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É de cimento!
Eliane Benício
Após trabalhar por muito tempo em um escritório, a advogada Renata de Almeida Prado resolveu se dedicar ao que mais gosta: viajar. Conhece muito bem boa parte da Europa, do Oriente e dos Estados Unidos. Em uma de suas temporadas no exterior visitou o Palácio Baccarat, na Place des États Unis, em Paris – uma mansão com três mil m² de salões e jardins, abrigando o museu Baccarat e a loja projetada por Philippe Stark. O famoso designer lançou mão do concreto escuro como revestimento e obteve um impressionante contraste entre o rústico do material aplicado e o requinte das peças em exposição.
– O escuro das paredes também deixava os objetos mais luminosos, com brilho encantador. Fiquei impressionada – conta ela. Tempos depois, Renata usou o mesmo recurso no seu apartamento na Zona Sul do Rio de Janeiro, e teve gratas surpresas. O cimento aparente no teto, nas paredes, no piso e até na porta de entrada realçou os seus móveis antigos, revelando-se ainda eficiente no controle da luminosidade natural, muitas vezes excessiva, da cidade. – O meu apartamento fica num prédio Art Déco erguido em 1937. Achei que o cimento combinaria com este estilo e também com o fato de eu estar em meio à selva de pedra que é Copacabana. Moro quase na divisa com Ipanema. O projeto foi desenvolvido a quatro mãos por ela e pelo arquiteto Lula Abranches, quem interpretou perfeitamente as vontades da dona da casa. Uma delas era pôr abaixo paredes do quarto de empregada e da cozinha para aumentar o living e aproximar a sala de jantar da cozinha já que Renata, além de viajar, adora cozinhar para os amigos, na companhia deles. Apenas os dois quartos e o banheiro não tiveram suas plantas alteradas. – Foi muito interessante trabalhar com a Renata. Eu nunca havia feito uma casa tão introspectiva – conta o arquiteto. A pequena área de serviço (2,00m x 0,80cm) do imóvel ganhou uma banheira jacuzzi e o posto de spa. Um sári trazido de sua última visita à Índia é usado como cortina, separando o ambiente da cozinha. Esta por sua vez ganhou armários projetados pelo arquiteto, com portas de peroba e alumínio com vidro, executados pela Madeirol. A geladeira foi pintada de bronze e o aspecto metálico, o mesmo que se repete em outros objetos antigos que receberam banhos de ouro ou metal (num toque futurista), combinou com o cinza do revestimento. Um conduite flexível, prateado e aparente, ligado à coifa da Falmec, segue pelo teto da cozinha até a janela da área de serviço. Com mármore apenas no banheiro e na bancada da cozinha, sem vestígios de outros revestimentos tradicionais, o apartamento foi transformado numa caixa de cimento. O visual homogêneo obtido com camadas do material (uma espécie de nata composta por cimento comum e cimento branco usada como pátina) e uma aplicação de verniz fosco de poliuretano, impressiona. A iluminação bolada por Lula Abranches é simples, com spots Dominici e pendentes. O cinza só é quebrado pela tinta vermelha escolhida para duas paredes da sala de jantar e do spa. Na ambientação figuram todos os móveis e objetos que acompanham Renata ao longo de sua vida. São prioritariamente móveis herdados da família (de cerejeira, de estilos holandês e inglês, Boulle etc) e objetos herdados da família ou comprados em viagens. As duas únicas peças novas são a estante de metal da Tok & Stok, com design de Philippe Stark, e um recamier vermelho da Novo Ambiente, ambos para o living, onde também se destaca o delicado lustre colorido de Marcelo Sampaio. – Tenho a responsabilidade de usar tudo o que herdei e juntei ao longo dos anos. As coisas não podem ser descartadas facilmente, pelo contrário. É preciso criar uma nova leitura para encaixá-las em espaços novos – aconselha. Modernidade e antiguidade, rusticidade e sofisticação se afinaram na decoração. No living destacam-se grandes telas dos artistas plásticos Pedro Wrede, Glauco Rodrigues e do carioca radicado em Paris Fernando Barata, a deste está posicionada ao lado da tela de plasma. Buscando um "visual rígido", sombras e redução de ruídos externos, Renata encomendou cortinas de material sintético e escuro na Blum Hause Interiores, de onde também vieram os tecidos para cortinas, colchas e almofadas dos quartos. No de visitas, estampas toile de jouy. – A necessidade de sombra vem da memória do Brasil, dos antigos que construíam grandes varandas na frente das casas para filtrar a luminosidade. Às vezes as pessoas precisam pensar e se recolher, e um ambiente mais fechado é ideal – acredita ela, que já morou e decorou casas em Paraty, e está acostumada a viver em lugares tranqüilos. No espaço reservado para a sala de jantar, um espelho veneziano e sob ele outro recamier foi encaixado no grande nicho. Diante dele mesa, cadeiras e cristaleira de estilo inglês da Laubisch & Hirth, loja que funcionou no Rio no início do século XX. – Com esta obra percebi que o cimento é básico e necessário. É um elemento mais natural do que os outros tipos de revestimento e dá um certo requinte intelectual a qualquer ambiente – conclui a ex-advogada, que confirmou neste projeto ter bom gosto e dom para decoração.
[30/OUT/2005]
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