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Dois dedos de prosa: ‘A poesia está por trás de tudo’
Para Suzana Vargas, escritora e idealizadora da Estação das Letras, viver sem arte é perder a melhor parte da vida
Poeta, autora de livros infanto-juvenis e ensaísta com vários livros publicados, a gaúcha de Alegrete Suzana Vargas é antes de tudo uma batalhadora em defesa dos autores, dos livros e da literatura. Além de dirigir a Estação das Letras, idealizada por ela e que oferece oficinas de leitura e escrita para iniciantes e iniciados no ofício, Suzana ministra oficinas de poesia e leitura também em universidades e entidades culturais por aí afora. Colaboradora eventual dos cadernos Idéias, do JB, e Prosa e Verso, do Globo, vive intensamente o dia-a-dia do livro. Tem poemas traduzidos para o espanhol, o inglês e o italiano. (Luís Pimentel)
- Você tem vários livros infanto-juvenis e também publicou ensaios, mas é essencialmente poeta, autora traduzida em países como Itália, Estados Unidos e Argentina. A poesia é mesmo necessária?
- Você pode até viver sem poesia, como pode viver sem muitas coisas, mas talvez esteja perdendo a melhor parte da vida, o colorido que a poesia dá às nossas ações, nossas lutas diárias. Acho, sinceramente , que a vida perde um pouco o sentido sem ela. A Adélia Prado tem um poema em que diz: ''De vez em quando/ Deus me tira a poesia/ Olho pedra, vejo pedra mesmo /O mundo cheio de departamentos'' (....) Você vira uma espécie de funcionário sem pasta quando não consegue perceber a poesia do mundo. Quanto a mim, apesar de aparentemente trabalhar em várias direções, tenho plena consciência de que a poesia está por trás de tudo.
- O Antonio Brasileiro escreveu belo ensaio, Da inutilidade da poesia, para futucar aqueles que buscam o chamado ''motivo das coisas'', como se motivos existissem. O poema precisa dar algum recado ou basta tentar decifrar o tempo e se aproximar do inacessível?
- Ainda não li o ensaio do Antonio Brasileiro, mas vou logo concordando de cara quando ele diz que os motivos não existem. Nós é que criamos os motivos ou eles vão se criando dentro e fora de nós. Um poema pode existir sem mensagens, sem pretensão a verdades. Acho até que quando elas aparecem demais o poema sofre, fica menor, restritivo. Decifrar o tempo é uma boa pedida. A poesia, na verdade, é uma tentativa sempre frustrada de aproximação do inacessível. Sempre em direção ao silêncio, na contramão de tudo, porque em geral as pessoas acham que falar vai resolver, não? E é exatamente o contrário. Quanto mais falamos, menos entendemos. A poesia é sábia até na sua forma.
- Entre Por um pouco mais (1979) e O amor é vermelho, editado este ano, você lançou mais uma meia dúzia de títulos, sempre bem recebidos pela crítica. E o público, responde bem?
- Que público? A poesia enquanto gênero não tem público, não tem ''mercado''. São muito poucos os leitores, sempre foram. E isso não é uma queixa... Aqui no Brasil e em qualquer lugar do mundo! Todos os autores, sem exceção, sofreram com isso, mesmo os famosos. A resposta que um poeta tem está sempre restrita aos seus pares, seu círculo de amizades. Entre estes, a resposta tem sido boa, embora eu publique pouco. O último livro de poemas que editei foi o Caderno de outono, de 1997. Sou quase uma turista como autora. Mas gosto desta condição porque fico mais livre para publicar só o que eu entendo que mereça estar em livro.
- O seu ensaio Leitura: uma aprendizagem de prazer (José Olympio) está na terceira edição. Fale um pouco dele.
- O Leitura foi minha dissertação de mestrado na UFRJ. É o resultado do meu trabalho em sala de aula. Descrevo procedimentos de 25 anos ensinando literatura. Ali está a origem de tudo o que construí até hoje. Defendi a tese em 1988. As Rodas de Leitura (no CCBB) e outros projetos de incentivo à leitura e à escrita nasceram dessas aulas. Apliquei nesses programas os mesmos princípios que adotava em sala de aula: ler, ler e mais ler. E escrever, é claro. É um livro que ainda vende bem. Os professores gostam porque é bem simples, uma ferramenta de trabalho.
- E os livros infantis e infanto-juvenis, que beiram uma dezena, como estão no mercado ou nas escolas? Você é uma autora que costuma ser adotada?
- São oito livros ao todo. Três deles estão sem editora agora (as editoras fecharam). Os outros vão vivendo por aí. Alguns vendem mais que outros. O primeiro, Doce de casa, já esteve em duas editoras. Nas duas vendeu muito bem. Agora está na 5ª edição na José Olympio, o Cochicho também. São livros de poemas infantis. Um deles foi musicado e as partituras estão impressas. Numa próxima edição vou tentar fazer um CD. Tenho outros que vão vendendo razoavelmente, creio. Às vezes tenho notícias de adoções, mas não controlo muito isso. Deixo esta parte com a Lúcia Riff, minha agente. Como também aqui publico pouco, vou virando turista. Mas não quero publicar apenas para comparecer na praça...
- Você idealizou e coordena a Estação das Letras, que oferece oficinas de leitura e escrita para iniciantes. Seus cursos já revelaram alguns autores significativos?
- A Estação é uma paixão que em 2006 completa dez anos de existência. É o resultado também de meu trabalho com leitura e escrita. Dou oficinas de poesia há mais de 20 anos. Antigamente era na casa dos alunos, depois criei a Estação. Acho que é o único espaço (e não é pretensão dizer isso) no país que se dedica a oficinas de criação e escrita sem subvenção de ninguém. Acho até que lançamos moda. A verdade é que nossos cursos já revelaram alguns talentos da nova literatura, muitos alunos já publicaram seus livros por editoras do circuito oficial, já venceram concursos, alçaram vôos solos. Estão por aí ganhando prêmios nacionais e até internacionais. O último foi o João Paulo Vaz, que venceu o Prêmio Josué Guimarães da Jornada de Passo Fundo/ 2005.
- Você vive de direitos autorais ou de ''direitos e tortos'', como diria o João Antonio?
- É engraçada essa pergunta. Talvez eu viva do direito de ser autora. Acho esta uma empreitada difícil. Você precisa vender muito para viver de direitos autorais. O livro precisa alcançar algumas tiragens para poder pagar um aluguel ou mesmo o condomínio. Em todo caso, vamos publicando, esperando melhores condições de venda, mais leitores, um trabalho melhor nas escolas, quem sabe uma reformulação total do ensino da leitura e da língua portuguesa. Volto, portanto, ao ponto inicial de nossa conversa: formação de leitores que possam chegar à poesia do livro.
[10/OUT/2005]
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