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O fascínio do cinema por Oliver


Alexandre Werneck

Oliver Twist é um texto inaugural em vários sentidos. A começar para o próprio Charles Dickens (1812-1870), seu autor. Embora The pikwick papers (1837) seja seu livro mais celebrado e o que fez dele um best-seller, e ele seja autor de textos como Um conto de Natal, Grandes esperanças e David Copperfield, Oliver tornou-se seu texto mais influente. A história do menininho que foge do orfanato e vira malandrinho de rua guiado por um mentor mais velho, publicada pela primeira vez em 1838, tornou-se modelo para qualquer história que envolva crianças, sofrimento e criminalidade. Pode ser o menino órfão delinqüente do escritor irlandês Eoin Colfer, Artemis Fowl, pode ser o bruxinho Harry Potter, podem ser os filmes brasileiros Pixote - A lei do mais fraco (1981), de Hector Babenco, ou Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, não há obra que aborde o tema que não seja imediatamente remetida ao retrato acinzentado de Dickens para a Londres da primeira fase da era vitoriana.

Não à toa, então, o cinema é fascinado pelo livro desde seus primórdios. A primeira adaptação foi feita em 1912, nada menos do que aquele que pode ser considerado o primeiro longa-metragem da história do cinema americano. Igualmente, uma filmagem inglesa do mesmo ano é a primeira captação não-documental em celulóide feita na história do Reino Unido. Desde então, o livro já foi objeto de 19 adaptações para as telas, incluída a de Polanski, incluídas aí versões em desenho (uma constrangedora feita pela Disney, aliás), médias-metragens e minisséries de TV. Perde apenas para Drácula, de Bram Stocker - que aparece no Guiness Book, inclusive -, e para Os miseráveis, de Victor Hugo, na disputa pelo título de livro mais adaptado para as telas. As versões mais conhecidas são as de David Lean (1948), rodado em preto-e-branco e representante da fase mais pessimista do diretor de Lawrence da Arábia, e de Carol Reed (1968), que deu cores e sons de musical à história.

Até no Brasil houve adaptação para as telas, embora na TV. Foi em 1960, na antiga TV Tupi, mas não há nenhum registro histórico da produção, que não foi gravada mas teve Sérgio Britto no elenco. Todas as versões investem na reconstituição das ruas e do submundo londrino. Quer seja na versão sombria de Lean quer seja na de Reed (e na de Polanski não é diferente), uma das marcas tem sido a reprodução literal do texto do autor. Extremamente cênico, ele parece ter sido escrito para o cinema, com momentos de ação e cenas de grande impacto visual, como a tradicional imagem do refeitório do orfanato, com os meninos tomando sopa - que inspirou, inclusive, o refeitório de Harry Potter, com fartura em vez de fome.

Oliver já foi vivido por meninos, meninas e até por gatos (no tal desenho da Disney, de 1988, dirigido por George Scribner). E o fascínio pelo personagem e pela interpretação de atores mirins sempre foi parte da mitologia do livro. Por exemplo, o ator que o interpretou no filme de David Lean, John Howard Davies, fez tanto sucesso que se tornou uma das grandes estrelas mirins da Inglaterra. Vitaminado pelo trabalho, ele cresceu, virou diretor de TV e cinema e ajudou a criar o personagem Mr. Bean, do comediante Rowan Atkinson, tendo dirigido todos os seus filmes, além de dirigir a série de TV Flying circus, do grupo de comédia britânico Monty Python. Já Mark Lester, ator do musical de Carol Reed, fez certo sucesso no começo, mas abandonou o cinema e pratica terapias alternativas no interior da Inglaterra.


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[09/NOV/2005]


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