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Ilha da fantasia

Brasileiros encantados por Cuba criam onda de excursões, exposições de fotografia, livro e documentário. Mas o consenso é que se vive da utopia do glamour revolucionário

Bianca Tinoco

Em um mundo no qual o capitalismo dita as regras, os Estados Unidos protagonizam a política internacional e a internet é o principal meio de informação, um pedaço de terra no meio do Oceano Atlântico que permanece socialista, fechada ao mercado americano e de difícil acesso mesmo via satélite é mais que um enigma para quem está de fora: é uma tentação. Junte-se à descrição as belas paisagens do mar do Caribe, o exotismo da cultura de influência africana e o povo caloroso e se tem aí a imagem idílica de Cuba, um dos destinos na América Central mais procurados pelos brasileiros. O canto da sereia atrai anualmente algumas dezenas de artistas nacionais, entre os milhares de visitantes, e o olhar de alguns deles sobre o cotidiano peculiar da ilha está disponível no Rio. Seja em livrarias, lojas de CD, em um centro cultural de Santa Teresa ou a partir de amanhã nos cinemas da cidade, Cuba está em voga. Mas que Cuba, a real ou a do imaginário coletivo?

– Não, a Cuba de hoje é um país em crise e os brasileiros vão para lá buscar Pasárgada (a terra de sonhos do poema de Manuel Bandeira) – diz o documentarista carioca Vicente Ferraz, que morou em Cuba nos anos 80 e lança amanhã seu longa-metragem Soy Cuba – O mamute siberiano, depois de lançamentos comerciais na Itália e nos Estados Unidos.

– Cuba já foi Pasárgada para os próprios cubanos. Os visitantes vão para lá em busca dos anos 60, de uma sociedade mais autêntica, de uma valorização das velhas guardas como a que se vê nos músicos de Buena Vista Social Club (longa-metragem de Wim Wenders, de 1997). É a ânsia de encontrar certa pureza, dignidade – continua o diretor.

A receptivadade dos cubanos é um dos poucos estereótipos sobre a ilha que se confirma, diz Ferraz, que os classifica como “cariocas ao quadrado”. Por sua vez, o premiado fotógrafo Walter Firmo, que promove há dois anos workshops com alunos brasileiros em Havana no final de julho, cita o amigo e intelectual Sérgio Cabral para definir os habitantes da ilha:

– Cabral dizia que Cuba é Madureira no poder. E é isso mesmo, o país é um conjunto de Madureiras (referindo-se ao bairro do subúrbio do Rio), sempre alegre. Em outra geografia, o povo parece localizado ali entre a Bahia e Pernambuco, tão lisonjeiro como o brasileiro. O fascínio que o pessoal daqui sente por Cuba é o do reencontro com a atitude política tropical – afirma.

A fotógrafa carioca Tatiana Altberg, que visitou Cuba em 1999 e publicou recentemente o livro Sí por Cuba (Cosac Naify), diz que o povo é simpático sim, mas parece viver em leve letargia.

– O tempo em Cuba é outro. A sensação é de que todo dia é domingo, tal a calma para conversar, para tudo. É muito difícil compreender a dinâmica e as mínimas contravenções para driblar a burocracia, como contrabando de ovo, de carne – diz ela, que conheceu as cidades de Pilar del Río, Santa Clara, Trinidad, Nuezitos e Santiago de Cuba, além da capital Havana.

Integrante das duas excursões promovidas por Firmo, o advogado carioca Philippe Machado, de 28 anos, também percebeu uma população parecida com a do Brasil. Mas reservada em seus privilégios, restritos aos locais.

– O turista não tem acesso aos mesmos produtos e locais de diversão dos cubanos, principalmente em Havana, que é muito turística. Além disso, todo cubano tem algo de clandestino a oferecer. Em certa medida, a população ainda vive de acordo com a mentalidade socialista, os taxistas não levam seus filhos à escola com o carro porque ele é do governo. Mas é um regime de manutenção muito difícil, que está se desfazendo. É inviável um país se manter só com exportação de charuto – diz Machado, lembrando que as empresas canadenses e espanholas, como a rede de hotéis Meliá, já dominam o mercado para turistas na ilha.


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[12/JAN/2006]


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