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Marina Colasanti: Dessa vez, um pouco mais que o costume


Recebi o e-mail de um amigo. Mais que amigo, irmão nessa batalha nossa pela leitura. E muito mais batalhador que eu, que fico diante do computador, enquanto ele vai à linha de frente implantando suas Malas de Leitura, pequenas bibliotecas ambulantes que, pela mão dos animadores, chegam a lugares impensados para ajudar a fazer jovens leitores.

Maurício - é o nome dele, Maurício Leite - começou a trabalhar com as Malas junto aos curumins da sua terra. Agora não tem mais endereço fixo. Me escreve de algum lugar de Portugal, contando como esteve em Angola implantando 25 Malas de Leitura. E eu transcrevo a carta porque é tocante demais para ser só minha e porque a questão da leitura não diz respeito apenas aos que trabalham com ela.

''Desta vez, radicalizei um pouco mais do que o costume. Trabalhei numa região de campo minado. Tudo destruído pela guerra. Marcas de bala, tiros de canhão, fogo. Na beira da estrada ainda há tanques de guerra incendiados, ônibus queimados. Uma tristeza! Trabalhei em aldeias perdidas no meio de nada e a caminho do nada. Andei por aldeias à beira mar, onde tudo seria lindo não fosse o medo das minas. Não se pode caminhar nas praias, subir montanhas, andar pelas lindas trilhas. Nosso carro tinha um tapete antiminas, e tínhamos a escolta de soldados dos projetos de desminagem das Nações Unidas.

Corta o coração, quando a gente se depara com uma precária palhoça com crianças sentadas em pedras, latas vazias de tinta, tocos de madeira. No colo um caderninho, no chão pedrinhas e pauzinhos para as aulas de matemática.

Vi muitos olhinhos brilharem de felicidade com os contos que contei. Recebi muitos abraços e sorrisos em troca. Me emocionei muito e creio que emocionei também muitos coraçõezinhos.

Contei histórias em 24 escolas, umas bem distantes das outras. Às vezes viajava um dia inteiro para chegar lá bem longe, no final da província, numa escolinha de uma última aldeia da distante província da Kuanza Sul. E em quase todas as escolas, depois das apresentações, nosso carro era seguido muitos quilômetros por aquelas crianças que vinham sorrindo, cantando e acenando.

Nem sei o que dizer sobre tudo o que se sente num momento assim. O que mais dói é saber que mesmo ali com você, sorrindo e sendo felizes por alguns instantes, a todos eles está reservado um futuro incerto. E que todos sentem fome e que muitos deles, ou a maioria, ou todos, não comeram nada até aquela hora do dia.

Então, eu fico pensando que leitura e hora do conto não matam a fome do corpo e que seus benefícios são a longo prazo. E que um dia sem comer é um prazo muito longo.

Sempre saio cheio de dúvidas e mágoas no coração. Não dá para não ter revolta por viver num mundo em que se permite que milhares de crianças pelo mundo afora vivam em máxima situação de risco, abandono e desespero em seu tão pouco existir.

Há uma frase no livro Terra Sonambula do Mia Couto: 'A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder...' Daqui irei para Maputo, implantar Malas de Leitura. Vou trabalhar com uma freira brasileira, na casa do Gaiato, que abriga crianças órfãs da guerra e da Aids. Em julho vou para o Brasil, implantar 15 Malas de Leitura lá na minha terra, na ilha do Bananal. Vou voltar para a minha tribo, nadar nos rios e tomar muito banho de cachoeira com os meus amigos índios de quem ando com uma baita saudade.

Desculpe o longo e-mail-relatório e desabafo. Com muito carinho do amigo Mauricio.''

Marina Colasanti escreve aos domingos


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[15/JAN/2006]


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