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De samba e literatura

Sai a biografia de Orestes Barbosa, um dos maiores letristas da MPB

Há 40 anos, em 15 de agosto de 1966, o Brasil perdeu um grande nome das artes e da cultura. Morreu no Rio de Janeiro o literato completo - letrista, jornalista, poeta e escritor - Orestes Barbosa, nascido nesta mesma cidade no dia 7 de maio de 1893. Ainda menino mudou-se para a Gávea, onde aprendeu a tocar violão com Clodoaldo de Moraes, que, mais tarde, viria a ser pai do poeta e letrista Vinicius de Moraes. Outras informações, completíssimas, sobre este gênio da poesia e da MPB estão no livro Orestes Barbosa - repórter, cronista e poeta, escrito pelo músico e pesquisador Carlos Didier, que já mostrara seu talento na pesquisa Noel Rosa, uma biografia, escrita em parceria com o jornalista e escritor João Máximo.

Amante das letras desde novinho, aos 13 anos Orestes Barbosa venceu um concurso literário promovido pela revista Tico-Tico e, aos 20, iniciou a carreira de jornalista, estreando no Diário de Notícias. O diretor da redação do jornal era ninguém menos do que Rui Barbosa, que se encantou de cara com a habilidade do jovem repórter.

Muito requisitado nas redações, no mesmo ano Orestes Barbosa participou da fundação dos veículos O Jornal e O Imparcial, destacando-se das editorias de polícia a política, sempre com brilhantismo. Durante sua longa carreira jornalística, em que escreveu, editou e produziu reportagens, colunas e crônicas, passou ainda por A Gazeta de Notícias, A Manhã, O Radical, Opinião, O Mundo, A Hora, O Avante, A Folha, A Noite, O Dia, A Notícia, O Globo, Diretrizes, A Pátria e A Imprensa.

Orestes Barbosa se casou em 1916 com Regina Nunes da Costa, com quem viveu até morrer, dois meses depois de completar bodas de ouro. O filho único do casal, Ossian Barbosa, nasceu um ano após o casamento. No ano do nascimento de Ossian, Orestes lançou seu primeiro livro de poemas, Penumbra sagrada. Processado por injúria e calúnia pelo Grêmio Euclides da Cunha (Orestes denunciara pelos jornais que o grêmio estaria se apoderando das obras de seu patrono e publicando-as sem autorização dos herdeiros nem pagamento dos devidos diretos), foi condenado e em 1921 passou alguns meses na cadeia, de onde saiu com os originais do livro-reportagem Prisão, sobre o sistema penitenciário, publicado no ano seguinte.

Só depois dos 30 anos de idade Orestes Barbosa rendeu-se aos encantos da música popular brasileira e aos inúmeros convites para parcerias. Disparou a fazer letras, cada uma mais bonita que a outra, ao lado, entre outros, de Noel Rosa (Positivismo), J. Machado (Romance de carnaval), Oswaldo Santiago (Bangalô), Silvio Caldas (Chão de estrelas, seu maior sucesso, hino da MPB, cujo verso ''Tu pisavas nos astros distraída'' era considerado por Carlos Drummond de Andrade o mais belo da língua portuguesa, Arranha-céu, Suburbana, Serenata, Quase que eu disse e Torturante ironia), Heitor dos Prazeres (Nega e Meu bem), Nássara (As lavadeiras e Caixa Econômica), Custódio Mesquita (Flauta, cavaquinho e violão), Francisco Alves (Adeus e Dona da minha vontade) e Wilson Batista (Abigail e Cabelo branco). Foi parceiro também de Ataulfo Alves e do maestro J. Thomaz.

Fez letras para sambas, sambas-canções, foxes, valsas e maxixes, gravados, entre outros intérpretes, por Silvio Caldas, Zezé Gonzaga, Castro Barbosa, Carlos Galhardo, Aracy de Almeida e Orlando Silva. Diversas canções tiveram regravações mais tarde, entre elas o lindo samba Óculos escuros, por Paulinho da Viola, nos anos 70.

Orestes Barbosa publicou ainda, entre livros de poemas, romances, crônicas e reportagens, as obras Portugal de perto (1923), Ban-ban-ban (1923), A fêmea (1924), Pato preto: crônicas da rua, da cadeia e de Paris (1924), Paris (1929), Samba - Sua história, seus poetas, seus músicos e seus cantores (1933) e Chão de estrelas - Poesias escolhidas (1965).

A biografia será lançada na próxima terça-feira, no Carioca da Gema (Av. Mem de Sá, 79, Lapa), às 19h30. Rara oportunidade de reencontro com um gigante das nossas letras, numa biografia bem escrita. (Luís Pimentel)


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[06/JAN/2006]


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