Foi Herbert Vianna quem incentivou o músico Leoni a se mudar da Zona Zul para Vargem Grande. Mas, pouco tempo depois de sua ida para o bairro, em novembro de 2000, Herbert sofreu o acidente de ultraleve (em fevereiro de 2001), o que fez Leoni se sentir um pouco perdido. A busca pelo conforto de seu abalo emocional foi encontrado no templo budista.
Hoje, Leoni lança três CDs com mantras que produziu junto aos monges e o kenpo da KTC, com um show informal, mais um encontro entre amigos, ao lado de Herbert.
Em entrevista ao JB Barra, os músicos falaram sobre o evento, religião e os planos de carreira para 2005, entre outros assuntos.
- Por que escolheu Vargem Grande para morar?
Herbert: Quando vivia meu momento Zona Sul, vinha à Prainha. Numa das minhas subidas, vi um anúncio de terrenos à venda no Maramar. Acabei comprando um, e o Bi (Barone, do Paralamas), outro, que eu acabei comprando depois. Construí uma casa. Porém, a Lucy adorava montar. O sítio fica aqui bem perto desta casa (a atual). De tanto falar em Vargem Grande, Lucy me convenceu a vir conhecer. Fiquei louco, mas imaginei que fosse muito difícil construir uma casa aqui, em meio a todo esse verde. Foi quando ela engravidou do nosso terceiro filho (a Phoebe) e me fez pensar que se para ela não era difícil fazer um parto (ainda mais três), construir uma casa ali não poderia ser tão complicado. Resolvida a questão na minha cabeça, procurei um terreno e achei esse aqui. Me empenho para manter essa imensa área verde que rodeia a casa. Gosto da paz e do naturalismo que me cerca.
Leoni:Eu vim por influência do Herbert e me viciei. Me sinto em uma cidade de interior, onde todo mundo se conhece. Meus filhos se divertem aqui mesmo. O mais legal é a relação que se tem com os vizinhos. Somos todos amigos. O grande programa é passar o dia na casa de outra pessoa, sem falar no contato que se tem com a natureza. Isso, sem falar nas rodinhas de violão com o Herbert, que volta e meia acontece. A última foi no réveillon, que passamos aqui na minha casa.
- Leoni, porque convidou o Herbert (e o Maurício Mattar) para a apresentação de lançamento do CD de mantras budistas que você produziu?
Leoni: Foi uma forma que encontrei de retribuir carinho aos lamas, que foram à casa de Herbert quando gravamos a canção Começar para você voltar, com o objetivo de mostrar a Herbert toda a compaixão que recebeu quando esteve internado para reabilitação. E ao Maurício, por ele ser budista há muito mais tempo do que eu. Além disso, os dois moram em Vargem Grande, onde será o show.
- E você, Herbert, como recebeu esse convite para tocar no templo?
Herbert: Recebi como uma coisa muito boa. O que chamo de casualidades... Estou em um momento em que venho pensando em letras que fiz e que não tiveram a exposição e o retorno que outras canções do Paralamas tiveram. Estou rebuscando meus arquivos e revendo músicas que não tiveram a penetração popular que eu gostaria. Quero cantá-las de novo e, talvez, esse pequeno show informal seja um bom momento para colocar esse meu projeto em prática.
- Em relação ao budismo, qual é sua identificação?
Herbert: Tenho entusiasmo por conhecimento não-católico. O espiritismo, por exemplo, sempre esteve muito presente na minha vida. Hoje tenho muitas referências que me ajudam a lembrar de trechos da minha vida que eu não lembrava. E, atualmente, está muito forte a idéia do ser zen, de não criar barreiras aos sopros naturais do vento. E acho que a filosofia budista se encaixa muito neste espírito zen de ser.
Leoni: Sou budista há quase quatro anos. A iniciativa de procurar o templo, que fica na minha esquina, veio depois do acidente do Herbert e da Lucy. Minha esposa, Luciana, já lia bastante a respeito, mas a fatalidade ocorrida e o abalo emocional me fizeram ligar para o templo. Acabamos chegando em um momento especial, de iniciação, que só acontece uma vez por ano. Acredito que não tenha sido por acaso.
- Mudando de assunto... Vocês são amigos há muito tempo, mesmo antes de pensarem em gravar discos. O tempo passou e vocês acabaram seguindo rumos diferentes (Leoni inicialmente no Kid Abelha, depois em carreira solo, e Herbert no Paralamas). Musicalmente, o que há de comum entre vocês?
Herbert: A ampla carga emocional. Digo que são, na verdade, ''vômitos emocionais'', que vêm do estômago. Tenho, por exemplo, fragmentos de pensamento da gravação do DVD do Leoni, ano passado, quando fiz uma participação. Ele tem uma carga do bem, canta aquilo que faz parte do dia-a-dia. Me emocionei e, confesso, invejei. Mas foi uma inveja positiva.
Leoni: Começamos na mesma época, e por isso temos as mesmas referências. Além disso, nós dois somos compositores. Acho que temos uma admiração mútua. Às vezes, ouvindo uma música do Herbert, penso: ''como não imaginei isso antes...''
- E qual a sua expectativa para a carreira em 2005?
Herbert: Estou aplicando bastante energia para um próximo disco dos Paralamas, e já estou com material para isso. Ao mesmo tempo, quero resgatar aquelas canções que não tiveram a receptividade esperada. Penso para estas músicas um show tipo voz e violão. Para este mesmo projeto, estou traduzindo algumas das minhas canções para o inglês. É uma forma de interagir com a família da Lucy, com quem eu sempre estive muito conectado e também uma maneira de retribuir a ela todo o seu amor. Ela aprendeu tão bem português por amor...
Leoni: Venho trabalhando o meu DVD Retrato ao vivo, que vou lançar em março. E depois vou partir para uma turnê desse trabalho. Depois do DVD, vou entrar de cabeça em um novo projeto de CD, Outro futuro, com músicas inéditas. Sem contar que, nas horas vagas, vou continuar me apresentando com o grupo All Star 80, um encontro entre mim, Evandro Mesquita, Leo Jaime e Ritche. É um trabalho paralelo às nossas carreiras, porém divertido. E se o Herbert quiser retomar o Lado Z... (um projeto dos dois, bem informal, onde tocariam, em lugares pequenos, músicas não conhecidas).
- O que é o Lado Z?
Herbert: É um projeto que sonhamos, mas não para concorrer com as nossas carreiras. Uma maneira despretensiosa que encontramos de apresentar músicas não conhecidas, mas prazerosas. O lema é a informalidade. Também tenho pensado muito em retomar esse projeto.