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Radamés remasterizado e remixado
Documentário sobre o compositor está sendo recuperado e será exibido a partir de hoje na Sala Baden Powell
Monique Cardoso
[26/JAN/2006]
Muitas comemorações já foram feitas e outras tantas estão marcadas para este ano, em que se comemora o centenário do compositor, instrumentista, maestro e arranjador Radamés Gnattali, nascido no dia 27 de janeiro de 1906. Artistas e projetos musicais estão resgatando seu vastíssimo repertório e fazendo sombra aos 250 anos de nascimento de Mozart. Mas é na Sala Baden Powell - a partir de hoje e até domingo, sempre às 18h - que o público poderá não só ouvir, mas ver o maestro tocando as próprias composições no documentário Nosso amigo Radamés, de Aluísio Didier e Moisés Kendler, agora completamente remasterizado e recuperado depois de uma espécie de restauração digital. O documentário ganhou offs e audios novos e será apresentado antes da programação musical da casa, que também é dedicada ao compositor.
- O filme passou por um processo de telecinagem (adaptação da película para o formato de televisão). O som foi remixado e estamos descobrindo detalhes que não eram ouvidos na versão em negativo, por causa do sistema mono de captação do som. É a melhor versão do filme até agora - comemora o diretor e idealizador do documentário, Aluísio Didier, compositor e produtor musical da TV Globo.
Exibido em festivais de cinema e na TV Educativa apenas no ocasião do lançamento, em 1990, Nosso amigo Radamés permanece praticamente inédito para o grande público pois não foi distribuído no circuito. Há quase dez anos, a Brasiliana, produtora responsável, lançou uma versão em VHS acompanhada do livro Radamés de A a Z, uma biografia em verbetes, também de autoria de Didier. Por causa do centenário, o documentário - rodado originalmente em 16mm, com 45 minutos de duração - será exibido em digital não só na Sala Baden Powell, mas em sessões especiais no Clube do Choro de Santos, na Cinemateca de Curitiba e transmitido pela TV Cultura, na madrugada de hoje para amanhã, à 1h30.
- Comecei a rodar este filme em 1983. Ele ganhou menção honrosa nos festivais de Gramado e Brasília e mesmo assim não consegui distribuí-lo. Também acho que falta espaço nas TVs aberta e paga. A cidade tem diariamente programação de música clássica em diversos espaços e de graça. Mas o tratamento na mídia é muito diferente do dado à música popular, presente em todos os programas de televisão - lamenta.
Falecido em 1988, após um AVC, Radamés Gnattali não viu o documentário ficar pronto. O filme só teve permissão do maestro para ser rodado pois Didier fazia parte da ''turma do chopp'' que se reunia com freqüência em bares como Lucas e Alpino, reunindo na mesma mesa Radamés, Tom Jobim, Sérgio Saraceni, Fernando Duarte (fotógrafo do documentário) e outros bambas. Nosso amigo reflete exatamente esse clima informal, de amizade, e mostra uma figura dócil e cordial, que contraria a imagem de rabugento que muitos guardaram do artista.
- Radamés foi o gênio responsável pela consolidação da linguagem da grande orquestra no país. Era incapaz de uma palavra agressiva, mas era uma pessoa impaciente. Sempre nos dizia: ''Vamos acabar com essa meleca e tomar logo nosso chope''. Enfim, era um homem de quinhentos amigos - comenta.
O documentário traz momentos raros, como o concerto no Municipal durante a entrega do Prêmio Shell, recebido por Radamés em 1983, com a orquestra do teatro e o compositor ao piano; o duo de pianos formado com Tom Jobim na Sala Cecília Meireles tocando Sinfonia de Brasília; a gravação de Maninha com com Dorival Caymi; ou em casa, com a família e a gata. Os rolos de Nosso amigo Radamés ficaram desaparecidos por três anos na cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM). Didier deu falta do filme quando o acervo do MAM foi transferido para o Arquivo Nacional.
- Eu só tinha uma fita em beta analógico e uma cópia de uso, em péssimo estado. Quando o negativo apareceu, vi que era urgente transformar em digital por conta da proximidade do centenário - lembra Didier, que na recuperação do filme conta com o talento do editor de imagens Paulo de Andrade, especialista em efeitos invisíveis e colorimetria, com carreira na TV Globo e em Hollywood.
- É um trabalho de artesão. Até a luz está sendo toda remarcada. Vamos exibir uma cópia nova, com excelente qualidade, mas o trabalho ainda demora um mês para ser finalizado - afirma Andrade.
O gaúcho Radamés Gnattali estrou como compositor no Rio aos 30 anos, apresentando sua Rapsódia brasileira. Participou da inauguração da Rádio Nacional, onde trabalhou por três décadas. Fez arranjos para um número incontável de músicas, entre elas as antológicas Lábios que beijei, J. Cascata e Leonel Azevedo e imortalizada por Orlando Silva e Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, com gravação de Francisco Alves. Compôs mais de 600 obras de música clássica - sinfonias, concertos para piano, entre outros estilos - em paralelo à sua carreira na música popular. E também foi homenageado com músicas compostas por Capiba (Um choro para Radamés); Paulinho da Viola (Sarau para Radamés) e Tom Jobim (Meu amigo Radamés). Retribuiu aos três amigos com Capibaribe, Obrigado, Paulinho eMeu amigo Tom Jobim.
- O filme tem o título inspirado nessas homenagens e é uma referência direta à composição de Tom Jobim - conta Didier, também diretor de Um certo Dorival Caymmi (1999) e que prepara, ainda para 2006, o lançamento oficial do DVD em homenagem ao maestro Alceu Bocchino e um DVD com duas composições suas e duas de Radamés, gravados por músicos como Daniel Guedes e Fábio Presgrave, em pontos iconográficos do Rio, como MAC e Solar da Imperatriz.
Além de exibir o filme por quatro dias, a homenagem da Sala Baden Powell traz a pianista Fernanda Canaud, relançando CD com obra de seu mestre Radamés na abertura da programação, que terá também Quarteto Continental, Quarteto Carioca e Trio Aquarius, entre outros artistas. Fernanda toca no dia seguinte no projeto Música no Museu, que também tem toda sua programação de janeiro dedicada ao maestro, composta por apresentações com músicos que foram alunos ou parceiros de Gnattali. Amanhã, a pianista faz com o clarinetista Paulo Moura o concerto do centenário no Centro Cultural Light.
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