Como é o retorno à rotina de quem largou tudo para passar meses longe do trabalho
Quando o hábito de conceder longos períodos de descanso para profissionais graduados começou a migrar das universidades americanas para o mundo dos negócios há 50 anos, especialistas em recursos humanos mais apressados só enxergaram benefícios. Se um executivo valioso para a empresa está estressado a ponto de um mês de férias parecer insuficiente, por que não oferecer seis meses ou um ano de descanso para que ele dê uma reciclada na vida pessoal e profissional, voltando com ânimo revigorado?
Afastar-se da rotina para refletir sobre a carreira, investir em autoconhecimento e desenvolvimento profissional é certamente uma experiência extraordinária. O problema é que a vida no sabático pode ser tão boa que torna a volta do sonho traumática. "Um patrão que não permite que o funcionário faça um sabático pode estar apenas adiando a saída dele da empresa, já que a pessoa está em busca da realização de um projeto pessoal. Mas a volta ao trabalho é sempre uma incógnita", diz Elaine Saad, sócia da consultoria RH Right Saad Fellipelli.
No caso do engenheiro paulista Roberto Falcão, 32, incógnita significou mudar inteiramente de ramo. Ele era gerente de contas da Ambev quando resolveu rodar o mundo durante um ano com mochila nas costas. Escalou o monte Kenya, fez um retiro espiritual de 45 dias na Índia, pegou carona no Zimbábue, dormiu no deserto no Egito e em alojamentos no Nepal . Na volta, o escritório pareceu pequeno demais, e Falcão resolveu mudar de vida. Agora persegue a carreira de autor de guias turísticos. Está escrevendo sobre o Rio, projeto que amadureceu durante o sabático.
O exemplo de Falcão é um caso extremo em que o sabático precipitou uma guinada de 180 graus na vida profissional. Os meses longe da empresa resultam quase sempre em pequenas transformações na volta - nem todas de fácil implementação. Isso acontece porque de longe fica fácil enxergar quais os pontos da rotina que mais incomodam. O administrador de empresas paulista Herbert Steinberg, 45 anos, aproveitou o sabático para percorrer a pé o caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. Na volta, escreveu um livro sobre o assunto. Em Sabático, um tempo para crescer, ele diz que o encerramento do projeto sabático merece um ritual: "Os efeitos benéficos persistirão, mas o período terminou de vez, e esse fato deve ser visto como um dado da realidade".
Apesar de ser defensor ferrenho do sabático, Steinberg admite que costumam aparecer dificuldades no retorno à vida normal, como a readaptação a horários e compromissos. O casal de jornalistas Fernanda Graell e Marcos Malafaia largou o emprego para viajar por dois anos pelas Américas. Cada dia, era uma nova aventura. Vôo livre na Costa Rica, rafting no rio Colca, no Peru, encontro com um tubarão-baleia em Fernando de Noronha. Tudo isso era fotografado e filmado para um site, um livro e um programa de televisão que o casal produziu, forma encontrada para custear as despesas da viagem. Na volta, Fernanda Graell retornou à redação do canal Globonews, onde passa sete horas por dia fechada. "Não sei se está chovendo ou fazendo sol. É uma mudança muito brusca. Trânsito, praia lotada, aqui tudo está sempre cheio de gente, enquanto na viagem erámos basicamente só eu e o Marcos."
O truque para não se entregar inteiramente à velha rotina é aproveitar as dificuldades de readaptação para implementar mudanças que melhorem a qualidade de vida no trabalho. No ano passado, o publicitário Luiz Márcio Ribeiro Caldas Jr., 42, substituiu as 14 horas diárias à frente de uma pequena agência de publicidade por tarefas mais agradáveis como passear com a filha, ir ao cinema, ler o jornal e tirar uma soneca depois do almoço. Foram seis meses de bem-bom, mas a noite anterior à volta ao trabalho foi tensa. Caldas teve medo de ser rejeitado no mercado. Também tomou uma sábia decisão, fruto de reflexões típicas de um sabático: diminuiu a carga horária e ficou mais seletivo na hora de escolher os clientes. "Antes eu não tinha tempo para ficar com a minha família. Resolvi mudar depois que fiz essa pausa para pensar na minha vida, no que eu realmente gosto de fazer", conta Luiz Márcio, que agora arrumou tempo até para escrever um romance.
Depois de enfrentar resistência nas empresas mais conservadoras, o sabático emplacou definitivamente na rotina das grandes corporações. Nos Estados Unidos, 20% das 500 maiores empresas listadas pela revista Fortune oferecem sabáticos a seus funcionários, em geral garantindo remuneração integral no período. O benefício foi importado das universidades, que concedem descansos prolongados aos professores desde o fim do século 19.
No Brasil, os exemplos pipocam em todos os setores, mas são mais freqüentes em multinacionais. No ano passado, dois funcionários da American Express foram pioneiros do projeto sabático da empresa. Eles viajaram para estudar fora com a garantia do emprego na volta e uma parte do curso subsidiada pela firma.
O escritório de advocacia Pinheiro Neto adotou um programa de aperfeiçoamento em que jovens e promissores advogados são enviados ao exterior para um período de estudos ou de trabalho em outro escritório. Além do evidente benefício de ter na empresa profissionais com experiência internacional, o programa serve para dar uma oxigenada nos rígidos padrões de comportamento da área.
Depois de oito anos de Pinheiro Neto, a advogada Laura Oliveira, 31, passou um ano trabalhando no escritório Milbank Tweed Hadley & McCloy, em Los Angeles. Lá, o traje do dia-a-dia era calça jeans, camiseta e tamanco. Laura voltou quebrando totalmente o código de conduta do meio que reza que as mulheres devem usar sapato fechado e saia e blazer. Não usa mais meia-calça, e tailleur e sapato fechado só em ocasiões muito especiais. Laura também teve de se readaptar à rotina familiar. Em Los Angeles, o fim de semana era preenchido com bares e festas rave. Agora, ela dedica-se exclsuivamente ao marido e ao filho, que haviam ficado no Brasil.