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Para ficar no mapa

Novos queridinhos do rock britânico, escoceses do Franz Ferdinand se preparam para tocar no Brasil e baixista do grupo garante que eles não são mais uma sensação passageira

João Bernardo Caldeira

Um dos grupos mais badalados do Reino Unido junto com a banda mais criativa e celebrada do planeta nos últimos tempos. É até covardia juntar ao épico grupo irlandês U2 a sensação Franz Ferdinand, que se apresentam nos dias 20 e 21 deste mês, no estádio do Morumbi, em São Paulo. Os cariocas poderão ver o grupo escocês no dia 23, no Circo Voador. Mas os ingressos para todas as três noites já estão esgotados. OK, OK, leitor, é verdade que todos os dias a imprensa britânica inventa a melhor banda de todos os tempos da última semana. Mas a sonoridade do Franz Ferdinand, é certo, veio para ficar.

Pelo menos é o que acredita Bob Hardy, baixista do grupo. Só que ele defende o poder de permanência de seu trabalho com um típico ar blazé british (sim, o Franz é escocês, mas o rapaz nasceu em Yorkshire, Inglaterra, mesmo país do cantor e guitarrista Alex Kapranos):

– Tenho certeza de que algumas pessoas ainda vão ter alguma referência a nosso respeito. Elas já compraram os discos...

O CD de estréia, batizado de Franz Ferdinand, foi impulsionado por um sucesso de alcance mundial, Take me out, presente em qualquer pista roqueira que se preze, qualquer Bukowski (o inferninho rock ’n’roll de Botafogo) do mundo. Poderia ficar por aí, se não tivesse chegado às lojas, ano passado, You could have it so much better (Trama), o segundo álbum. As faixas são muito mais variadas entre si, há uma balada delicada como Eleanor put your boots on, uma mistura explosiva de sonoridades de U2 e Beatles em What you meant e mais um candidato a hit dançante, Do you want to. Muito diferente do primeiro CD, de levadas muito mais repetitivas e, por que não dizer?, entediantes. Sorry Bob...

– Você não precisa se desculpar, eu concordo totalmente e também prefiro o segundo.

Ah é?

– É, acho que ele representa mais acertadamente a diversidade do nosso gosto musical. Afinal, somos quatro indivíduos diferentes. O primeiro álbum era muito dum, dum, dum, muito pista de dança e cheio de batidas – reconhece o rapaz, de 25 anos.

Conforme combinado com a gravadora Trama, dez para meia-noite de anteontem o repórter telefonou para o Hotel Okura, em Tóquio, Japão, chamando por “Captain Mistery”, hospedado em um quarto que custa cerca de US$ 350 dólares por noite, informa a recepção. A banda tocou ontem no Nippon Budokan Hall, mesmo local em que os Beatles fizeram seu antológico show de estréia no país, em 1966. Pois é, é duro ser um Franz Ferdinand, fazer bons discos, pegar um avião atrás do outro, dar entrevistas para o Brasil logo ao acordar ao meio-dia enquanto ainda limpa o sono dos olhos.

Difícil mesmo foi entrar em estúdio para gravar o segundo disco, debaixo da enorme pressão. No DVD bônus lançado junto com You could have it so much better, Alex, autor das letras do segundo trabalho, jura que a cobrança parte deles mesmos e não de fora. Bob concorda:

– Quando você está num estúdio compondo não passa na cabeça o que o NME (tablóide de rock britânico) vai pensar. Não fazemis música para jornalista.

Nós sabemos, Bob, mas um rockstar passa a ter gordo saldo bancário, a freqüentar festas bacanas e pode temer decepcionar seus fãs e amigos e perder tudo isso. Right?

– Não, eu não me sinto diferente como pessoa. Sinto-me ainda como aquele estudante (graduado na Glasgow School of Art) que lavava louça. Se não der certo eu posso simplesmente voltar para a minha vida anterior. Deve haver bandas que ficam aterrorizadas em gravar um disco que não faça sucesso. Mas o segredo é fazer um disco de que você goste, pois mesmo que ninguém mais goste você não vai sair perdendo – responde.

Para recobrar o espírito do início, Bob, Alex, Nick McCarthy (guitarrista) e Paul Thomson (baterista) se enfurnaram na casa do vocalista para gravar o segundo trabalho, num ambiente campestre, ao sul de Glasgow.

– Quando você faz algum sucesso já querem que você grave num estúdio de equipamento surpreendente onde se gastam milhares de libras. E isso não ajuda em nada na criatividade. Então fomos para a casa do Alex, um lugar em que há castelos em volta. Nas primeiras semanas ficamos só bebendo vinho, fazendo bagunça e ouvindo música – se diverte.

Tudo bem, o Franz passou no teste “grupo-de-um-disco só”. Mas há tanta gente de talento duvidoso... Ninguém duvida do potencial dos novatos, mas é cansativo ouvir a imprensa inglesa elegendo um novo herói por segundo, como Eletric Six, The Coral, Interpol, Strokes, White Stripes, Arcade Fire, Bloc Party, Kaiser Chiefs, The Magic Numbers, The Bravery, Artic Monkeys... O joio precisa ser separado do trigo, já que por vezes as referências são as mesmas: há traços de Coldplay, U2 ou The Cure, e o ouvinte não distingue cada identidade.

– Eu discordo. Todas as bandas que você citou possuem canções impressionantes. O Kaiser Chiefs, por exemplo, é pop e excitante, enquanto o Bloc Party é mais sério e dark. Elas são muito diferentes, e não vejo nada de errado em se considerar essa uma cena musical saudável. É assim que as coisas podem crescer ainda mais – sonha o baixista, vislumbrando um Reino Unido ainda mais decisivo no mapa georroqueiro mundial.

LEIA MAIS SOBRE A ENTREVISTA NO BLOG ‘MÚSICA EM QUESTÃO’ (WWW.JBLOG.COM.BR)


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[11/FEV/2006]


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