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A revolução no cinema


A mostra Dziga Vertov vai de terça a domingo no CCBB, depois de uma semana de cinefilia em São Paulo e antes de outra, em Brasília, na semana que vem. Espécie de cigano na companhia dos filmes pelo mundo, Jean-Pierre Gorin colaborou, durante sua entrevista ao JB, na feitura das sinopses publicadas nesta página, em ordem de exibição.

PRAVDA (1969, 58 MIN)

O título significa “Verdade” em russo e era também o nome do órgão oficial de imprensa do Partido Comunista soviético. É uma crítica ao revisionismo e um resgate das idéias de Dziga Vertov na valorização do som e da imagem. Foi filmado clandestinamente na antiga Tchecoslováquia após a Primavera de Praga, usando o vermelho para repensar o desbotamento das imagens do mundo e fazer a analogia com o sangue.

Exibição: terça-feira, às 17h, e sexta-feira, às 21h.

SONS BRITÂNICOS (1969, 52 min)

Uma reflexão sobre as condições de trabalho, a alienação dos operários e as formas de produção. O filme é pontuado por canções revolucionárias. A moça nua em casa, subindo e descendo escada, causou polêmica há 36 anos. Exibição: terça-feira, às 19h.

UM FILME COMO OS OUTROS (1968, 100 min)

Jovens discutem o mítico Maio de 68 na França. Eles se rebelavam nas ruas, faziam passeatas e assembléias, enquanto um grupo de jovens sentado no chão conversava sobre política. É um exemplo das intervenções na montagem e da fusão som-imagem pretendidos pelo Grupo.

Exibição: dia 23, às 21h; dia 24, às 17h

VENTO DE LESTE (1970, 100m)

Único que já passou no Brasil. É a adaptação de um texto sobre ideologia marxista do filósofo francês Louis Althusser, que nasceu no fim da Primeira Guerra e suicidou-se em 90. O que não impediu ao Grupo de qualificá-lo um “faroeste revolucionário”, centrado na retórica, na história, no destino e na reinvenção do cinema. O argumento foi sugerido por uma das grandes lideranças de 68, Daniel Cohn-Bendit, e tem como atores a estrela comunista do western spaghetti Jean Maria Volonté, e o cineasta baiano Glauber Rocha. Foi filmado em 12 dias no apartamento parisiense de Godard.

Exibição: quarta-feira, às 19h

VLADIMIR E ROSA (1971, 103m)

Este filme político “alegre” inaugurou a era punk. Iconoclasta e irreverente, Godard faz o papel de Vladimir Lênin; Gorin, de Rosa de Luxemburgo. Com jeito cômico, discute a construção de uma nova linguagem cinematográfica e reflete sobre política em conversas no microfone/headfone e em um gravador, tudo dentro de uma quadra durante uma partida de tênis. Original desde o início, o filme anuncia que está sendo feito para financiar outro, rodado pelos diretores na Palestina.

Exibições: quinta-feira, às 19h30, e sexta-feira, às 19h.

CARTA PARA JANE (1972, 52m)

Custou ao Grupo três semanas de elaboração, um dia de filmagem, outro para a gravação de voz, duas horas de mixagem e um orçamento de “cento e poucos dólares”. São 52 minutos de desconstrução da famosa foto tirada por John Kraft e publicada no L'Express, mostrando a atriz Jane Fonda no Vietnam. A foto rodou o mundo e custou à atriz o apelido de Hanói Jane e a acusação de ter sido usada pelos vietnamitas. É um estudo sobre o enquadramento da foto e de sua utilização pela imprensa. Foi elogiado pela ensaísta americana Susan Sontag – que morreu no ano passado – no seu ensaio Sobre fotografia: “Uma lição exemplar sobre como ler uma fotografia e decifrar seu inocente enquadramento, ângulo, foco...”

Exibições: sexta-feira, às 17h, e domingo, às 20h.

TUDO VAI BEM (1972, 95 min)

Gorin diz que este “teatro político” marxista-leninista foi a última homenagem do Grupo a Bertolt Brecht antes que caísse a cortina sobre as energias liberadas pelo Maio de 68. Talvez seja o mais profissional, um filme que ironiza a “história de amor” protagonizada por Fonda e Montand, e não deixa nenhum símbolo de 68 de fora: greve, seqüestro de patrão, radicalização da esquerda contra a força sindical, saque nos supermercados, alienação da imprensa, discussão da relação masculino-feminina, dupla jornada das mulheres Exibições: sexta-feira, às 17h, e domingo, às 20h.

LUTAS NA ITÁLIA (1970, 76 min)

O fio condutor é a estudante universitária Paola, que trabalha para uma organização comunista. O filme mostra as contradições de Paola, que se acredita anticapitalista, mas escorrega na sua origem burguesa. As teses de Maio de 68 são novamente de Althusser. A luta entre som e imagem faz a paródia da luta política.

Exibição: sábado, às 19h.

AQUI E ACOLÁ (1976, 60 min)

Um confronto com as dificuldades de um filme “militante” concebido e rodado em 1972. Encarregados dois anos antes pela Liga Árabe de filmar Até a vitória, Gorin e Godard rumaram para a Jordânia do movimento palestino Al-Fatah, liderado por Yasser Arafat. O filme levou mais de cinco anos para ficar pronto e, quando foi para as telas, o Grupo Dziga Vertov já não existia. Várias pessoas que apareciam nas filmagens haviam sido mortas pelo Exército Jordaniano no Setembro Negro. Novamente com imagens, sons e histórias modernamente superpostos, permanece politicamente lúcido, embora tudo tenha mudado no mundo árabe de lá para cá.

Exibições: sábado, às 21h, e domingo, às 20h.


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[21/AGO/2005]


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