Domingo, 16 de Setembro de 2001
O Larry Flynt tupiniquim

Editor da Penthouse e da Hustler brasileiras faz apologia do prazer

Jorge Henrique Cordeiro

Manoel de Brito
Maroni na Barra: ``Posso ser indecente e imoral, mas não ilegal´´

Maroni na Barra: ``Posso ser indecente e imoral, mas não ilegal´´

São Paulo - O empresário Oscar Maroni Filho, 50, dorme e acorda pensando em sexo sem o menor constrangimento nem medo de ser considerado pervertido. Para Maroni, sexo é uma palavra mágica - e ele sabe usá-la como poucos para ganhar dinheiro. Ao longo dos últimos 30 anos, o empresário construiu um império erótico que hoje lhe rende cerca de R$ 15 milhões anuais - valor que ele não desmente nem confirma. ''Não me considero um empresário do sexo, mas das fantasias sexuais. Sou contra a hipocrisia e a favor da liberdade sexual do homem e da mulher'', diz em tom de discurso.

Além de ser proprietário da Bahamas, megacasa pornô instalada em Moema (bairro nobre de São Paulo), Maroni edita 16 publicações eróticas, lideradas pelas americanas Penthouse e Hustler, cujos direitos para toda a América do Sul e Portugal foram comprados por ele no início do ano. E os novos negócios vão de vento em popa. Até o fim de 2002, Maroni promete expandir seus domínios com a inauguração de um hotel temático cinco estrelas, ''voltado para as coisas boas da vida''. Também deverá lançar um grande portal na Internet, que terá como ponta-de-lança o site do Bahamas.

Por tudo isso Maroni se auto-proclama o Larry Flynt brasileiro - numa referência ao famoso e polêmico porno-editor americano que virou lenda ao defender na Suprema Corte o direito de sua Hustler publicar nus frontais. Assim como Flynt, Maroni sabe usar o sexo para gerar polêmica - e dividendos, claro. Foi o que fez no início do ano, ao anunciar em alto e bom som que estamparia Dercy Gonçalves nuazinha na capa da Penthouse. Há meses ele vem tentando convencer Dercy, mas as negociações andam meio emperradas. ''O problema é que ela sempre pede mais dinheiro para fazer as fotos. Outro empecilho é que ela quer fazer um nu artístico, enquanto nós queremos algo mais ousado. No dá para uma senhora de 95 anos fazer nu artístico'', diz. Apesar da insistência, Dercy bate pé e diz que só posará se suas condições forem aceitas. ''Ele está me oferecendo um pirulito para posar nua'', reclama. Apesar de não abrir mão de Dercy, Oscar já tem uma substituta caso a atriz desista de vez. ''Vou chamar aquela amante do Getúlio Vargas que era vedete, a Virgínia Lane.''

A obsessão por mulheres maduras tem explicação. Maroni quer que cada edição da Penthouse traga ensaios com personagens inusitados, que jamais apareceriam nas concorrentes. Depois das idosas, quer policiais femininas e professoras posando para a Penthouse brasileira. ''Vou pagar dez salários para elas, porque provavelmente vão perder o emprego em seguida.'' Por enquanto, vovós e titias em poses sexys continuam apenas na imaginação de Maroni. Mas nem por isso a Penthouse deixa de fazer barulho. O segundo número da revista - que está nas bancas - traz um chamariz pra lá de polêmico na capa: a frase ''Sou um pedófilo do bem'' grafada com letras garrafais e assinada por ninguém menos que o juiz da infância Siro Darlan, que se notabilizou por sua cruzada pela moral e bons costumes. ''Achei ele um homem excepcional. Distorcem muito o que ele fala'', elogia Maroni, que arrancou histórias cabeludas do juiz. ''Ele conversou sobre tudo, não foi só sexo. Nossa revista quer falar também para a cabeça dos leitores, e não só para a parte debaixo da cintura, como as outras'', diz. Darlan contou à Penthouse, por exemplo, que perdeu a virgindade aos 16 anos com uma professora. E afirmou que se considera um pedófilo do bem porque é um homem que ama as crianças e se preocupa com bem-estar delas. Para os próximos números, Maroni já decidiu quem gostaria de entrevistar: Pelé e Lula. ''Imagina o que o Pelé tem para falar sobre sua vida sexual com as loiras?''

Tanta ousadia já custou a Maroni diversos problemas com a Justiça. Foi processado várias vezes, e o Bahamas chegou a ser fechado. Preso, só terminou sendo uma vez, em 1994. O então titular da delegacia seccional Sul de São Paulo, Romeu Tuma Júnior, levou Oscar para trás das grades por manter uma casa de prostituição, o que o empresário nega veementemente. ''Ter motel é proibido? Não. Ter uma boate é proibido? Não. Ter sauna é proibido? Não. Eu tenho essas três coisas no mesmo lugar. Nenhuma das meninas que vão ao Bahamas são minhas contratadas. Elas pagam ingresso, assim como os homens. O que eles fazem lá dentro não é problema meu.''

