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Duas datas de aniversário. Já foi dito que o carioca não dispensa festa e feriado. Pode ser. Dia 20 de janeiro a cidade homenageia o padroeiro São Sebastião. Em 1º de março celebra a fundação.
2 Biscoito Globo. Sem marketing, os biscoitos, nas versões sal e doce, são devorados há 45 anos. Difícil encontrar quem nunca tenha comido a massa crocante, que gruda nos dentes, com gosto peculiar. A mistura de polvilho azedo, leite, ovos, açúcar, sal e gordura hidrogenada foi, para muitos, em algum momento da vida, a melhor pedida.
3 Vamos combinar? Me liga! Só no Rio uma pessoa combina de ir a mais de três lugares ao mesmo tempo. Ninguém vai e ninguém acha ruim. Sem falar no “me liga qualquer dia” e no “passa lá em casa”.
4 A floresta no meio do caminho. Logo ali, na Tijuca, fica a maior floresta urbana do mundo. De repente o barulho das buzinas desaparece e pode-se caminhar, fazer piquenique, refrescar nas cachoeiras.
5 Final de Copa do Mundo. Não é bem um orgulho, já que em 1950 o Brasil perdeu o caneco para o Uruguai num Maracanã repleto. Mas não deixa de ser um marco charmoso na história do país.
6 O molde das mulheres. Podem chamar de Certinhas do Lalau, vedetes do Cassino da Urca, mulatas do Sargentelli, chacretes ou Garotas de Ipanema. O Rio tem tradição em mulher bonita.
7 Mate gelado em galão. Na era dos industrializados, o carioca não dispensa a forma antiga de beber mate, armazenado em galões de alumínio. Talvez seja pelo chorinho depois dos dois primeiros goles.
8 Artigo definido. O Rio é a única capital do país precedida pelo artigo definido. Recife pleiteia o seu, mas muitos se referem à capital pernambucana sem o artigo.
9 Livrarias. Existem em muitas cidades, mas em nenhuma são tão especiais. Na insônia, pode-se comprar lançamentos na Argumento ou na Letras & Expressões, no Leblon. Tomar um cappuccino na Travessa, no Centro, virou moda. Estas e outras oferecem também CDs e bochincho.
10 O novo choro. Tem menos de cinco anos e nasceu em bares da Lapa. Pelas mãos de uma geração na casa dos 20 e poucos, o Rio renova um estilo criado no fim do século 19.
11 O mau humor no Bar Lagoa. A salada de batata com maionese caseira e o chope são, de fato, deliciosos. Mas em qualquer outro lugar do mundo seria pouco para justificar a casa lotada de clientes atendidos por garçons mal-humorados. O lugar virou até case de especialistas em varejo.
12 Ostra na feira por R$ 2. Na Feira da Glória, aos domingos, pode-se comer ostras frescas por R$ 2.
13 Mangas e Mangueira. A fruta foi trazida da África pelos navegantes portugueses, no século XVI, para ser plantada no Rio. Daqui foi para o resto do país e Américas. Quanto à Mangueira... Ah, a Mangueira!
14 A fome da madrugada. As lojas de suco das esquinas existiam bem antes do culto ao corpo. Só a prateleira, com frutas frescas, é irresistível. Pode-se misturar tudo, mas há clássicos como abacaxi com hortelã e acerola com laranja. Muitas funcionam de madrugada. O Cervantes, com o tradicional sanduíche de pernil com abacaxi, mata a fome dos boêmios. Sem falar nos cachorros-quentes dos postos de gasolina ou das barraquinhas de rua.
15 O aeroporto e a Baía. Normalmente, aeroportos são isolados. O Santos Dumont, além de coladinho ao Centro, fica quase dentro da Baía de Guanabara.
