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Irresistível Miró

Mostra de gravuras do artista espanhol, aberta hoje em Niterói, inaugura quadro raro de exposições internacionais à disposição dos cariocas

Bianca Tinoco

Duas exposições de ícones da arte no século 20, unidas pelo acaso à beira da Baía de Guanabara, constituem, a partir de hoje, uma oferta rara para o público carioca. O Museu de Arte Moderna (MAM), no Parque do Flamengo, exibe até 21 de maio Roy Lichtenstein – vida animada, a primeira retrospectiva do artista pop americano a passar pelo Brasil, com 78 desenhos e colagens produzidos ao longo de 50 anos. Igualmente colorido e ousado, o trabalho em gravura do catalão Joan Miró (1893-1983), um dos expoentes da pintura européia moderna, será apresentado a partir de hoje no Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Niterói, com a exposição ¡Mirabolante Miró!. Composta de 172 gravuras em diferentes técnicas, 25 pôsteres e livros ilustrados, a mostra saída do acervo da prestigiosa Galeria Lelong, de Paris, é considerada a mais completa dedicada à obra sobre papel do artista. A mostra representa uma oportunidade e, pode ser a única, de acesso do público do Rio a este acervo museológico internacional.

Patrocinada pelo Banco Santander Banespa, ¡Mirabolante Miró! abre o Encontro com Espanha – festival com 250 atrações sobre esse país –, do outro lado da Ponte Rio-Niterói. A panorâmica demonstra a maturidade no vocabulário de símbolos e na expressão gráfica de Miró nos últimos 20 anos de trabalho, com gravuras de até 1,60m x 1,30m. O domínio do traço e da cor dá o tom da montagem, organizada pelo francês Jean Frémont, curador da Galeria Lelong, e pelos brasileiros Fábio Magalhães e Leonel Kaz – este último, responsável pela montagem no MAC. Para Kaz, Niterói abriga uma oportunidade única para se ver de perto a obra gráfica do espanhol.

– Miró é um dos raros artistas cujas gravuras são tão importante quanto a pintura, tal a singularidade da produção em papel. Ele explorou um grande número de técnicas, com experimentos em xilogravura, litografia e metal, e deu à gravura uma personalidade distinta da pintura e igualmente intensa – diz Kaz.

Em Niterói, o clima é esfuziante: trata-se da primeira mostra internacional do museu e a entrada, excepcionalmente, é gratuita este mês. A exposição, que não tinha perspectivas de vir para o Rio quando estreou no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, em dezembro, começou a ser negociada com o MAC em janeiro. O secretário de Cultura de Niterói, Marcos Gomes, aguarda pelo menos 100 mil pessoas nos quase dois meses da mostra (ela fica em cartaz até 4 de junho).

Uma expectativa arriscada, considerando-se que a visitação do MAC durante todo o ano passado foi de pouco mais de 121 mil visitantes. Mas possível, uma vez que Miró atraiu 190 mil visitantes em Porto Alegre, onde a mostra começou sua itinerância.

– Não há lugar mais correto para expor Miró no Rio do que o MAC. É uma obra de Oscar Niemeyer, que conheceu o artista pessoalmente, e há um diálogo claro entre os dois. A visitação do MAC vai ter um aumento que não dá para calcular – aposta Gomes.

O secretário nega que ainda exista hoje uma certa resistência dos cariocas em relação à cidade, que poderia prejudicar os planos de visitação recorde do museu.

– Stanislaw Ponte Preta brincava com Niterói, mas isso já acabou, o MAC tem uma visitação imensa de moradores do Rio. É impressionante que, ao lado da capital cultural do estado, Niterói consiga manter uma identidade própria e atraente. As grandes capitais costumam abafar seu entorno. Mas aqui temos atrativos incomparáveis – diz Gomes.

Leonel Kaz também defende que o fato de a exposição ser em Niterói só traz benefícios:

– Por que não Niterói? É ótimo que Porto Alegre possa ser um pólo irradiador de cultura, por meio da criação desta exposição, e que Niterói possa ser um pólo receptor. Quanto mais nos desvencilharmos da dicotomia Rio-São Paulo, mais podemos receber exposições como esta.

Nas ruas e espaços culturais do Centro do Rio, anteontem, o pensamento era parecido. A maior parte dos cariocas ouvidos pelo JB afirmou que não sabia da exposição em Niterói até então. Mas todos gostam do artista e viram com entusiasmo a vinda da mostra para a cidade vizinha. Praticamente todos já estiveram no MAC. O único que não conhece o museu, entre os consultados, é o guarda municipal Jeferson Souza da Silva, morador de Bangu. Por falta de condições.

– Adoro visitar exposições, mas não tenho carro – diz o guarda de 35 anos.

Ele presta serviço em frente ao Centro Cultural Banco do Brasil e concedeu a entrevista enquanto observava a exposição Erótica, no local. Também em meio ao público do CCBB, as amigas Adriana Kozak, de Jacarepaguá, e Dircilene Paixão, do Méier, já sabiam da ida de Miró para Niterói e se mostraram empolgadas para atravessar a baía.

– Estou me informando sobre a exposição há muito tempo, pela internet – conta Adriana, assistente social de 32 anos que visitou o MAC no fim do ano passado, para ver a mostra Por que museu?, de Nelson Leirner.

– Ficar perto de toda essa beleza é uma delícia. Somos caçadoras de exposição, corremos atrás da arte – diz Dircilene, bancária de 33 anos.

O arquiteto André Alvarenga, morador de Copacabana, conta que já foi muitas vezes ao MAC para mostrar o prédio desenhado por Oscar Niemeyer a grupos de profissionais estrangeiros. Ele animou-se ao saber da mostra de Miró e diz que, desta vez, está mais atraído pela arte do que pela edificação – cuja vista, alimentando a rixa entre niteroienses e cariocas, mostra a beleza do litoral do Rio.

– É uma rivalidade levada na esportiva, uma brincadeira, nada que se compare ao antagonismo entre brasileiros e argentinos. Miró pode ser um antídoto contra o preconceito em relação à cidade e para que o museu de Niterói seja observado com outros olhos. Não só como um prédio interessante, mas como um importante espaço de arte – ressalta Alvarenga.

Lanchando no café do Paço Imperial, a tradutora Beatriz Horta e o intérprete de idiomas Marcos Pereira admitem que visitaram o MAC em ocasiões anteriores devido ao formato arrojado do museu. Fãs de Miró, mal souberam da abertura da mostra, os dois já começaram a programar uma visita a Niterói.

– É um local belíssimo e a exposição de Miró deve estar imperdível. Niterói não é assim tão longe quanto os cariocas pensam. Nós vamos sim – garante Pereira.


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[08/ABR/2006]


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