Romeu Tuma Júnior pensa diferente. ''O que ele faz é ilegal e, quando tive chance, cumpri meu dever. Mas não tenho nada contra ele pessoalmente.'' Oscar, por outro lado, se vangloria de ter conseguido provar na Justiça que sua empresa (a OMF) está limpa e se diz perseguido a exemplo do mentor intelectual Larry Flynt. ''Todos os processos já estão julgados. Posso ser indecente e imoral, mas não ilegal.'' Do 63 dias em que ficou preso, durante a Copa do Mundo dos Estados Unidos, Maroni diz que só guarda boas lembranças. Como tinha curso universitário, pôde ficar em cela especial. ''Como a lei me dava o direito de ter visita íntima, eu convidava até três meninas de uma vez, para deleite do carcereiro. A lei dizia também que eu tinha direito à alimentação especial, e eu encomendava refeições no Fasano (um dos restaurantes mais chiques de São Paulo), com taças de cristal e talheres de prata.''

Ao sair da prisão, Maroni resolveu investir no seu mais audacioso projeto: a construção de seu cinco estrela dedicados aos prazeres carnais. O empreendimento está sendo erguido num terreno de 4 mil metros quadrados atrás do Bahamas e terá 13 andares, 227 apartamentos, 300 vagas na garagem, três restaurantes, uma academia de ginástica e um teatro. ''Será um complexo de entretenimento para adultos.'' Quando ficar pronto, o Oscars Hotel, que terá decoração de Sig Bergamin, vai abrigar também uma central de leilão de bois e cavalos. A combinação esdrúxula de hotel dedicado aos prazeres carnais com arena de festa do peão boiadeiro tem lógica - ao menos na cabeça meio histriônica de Maroni. ''Vai ser um projeto integrado com a fazenda de boi-gordo que tenho em Araçatuba. Lá, quero construir um resort para as pessoas viverem uma fantasia ao estilo do mundo de Marlboro. E o hotel vai fazer a ponte entre os dois mundos.''

A nova incursão do empresário no ramo hoteleiro parece um pouco confusa e pode não dar certo, mas Maroni afirma tem ambições mais abstratas que o sucesso financeiro. ''Quero ser reconhecido como o homem que questiona a hipocrisia, que provoca espanto, chacoalha as pessoas psicologicamente, que as arranca da passividade e as leva à procura da felicidade. Porque é no questionamento e na divergência de opiniões que se cresce espiritualmente, sexualmente e intelectualmente'', dispara o empresário, que foi fã de Che Guevara até os 20 anos, mas hoje não tem nenhum interesse por Cuba além das calçadas muito movimentadas do malecón. ''Ser comunista na adolescência é sinal de inteligência, na meia-idade é burrice'', explica. Hoje, seus ídolos são Larry Flynt, Freud e ''aquele chinês que foi muito macho ao ficar na frente de um tanque durante a repressão em 1989 ao protesto na Praça Celestial em Pequim.''

Maroni também tem um gosto eclético para a leitura. Gosta de livros de filosofia, em especial o existencialismo de Jean Paul Sartre. ''também aprecio muito Henry Miller, já li e recomendo a todos Sexus, Plexus e Nexus. E O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry'', diz. E surpreende ao citar de cor trechos do livro que entrou para a história como o predileto de modelos e candidatas a miss. ''Pode não parecer, mas sou um homem bastante romântico. Só acho que sexo sem afeto e sem amor também é bom.'' Amante de carros caros e motos vistosas (seus xodós são um Jaguar e uma Harley Davidson), boêmio convicto e mulherengo assumido, Maroni teve um início de vida empresarial pra lá de prosaico. Começou vendendo sanduíches na lanchonete que tinha na Faculdade Objetivo, em São Paulo, em sociedade com a ex-mulher Marisa, 47. Também dava aulas de psicologia e tinha um consultório de psicoterapia sexual. ''Tinha um cliente japonês que não conseguia transar com a namorada. Sugeri, então, que ele freqüentasse bordéis. Quando ele melhorou, descobri que esse seria meu futuro e comprei o bordel'', conta. O casamento de 27 anos com Marisa, com quem teve quatro filhos, acabou há alguns meses. Oscar não perdeu tempo e já circula pela noite ao lado da nova namorada, Fabrícia, 23. ''A Marisa é a mulher de meus filhos e continua minha sócia em todas as empresas. Nunca a trai, mesmo quando saía com outras mulheres. Posso ser cafajeste, mas não sou hipócrita.''

O discurso de fidelidade é incompatível com as proezas sexuais das quais Maroni gosta de se gabar: ele jura que já transou com mais de 1.500 mulheres. ''Consegui essa marca sem fazer filme pornô! Estou até pensando em pleitear um lugar no livro Guiness dos recordes'', gaba-se. O número cheira a marketing puro, mas não é de todo improvável quando se leva em consideração que Maroni vive, literalmente, na Bahamas e lida diariamente com 150 mulheres. Desde que se separou, o empresário ocupa a suíte 21 da casa noturna, instalada num sobrado de três andares. Extremamente vaidoso, Maroni diz que não se considera lindo, mas acha que parece com o modelo Paulo Zulu. ''Se as mulheres dizem que os homens são todos iguais, então me nivelo por cima.''

Além das declarações esdrúxulas e do arrojo editorial, Maroni não se incomoda em gastar dinheiro para aparecer. No ano passado, pagou R$ 6 mil para arrematar em um leilão na internet o biquíni que Luma de Oliveira usou no último ensaio para a revista concorrente, a Playboy. Apesar da performance invejável, ele admite que já negou fogo. ''Claro que broxei! Mas só broxa quem trepa!''

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