Em busca do tempo perdido

Mesmo que bem intencionadas, as soluções e propostas para resolver ou minimizar o déficit de bibliotecas públicas brasileiras estão muito aquém das necessidades da população. Para se aproximar dos parâmetros estabelecidos pela Unesco, o Brasil precisa multiplicar sua oferta de livros e democratizar a informação bibliográfica

Sergio Martins

[21/DEZ/2005]

Quando a Unesco distribuiu, a partir de 1994, para todos os governos do mundo, seu manifesto sobre bibliotecas públicas, traçou a filosofia de como elas devem funcionar e determinou um parâmetro claro e objetivo a ser seguido. A série de reportagens do Jornal do Brasil, que se encerra nesta edição, levou em consideração exatamente as propostas da Unesco na análise das bibliotecas públicas do Rio – a cidade vista como um microcosmo de um universo maior que é o Brasil. Com mais de 6 milhões de habitantes, o Rio oferece o modesto número de 29 bibliotecas, que, de acordo com o manifesto, podem ser consideradas públicas, e um acervo liberado para empréstimo de pouco mais de 400 mil livros.

Esses números deixam claro que o déficit é muito grande e que somente poderá ser minimizado se houver uma política que se aproxime do texto de abertura do documento da Unesco: “A liberdade, a prosperidade e o desenvolvimento da sociedade e dos indivíduos são valores humanos fundamentais. Só serão atingidos quando os cidadãos estiverem de posse da informação que lhes permita exercer os seus direitos democráticos e ter um papel ativo na sociedade”.

A biblioteca pública é o portal de mais fácil acesso para se chegar a esse objetivo, segundo a Unesco. E esta premissa é compartilhada por pessoas intimamente ligadas ao incentivo à leitura. Entre elas, o novo presidente da Fundação Biblioteca Nacional, professor Muniz Sodré; a diretora geral das bibliotecas do Estado do Rio de Janeiro, Ana Lígia Medeiros; a diretora de Bibliotecas do Município, Ana Maria Rodrigues, ambas bibliotecárias; o presidente da Academia Brasileira de Letras, ministro (do Tribunal de Contas) Marcos Vinicios Vilaça; o criador do projeto Biblioteca Livre; e o representante comercial gaúcho Jean Scharlau. Cada um, a seu modo, tem uma alternativa para, pelo menos, minimizar o déficit de bibliotecas e, conseqüentemente, de livros oferecidos à população. São propostas viáveis, mas que dependem, justamente, de uma política clara para esse fim.

A Fundação Biblioteca Nacional, independentemente da crise que vem enfrentando nos últimos meses por causa do roubo de imagens raras do Brasil, começa a dar os primeiros passos para um novo tempo. Com pouco mais de um ano de mandato previsto, o novo presidente, Muniz Sodré, tem pressa. Conseguiu, recentemente, junto ao Ministério da Cultura – ao qual está subordinado – a liberação de R$ 29 milhões para instalar 400 bibliotecas no país. O programa, denominado Uma Biblioteca em cada Município existe desde 1996 e pretende instalar pelo menos uma biblioteca em cada cidade brasileira. O total é de 5.560 municípios e até a gestão anterior, do bibliófilo Pedro Corrêa do Lago, seguido posteriormente pela presidente interina Maria Izabel de Almeida, faltavam 1.200 cidades. Em entrevista exclusiva ao Jornal do Brasil, em outubro, antes do convite formal do ministro Gilberto Gil para que ele assumisse a presidência da Fundação, Muniz Sodré falou de outro projeto que pretende realizar no seu mandato: – É um programa viável e pode ser adotado de imediato. Sempre defendi isso. Dei o nome de Bolsa do Livro. As pessoas que recebem o programa Bolsa Família, e são 7 milhões de famílias, deveriam receber pelo menos um livro. Os pobres não têm acesso ao livro e quero levá-los até eles – garante Muniz Sodré. Ele informou, também, por intermédio de sua assessoria de imprensa, que foi autorizado um concurso público para o preenchimento de 84 vagas na Biblioteca Nacional.

A diretora Geral das Bibliotecas do Estado, Ana Lígia Medeiros, embora considerando que a biblioteca é um portal de informação para os estudantes, principalmente os de primeiro e segundo graus, começa a dar força a uma nova filosofia para as instituições que dirige – são oito estaduais em todo o Rio de Janeiro. Segundo ela, é tempo de conquistar o cidadão. Para isso, entende que a biblioteca deve se modernizar em todos os aspectos:

– Estamos modernizando o atendimento. Vamos criar uma espécie de cartão do cidadão, ao qual daremos o nome de Cidadão Leitor. Com ele o associado poderá ter acesso a qualquer de nossas bibliotecas sem burocracia e preenchimento de fichas. Achamos o modelo das Idea Store de Londres muito bom. Assim também vamos pintar nossas dependências de cores fortes. O arquiteto responsável pela reforma já aprovou essa proposta. Assinamos um acordo com a Telemar e vamos adquirir mais computadores e impressoras para acesso livre dos usuários. Além disso, o acordo prevê a contratação de mão-de-obra.

A diretora Ana Maria Rodrigues minimizou as dificuldades e carências das bibliotecas do município, denominadas pela prefeitura de Bibliotecas Populares:

– É melhor ter uma sala com um acervo pequeno do que não ter nada. Sete de nossas bibliotecas abrem aos sábados e domingos (recomendação do secretário das Culturas, Ricardo Macieira) e duas aos sábados.

Para Ana Maria Rodrigues, há uma carência de mão-de-obra, que só pode ser suprida por intermédio de concurso.

– Essa ainda não é prioridade nossa, mas está incluída entre as propostas pensadas para o próximo ano. O acervo será atualizado e o sistema Bibli On (informatização da rede de bibliotecas e do arquivo geral do município) estará totalmente instalado. O sistema vem sendo implantado com sucesso, desde julho de 2003 – assegura a diretora.

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