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Com a marca do enredo


Analista radical, Luís Carlos Magalhães criou até uma classificação: quando a escola junta (a força) duas letras de autores diferentes em um só, é samba ''misturado''. Quando junta várias, ''liqüidificado''. Isso explica, algumas vezes, as imensas listas de compositores na ficha técnica. O vocabulário do radialista tem ainda o samba ''rejeitado'' (recusado pelo carnavalesco), o ''modificado'' (que é melhorado por sugestões de membros da escola).

E há ainda, segundo ele, o ''escritorizado'' e o ''financiado''.

- Corre por aí um boato de que há escritórios especializados que entregam sambas prontos para várias escolas. O fato é que para emplacar é preciso ter dinheiro. Por isso ninguém assina samba-enredo sozinho. Só que a parceria nem sempre é poética. Ainda resiste a prática de se alugar ônibus e pagar cerveja para torcidas organizadas irem na quadra. Só que esses torcedores não freqüentam habitualmente a quadra nem vão estar lá, na Sapucaí - dispara Luís.

A qualidade da letra do samba-enredo, em termos poéticos, passa fundamentalmente pelo processo de competição das escolas. Antes de tudo, a música que vai embalar os componentes na avenida é uma poesia encomendada. Além das interferências do carnavalesco, há a sombra dos patrocinadores. O grande número de foliões cuja única relação com a escola é uma fantasia comprada em cima da hora pela internet também torna quase uma exigência a composição de letras fáceis de memorizar.

- As pessoas chegam em cima da hora, a letra precisa ser fácil. É muito feio fazer um desfile com 5 mil pessoas e ninguém cantar - lamenta Moacyr Luz.

- O nível cultural dos compositores está muito baixo. Eles buscam soluções fáceis. Não há um samba-enredo que não repita coisas já cantadas. A escola virou uma expressão cultural reduzida a um item mercadológico. Salvo algumas exceções, como a da Mangueira, cujo marketing é todo alicerçado em sua comunidade e sua história - diz Nei Lopes.

Levantar a arquibancada com refrões empolgantes - fáceis -, entretanto, não é garantia de conquista do título. Mas, para a contrariedade dos críticos, ajuda.

- Samba que ganha carnaval é aquele medíocre, mas que pega na veia. Como o Explode coração (do Salgueiro, vencedor de 1993) - dispara Magalhães.

Na Mangueira - que este ano apresenta o enredo Das águas do Velho Chico, nasce um rio de esperança -, o presidente Álvaro Caetano garante que torcida não influi na disputa.

- Tivemos 42 sambas inscritos e o melhor foi escolhido por um júri de 50 integrantes da escola. O samba que perdeu tinha a maior torcida. O conselho permite as torcidas, pois as quadra enche e vende muita cerveja - admite Caetano, que faz este carnaval sem patrocínio.

O lingüista Júlio César Farias defende o compositor:

- Além de seguir a sinopse, o compositor tem de citar o patrocinador e fazer referências à sua própria vivência. E essa inserção não é uma tarefa fácil.

Em algumas escolas, a citação ao patrocinador é clara como água. No ano passado, a Grande Rio foi patrocinada pela corporação alimentícia Nestlé e o samba-enredo trazia palavras como ''moça'' e ''ninho'', referências explícitas aos produtos da marca.

- Foi um pedido da empresa e achamos que não traria nenhum prejuízo. Até encaixavam bem. Este ano não tem problema, pois o enredo é uma homenagem ao Amazonas - conta o diretor geral de carnaval da escola de Duque de Caxias, Milton Perácio.

Ele descreve o processo de escolha da escola:

- Habitualmente trabalhamos com ala de compositores aberta. O carnavalesco pré-determina o que gostaria que abordassem e ganha quem tem sorte. Quem escolhe mesmo é a cúpula da escola, mas levamos a torcida em consideração para saber se o samba vai cair na boca do povo.

Patrocinada este ano pela empresa de chocolates Garoto, a Caprichosos de Pilares traz seu enredo homenageando o estado do Espírito Santo. Produtos da marca também aparecem citados.

- A ala é aberta. Até entregarem a letra, os compositores tem total liberdade de pedir conselhos ao carnavalesco. Durante a disputa o presidente da escola não permite torcida organizada pois quer se prender à opinião da comunidade. O patrocinador não exigiu nada. A marca aparece em banners e camisetas, mas quase 70% dos sambas apresentaram sambas que citavam ''garoto'', ''serenata'', espontâneamente ou na tentativa de vencer. Mas o júri não levou isso em conta - garante Marcelo Andrade, assistente do carnavalesco Chico Spinoza.


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[29/JAN/2006]


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