Domingo, 28 de Outubro de 2001
A musa das quadras

Érika já teve de provar sua feminilidade em exame. Agora é sex-symbol

MARCELA PETRAGLIA

Jorge Bispo
Érika posa na praia de Copacabana: escova pela manhã e plano de colocar piercing

Érika posa na praia de Copacabana: escova pela manhã e plano de colocar piercing

A seleção feminina de vôlei que se prepara para disputar a Copa dos Campeões no Japão no mês que vem tem duas estrelas. Uma delas é Virna, dona de duas medalhas olímpicas após mais de dez anos de carreira. A outra é Érika, o mulherão da página ao lado. Aos 21 anos ela é, segundo Bernardinho (ex-técnico das moças que hoje comanda a seleção masculina de vôlei), uma atacante nata. Para o atual treinador, Marco Aurélio Motta, Érika é a uma jogadora de velocidade e recepção incomparáveis.

Mais impressionante que sua beleza e categoria nas quadras é sua história. Érika é aquela jogadora que há três anos foi parar nos jornais por ter sua feminilidade questionada em um exame médico. Era o início de 1998, e a jogadora de 18 anos havia sido convocada para a seleção adulta pela primeira vez. Tudo parecia perfeito. Érika treinava entre jogadoras que meses antes não passavam de ídolas distantes, como Leila e Ana Paula, quando seu mundo ruiu de repente. Um exame encomendado pela Confederação Brasileira de Vôlei apontou excesso do hormônio masculino testosterona na atleta. Com a anomalia detectada no teste, ela não poderia disputar o Mundial daquele ano, no Japão.

Foram quatro meses de agonia. Primeiro, foi cortada da seleção de Bernardinho. Na época defendendo um time de Curitiba, teve de passar por tudo longe da família, que vivia em Belo Horizonte. À distância, constrangida, teve de explicar a pai e mãe o drama pelo qual estava passando, já que eles não conseguiam entender o que saía nos jornais sobre os exames questionando a sexualidade da filha. ''Eu sou moleca, brincalhona e criança, mas fui a mais estruturada nessa história. Fui a mãe da minha mãe e o pai do meu pai. Eles achavam que era alguma coisa séria, que eu tinha uma doença. Tive de explicar que estava bem'', lembra Érika. Mesmo tendo sido ela a vítima, a jogadora acha que os pais foram que mais sofreram com a situação. ''Não deve ser fácil para uma mãe, que criou você, que tem sua certidão de nascimento, de repente ter de ouvir os outros dizerem que ela está enganada, que você não é aquilo que ela, sua mãe, pensa'', diz a jogadora.

Érika passou por uma bateria de exames e submeteu-se a uma cirurgia de correção da disfunção hormonal. Seu nível de testosterona caiu e ela pôde voltar à seleção a tempo de participar do Mundial de 1998. A partir daí, sua carreira decolou. Nas Olimpíadas de 2000, levantou de vez do banco de reservas e foi peça-chave na conquista do bronze olímpico.

Embora a disfunção hormonal tenha sido corrigida, a jogadora não pode ter filhos, pois não tem útero nem ovários. Mas ninguém questiona sua feminilidade. Ao contrário, hoje pode disputar campeonatos em qualquer liga de vôlei no mundo e ainda virou símbolo sexual. A reviravolta foi rápida e agora não faltam revistas requisitando a moça para fotos de biquíni. Houve até um convite da Portela para que fosse destaque da escola de samba no carnaval passado. ''Nem pensar. Não deu tempo de ver qual seria a fantasia. Vai que era alguma coisa indecente'', diz, do alto de seu 1,80m, estatura relativamente baixa para o esporte.

Em paz com a vaidade, hoje Érika levanta às 7h para fazer escova nos cabelos antes do treino, usa esmalte escuro e diz que vai pôr um piercing no umbigo. Ao falar sobre o episódio que tanto a afligiu, demonstra serenidade. ''Isso não foi meu maior problema, foi meu maior aprendizado'', diz. ''Ali, tive de aprender a ser adulta, tive de convencer todo mundo de que eu era a mesma, sem nenhuma alteração.'' Érika nasceu em família humilde. Seu pai é torneiro mecânico e eletricista e a mãe é uma dona de casa com ensino fundamental incompleto, que gosta de repetir que ''Deus está acima de tudo''.

O que todos mais desejavam durante a polêmica sobre sua sexualidade era uma solução rápida, que não desse margem a especulações ou fofocas. Queriam vê-la em quadra, usando a camisa da seleção novamente. ''Acho que as pessoas têm de fazer aquilo que vai torná-las felizes. Dei toda força do mundo quando a Érika quis deixar Minas para ir jogar no Rexona, mas acho que ela não deve se prender a nada nessa vida. O dia que não quiser mais, tem que partir para outra'', diz dona Marlene, que agora mora numa casa com piscina e tem um Corsa comprado pela filha.

Até hoje, a mãe não entende direito o que aconteceu à filha. Sabe apenas que Érika ''tinha excesso de hormônios, uma coisa que pode acontecer com qualquer mulher''. Ignora as suposições que vieram à tona na época, de que um clube adversário teria sido o responsável pela acusação do excesso de hormônios que a incapacitaria de jogar pela liga feminina. Como a mãe, Érika também não guarda mágoas de ninguém. Para ela, sua vida se assemelha a um conto de fadas, com direito a sofrimento da mocinha e final feliz. ''Quando eu tinha seis anos, fiquei paralisada do pescoço para baixo. Até hoje, ninguém sabe direito o que foi'', conta. ''E tudo se resolveu. Estou aqui. Tudo o que tenho, devo a Deus''. A doença misteriosa da infância está registrado na memória de Dona Marlene. Sem mais nem menos, Érika acordou berrando de dor, sem conseguir andar. No hospital em Belo Horizonte, nenhum médico soube explicar o que estava acontecendo. Na volta para casa, todos acharam que a menina nunca mais fosse ficar de pé. Érika passou seis dias deitada, totalmente paralisada, sem conseguir se mexer. ''Foi ali que eu vi como a minha filha é determinada. Ela ficou o tempo inteiro calma, dizendo para a gente esperar, ter paciência, que ela voltaria a andar'', lembra Dona Marlene.

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