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A encarnação da própria fama

Daniel Day-Lewis, que interpreta um hippie ermitão em 'O mundo de Jack e Rose', recusa reputação de recluso

Carlos Helí de Almeida

Entre as muitas reputações atribuídas a Daniel Day-Lewis, a mais acurada delas talvez seja a que o descreve como um ator extremamente seletivo em relação ao trabalho. Basta lembrar que o ganhador do Oscar (por sua atuação em Meu pé esquerdo, de 1989) participou de apenas 12 filmes nas duas últimas décadas. É preciso que o projeto em questão tenha algo muito especial a oferecer para atraí-lo de novo a um set de filmagem. No caso de O mundo de Jack e Rose, o primeiro trabalho do ator britânico desde Gangues de Nova York (2002), de Martin Scorsese, que estréia no circuito carioca na próxima sexta, este algo especial chama-se Rebecca Miller, diretora e roteirista do filme e mulher de Day-Lewis.

Rebecca é filha do dramaturgo americano Arthur Miller, falecido em fevereiro passado, aos 89 anos de idade, em função de problemas cardíacos. Ela e Day-Lewis se conheceram durante as filmagens the As feiticeiras de Salém (1996), produção dirigida por Nicholas Hytner a partir da peça homônima de Arthur Miller e adaptada para as telas pelo próprio autor de A morte do caixeiro viajante. Os dois estão juntos desde então e já têm dois filhos - o ator tem um terceiro, fruto de antigo e conturbado relacionamento com a atriz francesa Isabelle Adjani. Day-Lewis garante, no entanto, que o seu interesse por O mundo de Jack e Rose vai além dos laços domésticos e afetivos.

- Sempre me pergunto se devo ou não aceitar esta ou aquela proposta de trabalho, se realmente vale a pena o esforço e o tempo dedicados a ele. Mas não no caso de um roteiro como o de O mundo de Jack e Rose, que é extremamente atraente e gera uma curiosidade enorme em relação aos personagens e pela história. Às vezes, é difícil resistir a um filme quando o seu conteúdo e as experiências que ele descreve são tão poderosas - elogiou o ator de 47 anos, ao lado da mulher, durante o Festival de Marrakech (Marrocos), em novembro passado, de onde saiu com o prêmio de melhor interpretação masculina.

No filme, Day-Lewis encarna Jack Slavin, um viúvo idealista que vive nos escombros dos ideais de uma comunidade alternativa criada nos anos 60, em uma ilha na Costa Leste dos Estados Unidos. Ele reluta em abandonar as antigas regras de trabalho comunitário, isolando-se em sua propriedade com a filha adolescente de 16 anos (vivida pela jovem Camille Belle). Jack é fruto da geração flower power, acredita nos perigos da produção em massa e vive em guerra com os corretores e construtores de imóveis na região. Ao descobrir-se portador de uma doença terminal, o sujeito decide ampliar os horizontes da filha, trazendo para dentro de casa a eventual amante (Catherine Keener) e os filhos dela.

Rebecca trabalhou no roteiro de O mundo de Jack e Rose por quase uma década. Ela não vê qualquer anacronismo na história de um personagem com espírito hippie que resiste ao modo de vida consumista e globalizado.

- Foram relatadas descobertas de várias comunidades alternativas nos Estados Unidos ao longo dos últimos 30 anos - garante a diretora.

- Lembro de que um caso famoso, corrido há uns 24 anos atrás, de um grupo de pesquisadores do Reino Unido que, ao vasculhar a região florestal do País de Gales, descobriram lá uma comunidade formada por cientistas e arquitetos e suas famílias, e do qual nunca ouviram falar antes - corrobora o ator.

O mundo de Jack e Rose é o terceiro longa-metragem de Rebecca, que se lançou com diretora com o modesto e pouco visto Angela (1995). A diretora voltaria a atrair a atenção internacional com o drama O tempo de cada um (2002), que ganhou o prêmio do júri do Sundance Film Festival. Mas é preciso mais do que reconhecimento profissional e sobrenome famoso para conseguir apoio de potenciais produtores para realizar um filme que sugere a existência de um desejo incestuoso numa história entre um pai e filha, como é o caso de O mundo de Jack e Rose.

- Levei anos escrevendo e reescrevendo o roteiro, porque queria que cada personagem tivesse sua própria história, e construir este arco de tipos exigiu muito de meu tempo. Não posso negar, no entanto, que o filme demorou a se concretizar porque ninguém estava interessado em envolver o nome em um projeto sobre o relacionamento entre pai e filha desta intensidade - afirma a diretora.

Ela diz não ter escrito o papel de Jack com o marido na cabeça.

- Nunca escrevo um roteiro pensando em um determinado ator para o papel, porque o resultado costuma ser frustrante.

Day-Lewis conta que levou alguns meses para aceitar a proposta da mulher. Segundo o ator, o papel exigiria uma entrega tão ou mais profunda que os seus personagens anteriores. Jack o assustava porque alguns aspectos lhe pareciam muito próximos. O internato onde estudou na adolescência, que era quase uma comunidade hippie, estava cheio deles. Havia também o fato de Jack ser definido como um ermitão, descrição usada com freqüência pela imprensa quando se referem ao próprio estilo de vida do ator. Carapuça, aliás, que Day-Lewis se recusa a usar.

- Reclusão implica em viver distante dos outros ou se escondendo de alguma coisa. Não me vejo como alguém assim. Apenas vivo em outro lugar quando não estou trabalhando, o que é diferente. Não fico diante das câmeras o tempo todo. Minha reputação tem sido fundamentada em diversos tipos de rumores e ouvi-dizer e em todo tipo de lixo para o qual eu realmente tento não contribuir mas, que diabos, a gente acaba seguindo a corrente, no final, se isso deixa as pessoas felizes - resigna-se o astro de A insustentável leveza do ser (1987).

Day-Lewis é dono de um raro e estranho método de entrega ao trabalho. Quando interpretou Gerry Conton em Em nome do pai (1993), ele continuou a falar com os maneirismos do líder nacionalista por quase seis meses depois da conclusão do filme. Durante as preparações e as filmagens de Meu pé esquerdo (1989), no qual interpreta um jovem com paralisia degenerativa, fez questão de usar cadeiras de rodas nos intervalos entre as tomadas, e mesmo quando ia a restaurantes. Para reproduzir as experiências do recluso de O mundo de Jack e Rose, Day-Lewis passou semanas sozinho em uma casa alugada a três quilômetros de distância de Rebecca e da equipe do filme. Esse exaustivo método de caracterização, diz o ator, faz com ele se sinta física e mentalmente drenado. Isso explicaria, em parte, os grandes intervalos longe das telas:

- Muitos discordam de mim, mas digo, sem nenhum sentimento de superioridade, que alguns atores se sentem confortáveis pela experiência do trabalho em si e, contentes, se metem em um filme atrás do outro. É assim que a vida deles funciona. Minha vivência é diferente. Ainda sinto apetite pelo trabalho que faço da mesma forma que os outros, mas esse apetite somente aparece em períodos específicos de tempo.


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[03/ABR/2006]


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