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Sobre o lugar-comum
Carlos Contente usa conceitos da história da arte em exposição na galeria A Gentil Carioca
Cleusa Maria
Seu corpo é testemunha da arte que ele faz. No braço esquerdo e na panturrilha direita, o artista plástico Carlos Contente tatuou o quadrado suprematista do russo Kasimir Malevich - que propunha em sua pesquisa a abstração por meio de formas e cores puras. No ombro direito, tatuou duas vezes a mesma imagem de uma musa renascentista, para reforçar o caráter de clichê, através do qual aborda as questões da história da arte. E sobre a clavícula e a omoplata, carimbou o auto-retrato simplificado, uma constante em seu trabalho desde o início, em 2002.
- Os conceitos do meu trabalho estão tatuados em meu corpo - confirma Contente, 28 anos, dono de um corpo franzino e de uma das cabeças mais interessantes entre os artistas cariocas da novíssima geração.
Tudo o que ele carrega sobre a pele faz parte de sua apresentação individual, a primeira em uma uma galeria comercial: a exposição Contente tende a infinito, inaugurada sábado na Gentil Carioca, no Centro do Rio. A montagem reúne desenhos, pinturas, esculturas e objetos realizados a partir de suportes que pertencem ao seu cotidiano. Assim como de coisas achadas na rua e idéias que ele garimpa no ''lixão'' da história da arte.
- Tudo isso está ligado ao auto-retrato que tenho usado em forma de carimbo, desde 2002. A idéia de infinito vem como desdobramento da repetição, supondo-se que eu pudesse continuar carimbando infinitamente. O que é uma idéia romântica de se chegar ao absoluto, ao sublime, pois somos finitos e temos uma temporalidade. É uma referência também ao conceito matemático de certos resultados tenderem necessariamente ao infinito - explica o artista, graduado em pintura pela Escola de Belas Artes da UFRJ.
Há quatro anos, Carlos Contente vem trabalhando em espaços urbanos com a repetição desse auto-retrato simplificado (utilizando carimbo e estêncil). Ano passado, o artista mereceu uma exibição solo, na coletiva de individuais que reuniu um grupo de artistas no Paço Imperial, além de ter levado o prêmio Entel, da Bienal Internacional Siart de La Paz, Bolívia. Ao longo do tempo, ele foi incorporando ao trabalho questões e conceitos da história da arte, abordados sempre por meio do clichê, como é o caso do próprio retrato que se repete em tamanhos diferentes no corredor da Gentil, na porta da galeria, em paredes e pisos. Outro tema histórico da pintura, a pincelada rendeu um dos trabalhos mais provocativos da mostra: a série Entrevista com o Verde - inspirada na obra Pincelada branca, de Roy Lichtenstein (artista atualmente em cartaz no Museu de Arte Moderna).
- O trabalho composto de 44 desenhos em pequenos formatos, como se fosse um storyboard para animação, simula um talk show, no qual meu retrato entrevista a cor verde. Os dois discutem questões de pintura, existenciais e políticas - disseca Contente.
Na exposição Tende a infinito, que pode ser vista na galeria até 29 de abril, ele faz referências também à figura recorrente da musa, valendo-se de um carimbo que traz o detalhe de uma obra renascentista, recebido de presente da amiga e também artista plástica Adrianna Eu. Em uma das paredes, a estampa ocupa o posto de curadora da mostra e apresenta a exposição no texto crítico, que sempre acompanha as exposições. Só que, desta vez, a apresentação foi manuscrita na parede.
Além dos trabalhos propriamente ditos, o artista transportou seu ateliê do Morro da Conceição para dentro da galeria. E não só o arquivo de gavetas amassadas, os livros, a caixa de ferramenta, os enfeites, mas também a atmosfera do espaço de criação. Afinal, ele praticamente se mudou para a Gentil, onde dormia e passava os dias na fase final da montagem. Um detalhe chama a atenção no ambiente: a prancha de surf com o auto-retrato em spray. Ele conta que, desde a escola de arte, disse adeus ao surf nas ondas de Cabo Frio.
- È o único esporte que curto, porque é solitário e me permite refletir. Mas agora só penso em arte, arte. Virei um sedentário - comenta Contente, que tira ''o cascalho'' do dia-a-dia dando aulas de arte e prestando monitorias em exposições de museus.
[27/MAR/2006]
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