Quando termina de ler um livro, o jornalista Carlos Andreazza, 24 anos, agradece a viagem ao centro da literatura e dá um beijo na publicação. O afago faz parte do ritual que acontece invariavelmente na mesma poltrona, iluminada por um filete de abajur e levemente reclinada, por onde já passou boa parte dos 2 mil títulos que pertencem à sua coleção. Metódico, ele não permite que ninguém toque nos livros, muito menos nos especializados em samba, futebol e poesia erótica, como a tiragem limitada de um Bocage do século passado, abocanhada em um sebo. Também não leva uma brochura sequer para a praia, com a justificativa de que ''areia tem vida''. E é capaz de passar três horas divagando sobre a mania, como fez para esta reportagem:
- A paixão por qualquer coisa faz a gente enlouquecer. Passo por arrogante quando falo de livros, porque fico transtornado, mudo completamente. Mas não sou nenhum intelectual. Corro na praia, vou ao Maracanã e jogo futebol como todo cara da minha idade.
Carlos tem o perfil dos novos - e cada vez mais jovens - bibliófilos. Avessos à sisudez comum à espécie, eles não se encastelam; compram livros para ler, e não para somar; encaram a atividade como um hobby; e levam uma vida absolutamente normal. Ainda estão longe de ícones da bibliofilia, como José Mindlin e Antônio Carlos Secchin, mas têm sido responsáveis pela evasão de muitos títulos raros dos sebos e livrarias. Para conservadores de plantão a notícia pode soar assustadora, mas o bibliófilo e editor José Mario Pereira, 45 anos, aprova a mudança de hábito.
- Os livros têm de estar bem guardados com quem gosta deles. O achado cultural do país não pode ficar para sempre nas mãos dos mais velhos, não é? Mindlin começou jovem, e eu também - conta o dono de pelos menos 15 mil obras, incluindo primeiras edições autografadas de Clarice Lispector, Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade.
Os amigos Júlio Silveira e Martha Ribas, ambos de 32 anos, começaram bem cedo. A dupla compartilha o gosto pela literatura desde o primário. Há oito anos a brincadeira virou ofício quando montaram a editora Casa da Palavra. O carro-chefe são livros sobre livros, os prediletos de Martha. Em seu apartamento, a coleção, também repleta de publicações sobre o Rio, ocupa quatro estantes. Se hoje ela pode folheá-los à vontade, quando pequena não era assim.
- O cuidado para ler os livros do papai era tanto que eu mal podia abri-los direito! Livro é para folhear. A gente tem que acabar com essa frescura - observa.
Júlio também não põe as obras no altar, mas é devoto de livros sobre a vida dos santos. Raridades também preenchem a coleção de 2 mil títulos, como uma primeira edição pirata alemã de Ulisses, de James Joyce, garimpada num sebo do Catete. Outra paixão são os ideogramas chineses.
- Cheguei a ter um dicionário de chinês do século 19, mas perdi. Agora que estou estudando mandarim, ele seria muito útil - lamenta.
O jornalista Thiago Costa, de 26 anos, neto do poeta Odylo Costa, filho, também navega por idiomas exóticos. O da vez é o cirílico, do qual deriva o russo. Mas publicações de diversas línguas e gêneros já foram devoradas por ele e ocupam quase todo o seu quarto, obrigando-o a se amarrotar num colchão entre as estantes para dormir. Nenhum sacrifício, garante Thiago. Assim como não doeu pagar pelo excesso de bagagem provocado pelos 55 quilos de papel trazidos de Londres. Ou, ainda, aturar as gozações quando vendia biscoitos na escola.
- Quando tinha uns 10 anos aprendi a fazer cookies num caderno de culinária para bancar a leitura. Achavam esquisito, mas sempre compravam - diverte-se.
Vale tudo para estar perto dos livros. Até mesmo vir do interior de São Paulo para disputar por aqui uma vaga no mercado livreiro. O sociólogo Bernardo Curvelano, 25 anos, fez a viagem, mas não sabia que ao chegar aqui teria de disputá-la com o roteirista Henry Grazinoli, da mesma idade. Arena da competição, a livraria Berinjela acabou abrindo mais uma vaga; eles viraram melhores amigos; e à dupla se juntaram o cliente e médico Estênio Machado, 26 anos, e o bibliógrafo Zilo Tosta, 68, que indica os livros para a turma.
- Se não fosse Zilo, não conseguiríamos montar cada um a sua minibiblioteca. Tenho livros insubstituíveis que ele me deu. A gente brinca que ele faz parte do contrato da loja - conta o precoce Bernardo, que começou a ler aos 4 anos.
O mestre-dos-livros dilatou o interesse do grupo, mas o aprendiz Henry já havia iniciado sua coleção aos 15 anos, quando fez uma descoberta poética essencial:
- Vi que a poesia era capaz de conquistar mulheres. Desde então não parei mais de comprar livros. Imagino o paraíso como uma grande biblioteca - diz, citando o argentino Jorge Luis Borges.