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A alegria de ser poeta
Claufe Rodrigues festeja, com 'Escreva sua história', 25 anos de poesia
Com Escreva sua história - antologia poética, seleção de poemas editados pela Fivestar, Claufe Rodrigues comemora seus 25 anos de poesia, ao longo dos quais publicou uma série de livros (de poemas, romances e estudos literários) e teve participação em alguns dos eventos culturais mais importantes da nova poesia brasileira.
Na apresentação dessa antologia pessoal, o autor escreve, com certo humor e algum orgulho: ''Por volta dos 13 anos, meus versos eram tão raquíticos que não resistiam à leitura do dia seguinte. Aos poucos passaram a durar uma semana, 20 dias, um mês...'' Entre sério e jocoso, dirá ainda que ''Deus, da sua alta esfera, recompensava os esforços daquele moleque franzino e cheio de nuvens na cabeça, que faz da poesia sua razão de ser, sua igreja e campo de batalha''.
Estão aí, a meu ver, não apenas uma declaração de princípio - um manifesto de que o poeta parece gostar - mas os pontos cardeais de sua concepção de poesia. Eles apontam para uma tonalidade alegre e ao mesmo tempo crítica (e autocrítica); para o senso de uma realidade bem cotidiana, na linha de um Jorge de Lima dos primeiros tempos modernistas; para a afirmação da poesia, em que parece disfemicamente inseguro (''versos raquíticos'' e ''moleque franzino''); e, finalmente, para a crença, quase irônica, num sentido maior, inspiradora de sua poesia.
No entanto, a repetir aqui o ludismo de Vicente Huidobro, na poesia de Claufe Rodrigues esses quatro pontos cardeais se reduzem a três - alegria de viver e senso crítico da realidade.
Esta polaridade perpassa a maioria dos poemas reunidos em Escreva sua história, título que afirma, aliás, a força artística da escrita e o sentido autobiográfico da poesia, dentro das lignes de vie de Georges Gusdorf.
Os seus melhores poemas se voltam para a tematização da poesia, como O resto é poesia, onde a sombra de Drummond chega a materializar-se no título que se repete no final do poema. Ou se valem de intertextualizações como em Poesia não dá camisa, poema no qual se lê lateralmente o Poeta de camiseiro, de Drummond; o Viver de brisa, de Bandeira; e a Boca de hortelã, de Chico Buarque.
É um processo de aprendizagem que se vai tornando original à medida em que o poeta chega à maturidade dos Novos poemas, de 2004. A presença de Drummond (dos primeiros livros) ainda é visível, mas agora se pode ler o sentido mais profundo da poesia de Claufe Rodrigues. Poemas como Rodeio de palavras e sobretudo o belíssimo Manifesto verso livre são dignos de figurar como exemplos da melhor poesia brasileira na atualidade, como o atesta a estrofe final: ''Que as rimas em ão, bem como os trocadilhos infames Sejam abs(olvidos) lá em cima, pela Grande Luz que nos ofusca. Que os poetas sejam livres para ousar e humildes para aprender. Que cada poema seja o manifesto dessa busca''.
Em Claufe Rodrigues, o sentido de fazer poesia, de fundar nela sua igreja ou seu campo de batalha, parece obliterar o senso crítico da realidade que, no entanto, se alarga do ''infame'' à ''Grande Luz'', levando-o, entretanto, ao sentido da busca e da constante alegria de ser poeta. (Gilberto Mendonça Teles)
[23/JAN/2006]
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