e três ônibus, de Itaboraí para o Bip Bip.

- Cheguei aqui e senti uma energia positiva - diz Natan.

Os pupilos não recebem notas, a grande prova é acompanhar gente como Henrique Cazes, Maurício Carrilho, Elton Medeiros, Cristina Buarque de Hollanda, entre outros. Uma vez na roda, conta a pandeirista Manuela, tem que se virar.

Eles também não têm aplausos como recompensa. No Bip Bip, as palmas são proibidas em nome da boa vizinhança - norma baixada pelo folclórico Alfredinho, dono do bar, e respeitada pelos clientes mais antigos. Um casal italiano, desavisado, aplaudiu efusivamente um solo de flauta de Camunguelo. Os dois foram delicadamente repreendidos, mas entenderam e não ficaram ofendidos.

Morador de Copacabana e músico formado pela Escola Villas Lobo, Fernando Falcão conta que seus grandes mestres estão no bar. E os amigos também. A maioria, diverte-se, está acima de 40 anos.

- Geralmente diz-se que o bar é a extensão da casa. No meu caso é o contrário: minha casa é a extensão do bar - brinca.

Dali também nascem parcerias entre jovens e veteranos. O gaúcho Sandro Dornelles, 30, por exemplo, começou a freqüentar o bar com 25, quando veio para o Rio tentar viver de música. Conheceu Moacyr Luz, com quem já compôs algumas músicas em parceria. Bar fundamental para a carreira e para fazer amizades. Foi também no Bib Bip que ele conheceu a atual namorada e grande parte dos amigos cariocas.

Apesar de os músicos se apresentarem de graça - mais um mistério do bar - não é difícil encontrar por lá profissionais como Élton Medeiros ou Moacyr Luz. Dos grandes, conta o anfitrião Alfredinho, os únicos que ainda não apareceram foram Zeca Pagodinho e Nei Lopes.

As aulas também acontecem na terça-feira, dia de chorinho, quando podem passar por lá músicos como Paulão 7 Cordas, diretor musical de Zeca Pagodinho, e Arismar do Espírito Santo, considerado por Hermeto Pascoal um dos melhores baixistas do mundo. Novos talentos, como o cavaquinista canhoto Abel Luiz, 22, e o violonista de sete cordas Cristiano Nascimento, 27, também dão as caras nessa roda onde só se arrisca quem sabe.

- Fiz até o 6º período de publicidade. Preferi ser um músico feliz e pobre do que um publicitário medíocre - conta Abel, que deixa muito veterano de boca aberta.


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[06/MAR/2005]


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