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A imagem da palavra

Livro de Paulo Sandrini extrapola os limites da própria ficção

Diz o clichê que uma imagem vale por mil palavras. Mas somente as palavras, por sua vez, têm a capacidade de criar imagens na mente humana. Na literatura conservadora, são imagens factíveis com que o escritor habilidoso povoa o imaginário do leitor. Já uma cabeça que sobrevive sem corpo, um par de sandálias que faz voar quem o usa, um micro-robô que viaja pelo corpo humano destruindo células cancerígenas ou um telefone celular que recebe ligações do além são imagens bizarras de autores que não se contentam apenas com o verossímil. Eles gostam de extrapolar os limites do texto e da própria ficção.

Paulo Sandrini, um paulista radicado em Curitiba, é do time dos que gostam de circular pelo absurdo. Ele também é do time dos poucos que fazem isto sem beirar o ridículo, com um texto seguro, mas sem limites na imaginação. Nos contos de Códice d'incríveis objetos & Histórias de lebensraum (Travessa dos Editores - 165 páginas) Sandrini nos apresenta algumas de suas criações estapafúrdias, mas com um bom conteúdo e diversão garantida.

A cabeça que sobrevive sem corpo está em O capacete da imortalidade, conto de abertura e o melhor do livro. Na verdade, a cabeça sobrevive graças a um capacete alemão da Segunda Guerra, que o protagonista encontra em um antiquário. Sandrini começa o conto com uma mensagem aparentemente banal - do executivo que vive para o trabalho, negligencia a família e toma um novo rumo após quase morrer - mas depois conduz o texto para o inusitado. O empresário decide sair pelo mundo de motocicleta, e aí encontra o capacete que torna imortal quem o veste.

O conto Capacete é apenas o começo da imaginação fértil de Sandrini. No segundo conto, Sandálias de Hermes, o dia-a-dia de miseráveis num lixão é transformado numa viagem mágica, com a disputa pelas sandálias que têm o poder do vôo. O protagonista convence o colega a trocar o calçado por cascas de abobrinha e um pedaço de peixe podre. Novamente o conto trafega pela realidade e acaba em sonho. Sandrini descreve a luta daqueles que se alimentam das sobras que encontram no lixo, com uma descrição forte e provavelmente factível. (''Quarta-feira é um dos piores dias. Melhores são as segundas e as quintas. Nas segundas, vem o lixo dos finais de semana. Principalmente os restos da comilança dos sábados e domingos. Nas quintas, vêm os objetos danificados, as revistas com notícias obsoletas, as roupas fora de moda ou com furinhos de traça''.)

A segunda parte do livro, chamada de Histórias de lebensraum, concentra seus enredos na relação entre o homem, o local em que vive e seus costumes não muito saudáveis. Dessa leva, destacam-se Istmo e Oásis, o primeiro tendo uma ilha para representar a possibilidade de uma vida saudável fora do ambiente urbano e o segundo, a moradia no condomínio fechado.

Designer gráfico nas horas não-vagas, Sandrini sabe bem o valor de uma imagem (o autor também assina a edição de arte do livro). Ele não abre mão de produzir figuras bizarras com suas palavras. Mesmo quem não ler Códices... poderá perceber isso nas ilustrações da capa principal e da capa interna. Os desenhos saíram do traço competente de Guilherme Zamoner, mas suas origens estão mesmo nas palavras de Paulo Sandrini. (Paulo Krauss)


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[27/JAN/2006]


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