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Brega é rir do brega

Discriminados nos anos 70 e 80, artistas populares como Odair José e Sidney Magal viram referência para as novas gerações

Nelson Gobbi

Ao subir no palco com Odair José para interpretar Eu vou tirar você desse lugar, no espetáculo Phono 73, com a nata da MPB, no Palácio do Anhembi (SP), em plena Censura militar, Caetano Veloso ouviu uma vaia retumbante de todo o público presente. Nos dias de hoje, Odair José, autor de pérolas como Amor de secretária e Eu, você e o sofá, provavelmente seria tão aclamado quanto o mentor do tropicalismo – que nos últimos anos gravou sucessos de outros artistas populares, como Peninha (Sozinho) e Fernando Mendes (Você não me ensinou a te esquecer). A aproximação do ícone baiano com o universo da música rotulada de brega é um dos sintomas mais evidentes da diminuição de preconceito no meio musical em relação ao segmento que concentra alguns dos maiores vendedores de discos do país.

A valorização dessa música antes desprezada pelas elites, trouxe de volta aos holofotes artistas como Sidney Magal e o próprio Odair José.

O primeiro tornou-se um dos símbolos do revival oitentista, sem deixar de lado sua porção ator: com passagem pelo cinema, pode ser visto como o personagem Zorrô de Bangue bangue, novela da Globo das 19h. Essa visibilidade motivou o lançamento de CD e DVD ao vivo, no qual Magal interpreta desde hits como Meu sangue ferve por você e Sandra Rosa Madalena, a cigana até temas de Ivan Lins (Ai, ai, ai, ai), Lulu Santos (Adivinha o quê?) e do grupo francês da era disco Santa Esmeralda (Don’t let me be misunderstood).

Já Odair José ganhou recentemente um disco tributo onde nomes de peso do pop-rock, como Pato Fu, Zeca Baleiro, Mombojó e Mundo Livre S.A, fazem sinceras releituras de sucessos e temas obscuros de sua carreira. Aproveitando a celebração, Odair lançou um CD de inéditas, Só pode ser amor, pela Deckdisc, gravadora identificada com o cenário musical independente.

Mas a boa fase da música (realmente) popular brasileira não se restringe a recuperar ídolos do passado. Artistas e bandas de gerações mais recentes bebem na fonte do que antes era considerado mau gosto, extraindo daí referências para cruzarem com elementos contemporâneos. Trata-se de um movimento estético no qual o brega digere a si próprio, gerando o metabrega, que ultrapassa barreiras sociais e culturais para atingir um público amplo.

– Alguns fatores contribuem para a mudança de enfoque sobre os artistas populares, desde a atual cultuação dos anos 80 até o sucesso de um filme sobre cantores sertanejos como 2 filhos de Francisco. Muitos jovens que estão montando bandas querem saber onde podem encontrar discos do Odair ou do Waldick Soriano, quase todos fora de catálogo. Hoje, um álbum desses artistas, que sequer seria ouvido por um crítico musical, já é analisado com atenção – diz Paulo César de Araújo, autor do livro Eu não sou cachorro, não, sobre a importância social e cultural dos artistas bregas na história da música brasileira.

Odair José concorda que está sendo tratado com muito menos preconceito pelos meios de comunicação do que no auge de sua carreira, na década de 70, quando a música Uma vida só (Pare de tomar a pílula) se tornou um sucesso.

– Às vezes, escrever uma música simples, sobre o cotidiano de empregadas domésticas ou de uma prostituta, é mais difícil do que compor algo considerado complexo. Minhas músicas falam de amor, de paixão, os mesmos temas de Vinicius de Moraes. E, no entanto, ele não era considerado brega, por ser aceito pela classe alta. Mas estes rótulos são mais importantes para quem os faz do que para quem é rotulado. Grande parte do meu público é formado por jovens. Sei que eles têm a cabeça mais aberta para todo tipo de música, não se deixam levar pelo preconceito – garante o cantor.

Sidney Magal também afirma que os jovens são a maioria em suas apresentações Brasil afora. O cantor e ator se lembra de uma época em que recebia um tratamento bem diferente dessa parcela do público:

– Cansei de ouvir a garotada mexendo comigo na rua, mas nunca dei importância. Outro dia estava em São Paulo e um grupo de punks veio em minha direção. No começo achei que ia ser linchado, mas eles me cumprimentaram e tiraram fotos comigo.

O cantor Wander Wildner, vocalista de um dos primeiros grupos de punk rock nacionais, os Replicantes, sabe que os dois extremos musicais nunca estiveram longe. O gaúcho define seu estilo como punk-brega, por juntar ao rock suas primeiras referências musicais: a Jovem Guarda e os artistas populares dos anos 70.

– Sei que muita gente acha brega o estilo como vivo e me visto, mas, na verdade, eu é que “tiro sarro” com eles. Tenho um estilo especial. Prefiro me vestir de uma maneira singular a usar os uniformes das tribos de jovens. Ou será que existe algo mais brega que tênis All-Star, calça jeans e camisa dos Ramones? – alfineta Wildner.


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[15/ABR/2006]


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