Eles estão chegando aos 30, já foram tema de importantes revistas estrangeiras e estão entre os mais brilhantes designers gráficos revelados recentemente no país. Ainda assim, exalam deboche por todos os poros e mais parecem pós-adolescentes, cuja maior diversão na vida é matar os amigos de rir. Há quatro anos, os cariocas José Bessa, 28, e Cláudio Reston, 27, se transformaram na dupla Elesbão e Haroldinho e viraram uma espécie de Casseta & Planeta do design. Tratam assuntos seríssimos com inabalável irreverência. A ousadia começa pelo nome nada convencional, inspirado na personalidade de cada um: Bessa é Elesbão, ''o cara que não tem amigos'', e Reston é o extrovertido e sociável Haroldinho. ''Resolvemos fugir dos clichês da maioria dos escritórios de design, que sempre inclui no nome palavras como
idéia, studio ou
criação'', diz Haroldinho.
Artistas multimídia, eles criam de tudo um pouco: projetos gráficos, vídeo, tipografia digital e até música. Sempre com um humor crítico e inteligente. No ano passado, foram os únicos designers brasileiros com trabalho publicado na edição especial de dez anos da respeitada revista americana Emigre. Suas vinhetas estão na programação da MTV e suas ilustrações vivem estampando as páginas de revistas como a Trip e a modernosa Simples?. Vira e mexe, participam de exposições. Até 14 de outubro, por exemplo, estarão na mostra Geração Digital, em cartaz no Museu Nacional de Belas Artes.
Como era de esperar, o nome engraçadinho já assustou muitos clientes. Em 1999, quando fizeram as peças gráficas para o concerto de louvação à vinda do Papa, por exemplo, a dupla bateu de frente com a prefeitura para manter a assinatura. Deu certo. Todas as peças apareceram com o crédito Elesbão e Haroldinho /dizáin/. Os subprodutos da dupla também têm nomes bem-humorados. Os vídeos, por exemplo, levam o o selo Chantecler Filmes, uma homenagem à mãe de Haroldinho, que certa vez se confundiu e chamou assim a marca de cigarros Chanceler. Já os trabalhos de multimídia são produzidos pela WebCamargo (uma alusão à louríssima apresentadora de TV do SBT).
Se esses nomes antes pareciam bizarros, agora soam muito bem aos ouvidos de qualquer entendido de design do país. Não há profissional da área que não conheça a reputação da dupla. Apesar do ar maluquinho, os dois trabalham com dedicação ferrenha e passam pelo menos 12 horas diárias numa minúscula sala no Cosme Velho, onde funciona o escritório - ou a salinha, como eles mesmos batizaram o lugar. É de lá que saem idéias arrojadas como o Design de Bolso (DDB). A publicação de pequeno formato é uma espécie de manifesto que mescla cultura, crítica social, poesia gráfica e, claro, design. Sempre monocromático e com apenas uma família tipográfica por edição, a revistinha concebida metade por Elesbão, metade por Haroldinho, virou mania entre os cariocas mais antenados. ''O DDB foi o nosso primeiro laboratório experimental. O design não é apenas uma profissão comercial. É a estética pela vivência, pela percepção'', diz Haroldinho.
Os sete primeiros números foram bancados com dinheiro dos próprios bolsos da dupla, que não resistiu à tentação de fazer um trocadilho e batizar o livreto de Design de Bolso. A oitava edição, publicada no mês passado, foi a primeira patrocinada pela editora 2AB, especializada em design. O DDB acabou virando cartão de visita do trabalho da dupla. Foi graças ao livreto que chamaram a atenção do diretor de arte da MTV, Jimmy Leroy. ''Já tinha visto o DDB e, depois que os conheci pessoalmente há cerca de três anos, eles me mandaram trabalhos de vídeo também'', conta Leroy. A primeira série de animação da dupla que a MTV veiculou, no segundo semestre do ano passado, se chamava Las Fabulosas Formigas Tipográficas. A novidade agora são as vinhetas de 15 segundos inspiradas no filme Tron, no qual um menino entra em um video game e vive os jogos como se fossem realidade. A parceria com a MTV continua dando filhotes: em outubro está prevista a estréia de mais duas vinhetas, continuações das atuais, também baseadas no filme do diretor Steven Lisberger, feito em 1982, e um dos precursores da onda de efeitos especiais que marcou a década.
A mais recente invenção da dupla é o Freak Show, performance que mistura design e música, concebida em colaboração com o também designer carioca Marcello Rosauro, da Fé Cega Design. O cenário é um megatelão onde são projetados vídeos criados especialmente para o evento. Para completar a festa, o trio sobe ao palco e canta composições próprias. ''A idéia do Freak é unir, através de várias mídias, a exploração profunda e completa do universo tipográfico'', diz Haroldinho. O show, com duração de uma hora, já foi apresentado no Rio, em São Paulo e em Recife. Na capital pernambucana, mais de mil pessoas assistiram à performance. ''Fiquei tão assustado com tanta gente que quase não me lembrava da letra das músicas'', diz Elesbão. A incursão da dupla no mundo da música não se limita ao Freak Show. O repertório do selo Curió Music, braço fonográfico da empresa, é bastante democrático: vai desde funk até música eletrônica.
Outra marca registrada são as mais de cem paródias de logotipos famosos. Nas mãos dos designers, o rótulo do uísque Jack Daniels vira Jackson Five, Good Times. No logo dos sorvetes Kibon, aparece escrito Kichute. A Velho Barreiro passa a se chamar Velho Micreiro. E a banda Jota Quest vira Jota Peg na capa do CD idealizada pela dupla, que traz estampada uma frase-consolo: ''O mundo é show-business, mas relaxe. Existe periferia''.
Outro trabalho de peso foi a propaganda para o Free Jazz, feita em parceria com a Tv Zero, no ano passado. O diretor de filmes da produtora, Roberto Berliner, conheceu o trabalho dos dois por intermédio dos amigos Luís Vieira, diretor de criação da DPZ, e Marcelo Pereira, da Tecnopop. ''Na época, achei que eu era o único que ainda não os conhecia porque todo mundo falava deles'', conta Berliner. O encontro tardou, mas rendeu frutos. A dupla oferecia exatamente o que Berliner procurava: conceito. ''Eles não fazem nada à toa'', completa. De fato, os dois encarnam os personagens que criaram 24 horas por dia e vivem em tamanha sintonia que conseguem até prever o que o outro vai falar. ''É incrível, quando um começa, o outro termina a frase. Eles são produtos da imaginação deles próprios'', diz Luís Vieira.