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A honorável Laura Sandroni em Bolonha


Antônio Torres

Não é de hoje que a Europa se curva (sem ironia, por favor), à criatividade dos autores brasileiros de literatura para crianças e jovens. Basta lembrar, por exemplo, o reconhecimento internacional ao talento de Ana Maria Machado e Lygia Bojunga, que já foram agraciadas com o Prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel desta categoria. E elas têm cadeira cativa em feiras e demais eventos do gênero, em muitos cantos do mundo, em que são traduzidas, assim como Ziraldo, Ruth Rocha, Marina Colasanti e a finada Sylvia Orthof.

No Brasil, as sucessoras e sucessores de Monteiro Lobato - outro grande nome nacional chama-se Pedro Bandeira - são verdadeiros ídolos para o público a que seus livros se destinam. Ainda me recordo da popularidade deles aqui em casa, quando os meus filhos eram pequenos. E digo isto com todo um sentimento de gratidão, pelo que esses criadores contribuem para a formação de leitores, sem os quais não se faz um país civilizado, sabemos todos.

Agora, chegou a vez de Laura Sandroni ser a estrela nesta história. No próximo dia 27, na Feira de Bolonha, Itália, ela será recebida como Honorable Member do International board on books for youngs people, cuja comissão abrange 64 países. E na privilegiada condição de primeira latino-americana a fazer parte de um seleto grupo de honoráveis.

A nossa honorável Laura, carioca nata, no sentido lato do Cosme Velho, e com uma ascendência pernambucana, fez por merecer esta alta distinção. Trata-se de quem criou, em 23 de março de 1968 - arregimentando adesões, naturalmente -, a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, dirigindo-a por 16 anos. A data é importante, porque marcou a divisão de águas do setor. Foi a partir daí que ele cresceu e apareceu, até chegar ao status que o projetou mundialmente, graças a uma profícua mobilização em editoras, escolas, universidades, imprensa, instituição de prêmios, realização de simpósios. Os esforços nesse sentido continuaram nas gestões de Glória Pondé, Eliana Yunes e Elizabeth Serra, esta, a atual diretora da FNLIJ, que hoje possui o maior acervo de obras infanto-juvenis da América Latina.

Mesmo depois de passar 11 anos na Fundação Roberto Marinho, onde criaria a Ciranda de Livros, que a levou a viajar por todo o país, Laura Sandroni voltaria à sua menina-dos-olhos, de forma voluntária. Nesse entretempo, escreveu muito. O conjunto da sua obra inclui os títulos De Lobato a Bojunga: as reinações renovadas (que acaba de ganhar uma nova edição pela editora Agir), A criança e o livro (um guia prático de ensino à leitura), da Ática, e Ao longo do caminho (uma seleção de críticas semanais em O Globo, de 1975 a 2002), publicada pela Moderna, além de traduções importantes.

E isto não é tudo. Nos anos 70, junto com Cícero Sandroni, seu marido, Eglê Malheiros, Salim Miguel e Fausto Cunha, Laura foi editora da revista Ficção, que deu vez e voz a contistas inéditos e consagrados. E que atualmente vem sendo tema de teses acadêmicas.

Na era da Ficção, e tempos mais à frente, conheci em sua casa uma floração artística memorável. Laura e Cícero sempre encontravam um bom motivo para reunir as cabeças mais criativas da cidade, ou que nela estavam chegando: editores, escritores, agentes literários. Num desses encontros, um famoso tradutor de Guimarães Rosa entusiasmou-se tanto pela caipirinha, a ponto de ficar parecendo um pianista velho, bêbado e genial.

Agora é Bolonha quem vai festejá-la. Ela merece.


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[18/MAR/2006]


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