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A câmera-grupo
No Brasil para participar de mostra de filmes do Grupo Dziga Vertov, que fundou nos anos 60 com Godard, o diretor Jean-Pierre Gorin diz que essas produções anteciparam a realidade atual, onde não existe criação sem produção coletiva
Norma Couri
[21/AGO/2005]
SÃO PAULO -
Quem não viveu sua dose de anos 60 terá a chance de resgatar cinematograficamente o fértil período durante a Mostra Dizga Vertov, que exibe nove filmes emblemáticos a partir de terça-feira no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio. Naturalmente não são esperados cinéfilos de barba, cabelão e todos-os-problemas-do-mundo-resolvidos-na-cabeça, como nas filas do Cinema Paissandu, no Flamengo, em meados da década. Mas com certeza os filmes despertarão lembranças entre os mais velhos e um gosto de mudança entre os mais novos. Filmadas no auge da fase revolucionária de Jean-Luc Godard, entre 1968 e 1972, e co-dirigidas por Jean-Piere Gorin – que está no Brasil para participar das sessões – as produções são inéditas entre nós, à exceção de Vento de Leste.
– Vertov foi um cineasta na contramão de tudo e de todos, e entendia de uma coisa moderníssima chamada mídia. Ele pensava o som e o grafismo, e deu o mapa da mina para o cinema coletivo que queríamos inaugurar – diz Gorin, parisiense de 62 anos que foi o mentor de Godard na época e que pôde ser visto perambulando pelo CCBB de São Paulo durante a exibição da mostra na capital paulista.
Marcadas por uma militância de inspiração maoísta contra o capitalismo e a burguesia, as produções são o supra-sumo do Grupo Dizga Vertov, formado justamente por Godard e Gorin. Trata-se, pois, de um raro momento de reflexão cinematográfica, particularmente sobre a obra do cineasta russo que deu nome ao grupo e o impregnou com conceitos como o de câmera-olho.
A mostra, que até o final do ano terá percorrido sete países, abre com Um filme como os outros (1968), que traça um retrato de Maio de 68 na França. Vento de Leste (1970) é um “western spaghetti revolucionário” com o italiano Jean Maria Volonté e com Glauber Rocha definindo o cinema político com uma frase de Caetano Veloso: “Perigoso, divino, maravilhoso”. Tudo vai bem (1972) tem Yves Montand e uma Jane Fonda morena de cabelo repicado nos papéis principais.
Cineasta que abandonou a França em 1975 para lecionar na Universidade de San Diego, Califórnia, onde mora, Gorin tinha 24 anos e era editor do suplemento literário do Le Monde quando conheceu, em 1967, o mito Godard. Filho de pais judeus trotskistas, formado em Filosofia, Gorin, 13 anos mais novo que Godard, foi quem batizou o grupo de Dziga Vertov. Mestre do cinema soviético, Vertov (1896-1954) fez um manifesto consagrando o que chamou de câmera-olho e câmera-lápis, ou seja, a busca de cenas e gestos cotidianos mais verdadeiros, contra a “direção” cinematográfica e a teatralização. Vertov arrumou uma briga com outro pai do cinema soviético, Sergei Eisenstein, que contestou o cinema-olho com o seu cinema-punho, chamou sua poesia visual de “palhaçada formalista” e elegeu o realismo soviético como estética máxima. Eram os primeiros anos da Revolução Russa de 1917, os nervos políticos ferviam. Eisenstein ganhou a parada e Vertov foi para a prateleira. Reabilitado primeiro pelo francês Jean Rouch (1921-2004) como germe do cinema-verdade, Vertov foi eleito por Gorin e aceito por Godard.
Por ter conseguido arrastar para a criação coletiva um criador que acalentava a mística do cinema autoral, Gorin foi considerado a Yoko Ono de Godard. Alterou a conduta de um sismógrafo do cinema como Godard, tanto quanto a mulher do iluminado John Lenon fez com ele.
– Éramos uma utopia e uma paródia ao mesmo tempo, e garanto que esses filmes alimentaram as forças criativas de Godard, que saiu de um período um tanto estagnado para o furor que dura até hoje.