16 Sinatra no Maracanã. Mais de 140 mil reuniram-se para ouvir Frank Sinatra, mas chovia sem parar e havia risco de o show ser cancelado. Na hora H tudo deu certo. “Foi o maior momento de minha vida profissional”, disse Sinatra, do palco no gramado. “Deus foi bom. Parou de chover”, comentou.
17 O coração da Lagoa. De um ângulo pouco conhecido, a Lagoa Rodrigo de Freitas tem forma de coração, como registrou Marco Terranova para o JB em 2000.
18 A chance da sede olímpica. O Rio ganhou a indicação brasileira para as Olimpíadas 2012. “As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental”, comemorou o prefeito Cesar Maia, citando Vinicius.
19 Aplaudir o pôr-do-sol. A coisa começou com os hippies na década de 70 e basta o sol cair em Ipanema que a cena se repete. Até em dia de semana de inverno tem uma turma para aplaudir.
20 Chico Buarque. Ele passa rápido, de bermuda, e não olha para os lados. Mas é ele, sim, o gênio da música no calçadão.
21 O conceito de baixo. Usado para diferenciar as áreas altas das baixas dos bairros, o conceito se alastrou e é sinônimo de agito. O do Leblon teve seu auge nos anos 80, quando Cazuza era figura fácil na Pizza-
ria Guanabara e no extinto Real Astoria. Tem ainda o Baixo Gávea, o Baixo Bebê, o Baixo Tijuca...
22 A Garota da Laje. Tem quem chame o espaço de copalaje e barralaje, e não são poucas as meninas que preferem pegar um bronzeado sem sair de casa – dizem até que o calor do cimento ajuda a pegar cor mais rápido. Luiz Antônio Bap organizou um concurso para eleger a Garota da Laje. A vencedora ganha um carro usado e uma laje de 30 m².
23 O AA vizinho do boteco. Prova de fogo. A 30 metros do Bracarense, bar que se orgulha por servir o melhor chope da cidade, fica uma filial dos Alcoólicos Anônimos. “A maioria não resiste e acaba bebendo com a gente”, conta Carlos Eduardo Tomé, do bar.
24 A apoteose do gari. Todo o ano é a mesma coisa. Sete da manhã, Sambódromo imundo, e muitos garis fazem um carnaval particular, com direito à fantasia improvisada.
25 Filé à Oswaldo Aranha. O ex-ministro criou o prato, que há mais de 40 anos não sai dos restaurantes cariocas. No Filé de Ouro são 350g de contrafilé cheio de alho, batatas portuguesas e farofa. Há variações, cada casa serve o seu.
26 Andar de bonde no estribo. Diferente é o jeito de pongar, meio do lado de fora, pronto para pular até sem pagar.
27 Cinema na favela. Avança o projeto de levar a sétima arte às comunidades.
28 Galeto com o sax do metrô. Os bancos de cara para o balcão e o Largo da Carioca são coisa nossa. Tudo fica peculiar quando a tarefa é desossar os galetos feitos na churrasqueira a carvão ao som do saxofonista Ademir de Paula Morais, 51 anos, que, meio desafinado, mistura Garota de Ipanema com How high the moon. O músico é a cara do Dexter Gordon.
29 Os murais do Gentileza. O profeta acabou até na música de Marisa Monte, e seus murais, restaurados pela UFF, continuam nos pilares dos viadutos próximos à Leopoldina. As mensagens pregam paz, amor e carinho.
30 Manobrista na praia. Freqüentadores do Pepê, na Barra, conhecem bem Luis Alberto Soares, que toma conta de carros de famosos como Romário e Ronaldinho, há mais de 20 anos. Não é raro vê-lo manobrando BMW ou Mercedes de celebridades.
31 O DNA do pastel meia-lua. O que é servido no Alvaro's é idêntico ao do Degrau, que é igual ao dos Le Coin I e II, que é semelhante até ao que era servido nos extintos Bozó e Manolo's. O formato do pastelzinho recheado, que os restaurantes servem às centenas, tem um criador. Difícil é achá-lo. “Nós que inventamos, há 37 anos. Os outros são muito jovens para isso”, diz José Maria, o Pepe do Alvaro's. Há controvérsias.
