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O novo bonde do funk
Incensada pela revista 'Rolling Stone', mas desconhecida dos brasileiros, a banda curitibana Bonde do Rolê agenda shows nos EUA antes de lançar o primeiro disco
Vivian Rangel
Os metaleiros garantem que os integrantes do Bonde do Rolê vão de Curitiba direto para o inferno. Os roqueiros indies, ao contrário, adoram. Divertem-se ao reconhecer os samples de clássicos do rock e da eletrônica entre as batidas do funk. Indicado pela revista americana Rolling Stone como uma das dez bandas do momento e citado pela bíblia musical britânica NME, o grupo já habita as picapes vanguardistas dos EUA, enquanto no Brasil é quase desconhecido. Apadrinhada pelo celebrado DJ e produtor americano Diplo – um dos maiores entusiastas do funk brasileiro – a banda prepara o primeiro disco e já tem até shows agendados nos EUA e Canadá. Uma mistura de punk rock, batidão e letras toscas. Muito toscas.
Criado no ano passado, o Bonde do Rolê é fruto do fracasso de Rodrigo Gorky, 25, Pedro D’eyrot, 22, e Marina Ribatski, 21, todos estudantes radicados em Curitiba, em montar uma banda de eletro. Na primeira reunião do grupo, turbinados por doses de vodca, os meninos deixaram o eletro de lado e começaram a brincar com samples e letras pornográfico-nonsense. Foi o clima perfeito para compor a Dança da ventuinha, com riff de I believe in a thing called love, do The Darkness, e letra sobre meninas “que tomam catuaba e ficam no grau para começar o pancadão”. A saga das “garotas freakshow” começou a circular nas festas em que Rodrigo e Pedro discotecam, reduto de roqueiros de classe média que jamais frequentariam bailes funks em morros cariocas. – Tocamos a música em uma festa no meio do ano passado e eu aproveitei para apresentar a banda. No fim da noite vieram convidar o Bonde para fazer um show. Eu aceitei, claro. Só que a gente não tinha nada pronto – relembra Rodrigo. Foram três semanas isolados na casa de Rodrigo, em Curitiba, até a brincadeira alcoolizada evoluir para dez composições. Rodrigo e Pedro, que há anos trabalham com samples e são fãs de rock alternativo, e Marina, que já foi vocalista de bandas de rock, criaram músicas como a Melô do tabaco, Cai nimim e a genial Melô do vitiligo. Samples de Alice in Chains, AC/DC, Smashing Pumpkins e Miss Kittin com base de funk. Funk cru, pancadão mesmo. O próximo passo foi disponilibizar algumas canções no Myspace, uma rede de músicos que inclui perfil, MP3s, fotos e espaço para comentários. Fora do meio virtual, Rodrigo e Pedro testavam a reação do público na festa Big Mutha, onde quatro DJs duelam pela atenção do grupo em set lists animados. As músicas do Bonde do Rolê não deixavam os tênis All Stars parados. Mas estavam longe da unanimidade. Enquanto o público alternativo passava brevemente pelo susto inicial das letras escatológicas típicas do funk para em seguida se divertir com as referências musicais do rock, os puristas metaleiros e funkeiros não prestigiaram o grupo. Em uma das apresentações, um dos cabeludos metaleiros veio tirar satisfações quando Rodrigo teve a ousadia de tocar Tira a camizero, um mash-up (combinação de duas músicas de forma inusitada), mistura do funk que incita os dançantes a tirar a blusa, e o sample de Zero, do grupo americano Smashing Pumpkins. – Nem todos entendem a piada – admite Rodrigo. – Tentei explicar que sou fã dos Pumpkins desde o Siamese dream (segundo disco da banda), mas não adiantou. Ele foi embora revoltado, com vontade de matar a gente – diverte-se Rodrigo. Em uma apresentação na Pancadão Lov.e, em São Paulo, quando tocaram depois do DJ Malboro, o público não entendeu a presença de uma branquela desajeitada onde deveria haver uma popozuda. Marina – que tem polainas dos anos 80 no armário e é fã de trash dance como as músicas de Corona – quase levou vaia. A vocalista de cabelos pink, reverenciada no Orkut pela comunidade “A Marina é bizarra!”, escutou do palco reclamações sobre sua inabilidade rebolativa. Pedro, que também é adepto de shortinhos Adidas retrô, foi atingido por maços de cigarros vindos do público. No final de outubro, quando Diplo veio ao Rio para tocar com a namorada MIA – a inglesa que mistura ragga jamaicano e funk carioca – no TIM Festival, o país conferiu o sucesso do pancadão entre os falantes de língua inglesa. No mês seguinte, o DJ americano excursionou pelo Brasil tocando e descobrindo novos contornos do funk. Entre eles, o Bonde do Rolê. O encontro aconteceu depois que Fred Endres, músico da Comunidade Nin Jitsu e amigo do trio, levou um CD do Bonde ao DJ. Diplo não só conhecia algumas músicas da internet como já havia tocado a Melô do tabaco em um de seus shows. Das apresentações e conversas musicais nasceu o projeto do disco, ainda sem nome definido. O álbum inaugural é também a estréia do selo Mad Decent, criado por Diplo “para lançar músicas de todo o mundo”. As primeiras gravações saíram em EPs para DJs e CDs promo. Isso porque o uso dos samples, conforme é lembrado na reportagem da Rolling Stone sobre o Bonde, “está totalmente fora das leis de direito autoral americanas”. – Lançamos em versão limitada para não dar “treta” – reconhece Rodrigo. – Mas estamos gravando o primeiro disco com o Diplo sem os samples. A ausência dos samples pode soar um tanto estranha para quem já conhece a banda e vibra ao ouvir “vem dar uma reboladinha”, pouco antes do riff de Alice in chains. A solução encontrada, explica Pedro, foi buscar outras referências musicais. – O sample conquista fácil, mas como não podemos usar sem processos, estamos buscando a sensação do “eu conheço isso” com outras brincadeiras. Com seqüências conhecidas, como do-re-mi-fá. Burilando novas composições, o trio experimentou traduzir algumas letras para o inglês. Canções como a Melô do caldinho, onde uma experiência sexual escatológica com sexo oral é detalhada. Diplo foi taxativo: nada de palavrões ou bizarrices em inglês. – Eles não fazem a menor idéia do que estamos cantando – garante Rodrigo. – O som faz sucesso lá fora porque lembra o hip hop e rap antigos, é um estilo divertido. Algo entre o Miame Bass com um vocal mais melódico, mais engraçado – detalha Pedro. Longe de pertencerem ao bonde de Deize Tigrona e Mr. Catra, sucessos no exterior com batidas funk e letras libidinosas, o Bonde do Rolê investe mesmo é na diversão. Embaralham “brilhantismo e palhaçada”, como definiu o NME. Assessorados por Diplo e acompanhados do grupo Cansei de Ser Sexy, paulistas que também apostam no estilo tosco, eles se apresentam nos EUA e Canadá em julho e agosto. Com possível temporada no Velho Continente no mês que vem. Inéditos no Rio, os meninos esperam convites. Antes que a piada perca a graça.
[06/ABR/2006]
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