Gorin só conseguiu esse feito porque a essência dos filmes de ambos era política. Eram os anos da releitura de Marx, Engels, Mao, divisores da esquerda de linha soviética ou chinesa. Ele e Godard optaram por Mao.
– Esses filmes foram os últimos avatares, reinventores da idéia da felicidade, passando pelas revoluções americana e francesa. Minha geração tinha a inocência de acreditar que podia mudar o futuro e salvar o mundo – diz ele.
Pela primeira vez no Brasil, Gorin fala com admiração de Glauber Rocha, com quem dividiu um quarto nos Estados Unidos nos tempos magros, e do Cinema Novo, que o cineasta baiano ajudou a fundar e do qual foi um dos porta-vozes.
– Só Terra em transe eu vi 54 vezes. Os fuzis, de Ruy Guerra, outras tantas.
Mas ele também reverencia Julio Bressane, Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade, Cacá Diegues.
– É um desrespeito ao passado não existirem cópias decentes em DVD desses filmes. Eles foram, junto com Oshima, no Japão, a convergência de influências que precisávamos entre o terceiro e o primeiro mundos.
Gorin já não se rotula um marxista, o que, segundo ele, deixa em sua cabeça bastante espaço para pensar, refletir e ter fé, inclusive na nova geração.
– Apresentar aos jovens um mundo sem saída é semear desesperança e eu quero o contrário, quero dizer que há uma enorme excitação no ato de mudar, como nós mudamos, nos anos 60.
Gorin diz que os filmes do Grupo Dziga Vertov podem parecer relíquias das ruínas de Tróia e que a política difundida por eles transforma os diretores em dinossauros:
– Mas despertam a retórica da beleza da imagem e do som, como faria um D. W. Griffith nos primeiros anos do cinema. Eu devo estar morto e não sei, mas digo que esses filmes são um elo para a modernidade.
Griffith, diretor de O nascimento de uma nação (1915) e Intolerância (1916), que morreu em 1948, dizia que “o que falta nos filmes modernos é beleza – a beleza do vento balançando as árvores, o leve sopro numa árvore florida”. Para Gorin, a modernidade cinematográfica é ditada, entre outras coisas, pela interpenetração de sons, textos e imagens. Algo parecido com o que acontece a um pós-moderno browser em um computador.
– Essa superposição estava nos nossos filmes, que traziam a retórica da
beleza, do grafismo, da linguagem. Eles anteciparam a realidade que vivemos hoje, onde não existe criação sem produção coletiva.
Conectar os filmes do Grupo Dziga Vertov aos jovens individualistas dos anos 80
parece uma tarefa impossível. Mas, para ele, parece também que o círculo da história favorece a apresentação dos filmes outra vez.
– Eles ficaram engavetados todos esses anos. Eu e Godard só nos reencontramos no ano passado por causa da organização da mostra – explica.
Gorin diz que a crítica na arte está empobrecida e os filmes produzidos em Hollywood, desvirtuados. Hoje ele procura seus gurus entre os iranianos, os chineses, os alternativos, e acredita que o bom cinema pode conquistar o olhar dos mais jovens, viciados em videogames e telenovelas.
– Como Bertolt Brecht escreveu três anos antes de morrer (em 1956), “o povo
revolta-se, vamos mudar o povo”. Minha geração era avessa à narração no cinema e podia se dar ao luxo de ter horror a dinheiro. Hoje, me reconciliei com a idéia do prazer, Che é uma logomarca, o dinheiro está rareando e o cinema desvirtuou-se tanto que temos de beber na Hollywood dos anos de 20 a 50 e em Nicholas Ray (de Juventude transviada), nunca em Michael Moore
(documentarista, diretor de Tiros em Columbine).
Gorin diz que “amadureceu, graças a Deus”, mas não traiu a essência dos anos 60.
– Temos de reconciliar a nova geração com o enredo, a forma, o cinema. Por isso, os filmes do Grupo Dziga Vertov ainda fazem sentido.
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