32 Picolé de queijo do Morais. Adriano Morais gosta de dizer que seu sorvete não tem gordura, mesmo o de banana frita. Cativa as pessoas, como o maestro Wagner Tiso, fã há mais de uma década. “É um clássico que só existe no Rio”, afirma Tiso.
33 Pagode no trem. 2 de dezembro, Dia Nacional do Samba: as velhas guardas se juntam para, da Central a Oswaldo Cruz, tocar o que há de melhor por uma hora. Vai todo mundo chacoalhando e ninguém acha ruim.
34 Copacabana Palace. A arquitetura, os restaurantes, a piscina, a decoração, uma história de 80 anos, a vista da praia com o desenho do calçadão. Pelo conjunto da obra.
35 Garimpeiro de praia. José Ribeiro Mariano, o Tornado, largou emprego e há 26 anos vive garimpando objetos na praia. Juntou em duas semanas meio quilo de ouro. Diz que com o réveillon tem até décimo-terceiro.
36 Os blocos carnavalescos. Suvaco de Cristo, Banda de Ipanema, Simpatia é Quase Amor, o Cordão do Bola Preta, Cordão do Boitatá, Carmelitas...
37 A groselha na Colombo. Parece palavrão nos tempos de pratos como minialcachofras com coulis de damasco, mas o refresco está há quase cem anos no menu da Colombo. Com fiéis seguidores.
38 A árvore de Natal da Lagoa. Turistas e cariocas engarrafam o trânsito para admirar a árvore de 82 metros de altura.
39 Ambulante em locais chiques. Francisco Gonçalves de Medeiros, 82, oferece rosas há 40 anos nos bares e melhores restaurantes de Ipanema e Leblon. “É o único que deixo entrar. Também, de terno e gravata, fazer o quê?”, diz Conceição Neroni, do Margutta.
40 As palmeiras imperiais. Sentar à sombra das palmeiras centenárias do Jardim Botânico é um privilégio. Com sorte, pode-se ver Malu Mader passear com as crianças.
41 Calçadas com Drummond. Nas esquinas da Rainha Elizabeth e Conselheiro Lafaiete, onde morou o poeta, há versos do mineiro apaixonado pelo Rio.
42 Sanduíche tombado. Vereadores aprovaram projeto de tombamento do quiosque aberto em 1984 por Pepê Lopes, ex-surfista e campeão mundial de asa-delta, na Barra. O lugar é point dos sarados e Pepê virou figura lendária.
43 Beleza democratizada. Moradores de morros como Vidigal e Rocinha têm o visual de clássicos cartões-postais.
44 Músicas estrangeiras. Em homenagem a Barry White, falecido na última semana, com sotaque nos erres: “Rio de Janeiro...”
45 Réveillon em Copacabana. A festa reúne 2 milhões de pessoas (!) e tudo acontece na maior paz!!!
46 Os garçons e a bola. Eles costumam sair do Antiquarius, do Gero e do Jobi nos dias de semana à 1h30. Depois de trabalhar mais de oito horas seguem para o Aterro do Flamengo. É lá que a pelada come solta até de manhã.
47 Estudantina. Outros lugares podem até ter gafieira. Mas, como essa, nenhum. As regras são seguidas à risca. Beijo na boca, só depois do baile.
48 Jornal do Brasil. A alma é do Rio, mas a história do jornal de 113 anos repercute, como o nome diz, pelo Brasil.
49 Transparência. A cidade não é só maravilhosa. Há problemas como em qualquer outra metrópole. A diferença é o hábito que o carioca tem de expor as dificuldades, para enfrentá-las de frente.
50 Esta lista. Só no Rio alguém tem a pachorra de fazer esta lista. Achando ainda que, para o Rio, 50 é pouco.