O chargista Ique dá forma ao corneteiro Luís Lopes, pitoresco personagem da história nacional
Amovimentada esquina das ruas Visconde de Pirajá e Garcia d'Ávila, em Ipanema, tem um novo morador desde o início do mês. O corneteiro do Exército Luís Lopes, esculpido em bronze pelo chargista Ique, já começa a se tornar uma feição familiar a quem circula pelo bairro carioca. Esse herói esquecido pela história ganhou rosto e expressão em uma antiga fundição do subúrbio do Rio, em Vicente de Carvalho. Entre paredes marcadas pelo tempo, pedaços de aço jogados pelo chão e sob o calor de escaldante dos fornos à lenha, o criador da obra montou o seu segundo lar. Antes de chegar à matéria - argila, cera e bronze - que deu forma ao mais novo personagem das ruas do Rio, o trabalho envolveu pesquisa, suor e inspiração. E, principalmente, imaginação para dar um rosto ao corneteiro português.
Para Ique, sua criatura deveria ter um jeito meio bonachão. Afinal, foi o pivô de uma grande trapalhada na Batalha dos Pirajás, em 1822. Ao receber ordens para soar, na corneta, o toque de retirada, sabe- se lá por que emitiu o som de ataque. A tro- pa brasileira avançou, assustando o exérci- to luso, que bateu em retirada. O corneteiro acabou sendo, sem querer, uma espécie de general do embate vencido na Bahia.
Ique, 42 anos, não tinha sequer um registro do rosto de Luís Lopes e mal sabia do episódio quando o prefeito Cesar Maia encomendou a escultura.
- Ele pediu que eu desse forma a uma história. Era como uma charge, mas sem qualquer referência - explica o artista.
Para criar as feições do personagem, valeu a experiência do chargista.
- Fiz uma mistura de fotos, peguei imagens de portugueses do século 19, mas as pessoas vêem semelhanças comigo mesmo, como o nariz ou as mãos - diverte-se o criador.
A estátua de 1,70 metro - Ique imaginou um homem de 1,90 de altura, e o fez com os joelhos dobrados soando a corneta - hoje está numa esquina que homenageia dois outros personagens da história da Independência do Brasil: Visconde de Pirajá e Garcia d'Ávila. Sua existência começou com um estudo de 35 centímetros. O passo seguinte foi um molde de argila refratária, recheado primeiro com cera e depois com bronze incandescente. A argila foi removida a marretadas e a peça, montada em partes.
Aquele ar envelhecido que o Corneteiro de Pirajá ostenta diante dos passantes é o resultado do processo de oxidação que recebeu na fundição.
Algo não tão fácil, mesmo para o artista, que já realiza esculturas em argila há 20 anos e, há dois, começou a explorar o bronze. A experiência exaustiva a cada vez que chegava para mais uma jornada em Vicente de Carvalho fez Ique pensar que estava vivendo nos idos tempos heróicos de seu personagem. O processo de trabalho nesse tipo de fundição é mais antigo do que a história do corneteiro. E o espaço físico do galpão suburbano reforça a atmosfera de um passado distante.
Mesmo com a missão cumprida, Ique continua ligado ao corneteiro. Quase todos os dias passa na esquina de Ipanema para lamber sua cria. E se refere a ele como se fosse um filho, de quem cuida com carinho e zelo:
- Outro dia tinha uma coroa de flores na cabeça dele. Tive o impulso de tirar, mas se eu fizer isso toda vez que colocarem alguma coisa, vou ficar doido. Melhor passar lá de noite, assim ninguém me vê.
Além do corneteiro em tamanho real, Ique preparou dez estudos em bronze que serão doados à prefeitura, para que alunos da rede municipal possam ver e conhecer o homem que, sem querer, pode ter mudado a história do país.
- É uma justa homenagem - festeja.