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Sumiço na confeitaria
Para desespero de fiéis consumidores, guloseimas que carregam parte de nossa memória afetiva vão desaparecendo do mercado. Mirabel é a próxima vítima
cleo guimarães
[01/ABR/2001]
Uma notícia emocionalmente impactante está deixando uma legião de brasileiros desconsolada. Prepare seu coração: o waffer Mirabel parou de ser fabricado. Sim, aquele mirabelzinho nosso de cada dia não existe mais. Acabou. Ou, como preferem dizer as atendentes do Serviço de Atendimento ao Consumidor da Adams (fabricante do biscoito), para não chocar os órfãos que não param de ligar para lá, ''o produto foi descontinuado''. Tanta comoção em torno da morte anunciada do waffer tem uma explicação. O Mirabel é daquelas pequenas gostosuras - geralmente bem populares, baratinhas - que têm valor afetivo para muita gente. Assim como a mariola, a bala Juquinha, a paçoca e a bala Boneco. Sabor infância.
Mas não pensem os fabricantes do waffer que o sumiço da gostosura das prateleiras vai ficar por isso mesmo. Os fidelíssimos admiradores do Mirabel já estão se unindo para que ele tenha, pelo menos, a despedida que merece. ''O que mais me irrita é saber que vão riscar uma página da infância de muita gente melancolicamente, sem dar a menor satisfação'', indigna-se o estudante de Economia Wagner Martins, de 22 anos. Wagner acabou de escrever o Tributo ao Mirabel, disponível no site Cocadaboa {http://go.to/cocadaboa}. ''Falo da importância desse biscoito na vida das pessoas e faço uma campanha para elas tentarem comprar logo seu último pacote'', conta Wagner.
O ator Marcos Pasquim também adora Mirabel e ficou boquiaberto ao saber de seu triste fim. Mas é a paçoquinha que sempre o tirou do sério. Não qualquer uma. ''Minha mãe sempre trazia da feira a paçoca Amor. Ela é muito melhor do que as outras porque a gente tinha que abrir a embalagem com o maior cuidado para não despedaçá-la. A vitória era conseguir colocá-la inteirinha na boca'', conta, nostálgico. Nostalgia também sentiu a atriz Rita Guedes ao desencavar da memória a bala Chita, presença marcante junto com o pé-de-moleque - vício dos dias atuais - na sua infância em Catanduva, no interior de São Paulo. ''Aquela bala era tudo! Lembro que a embalagem era amarela com uma macaca no meio. Uma delícia. Pena que nunca mais encontrei'', conta ela, que também não consegue esquecer do pirulito Dip nLik, ''aquele que a gente molhava num pozinho antes de lamber''.
Quem freqüentava o baleiro na porta de escola deve se lembrar do Dip nLik. Mas em termos de popularidade, hors-concours mesmo era o refresco laranjinha e sua versão sabor uva, proibidos por nove entre dez mães preocupadas com a procedência duvidosa da bebida - que, segundo elas, seria feita ''com água da bica''. Analisando as letras miúdas impressas numa garrafinha comprada na porta de um colégio religioso em Ipanema, lê-se a seguinte composição: ''Concentrado vitaminado de fruta, água tratada e filtrada, açúcar e benzoato de sódio.'' Saber que a bebida é feita com água filtrada dá um certo alívio a Yanay, DJ e produtor da festa Febre, um assíduo consumidor do refresco na infância. ''No colégio era de lei, hoje em dia não chego nem perto'', diz Yanay, um apreciador do supra-sumo das gostosuras thrash: o inenarrável picolé de creme holandês.
Entre as gostosuras ditas populares, duas podem ser consideradas unanimidade: as balas Juquinha e o cigarrinho de chocolate da Pan. O designer de bolsas Gilson Martins, fã de doces como o peitinho de moça e a mariola, tira o chapéu para as balinhas de embalagem amarela. ''Comê-las é como entrar na máquina do tempo. Sempre gostei de todas as Juquinha, inclusive a de banana, que vem numa embalagem marrom'', conta. Os cigarrinhos de chocolate - que de três anos para cá passaram a ser apresentados como rolinhos de chocolate, por causa de uma suposta indução ao consumo de cigarros pelas crianças - e a sua indefectível caixinha vermelha podem ser considerados os clássicos dos clássicos. A embalagem é a mesma desde 1952. A única mudança é recente: os meninos que ilustram a caixa foram coloridos por computador em 1997. De resto, tudo permanece igualzinho. Um alento para os mais nostálgicos, ainda em estado de choque com a perda irreparável do Mirabel.
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